. .
Diginet
Win Rodrigues

Win Rodrigues - wintemberg@digi.com.br

Comentário Empreendedor

Wintemberg Rodrigues, 28, é administrador pela UFRN e empreendedor. Escreve semanalmente na coluna "Comentário Empreendedor" que aborda temas sob o enfoque empreendedor, buscando soluções, quebrando paradigmas, ampliando o campo de visão e empreendendo grandes idéias.

O fim do trote medieval e as novas alternativas de integração do calouro à Universidade

sexta-feira, 22/dezembro/2006

COMENTÁRIO EMPREENDEDOR

A palavra “trote” significa: zombaria, gracejo ou indiscrição que se comete com alguém. Brincadeira que estudantes veteranos fazem com os calouros.

Era 22 de fevereiro de 1999. Inicia o curso de graduação para 180 alunos da Faculdade de Medicina da USP. Aula inaugural. Tema principal da aula: “a necessidade de praticar medicina de maneira humanitária”. O trote é anunciado, mas pede-se que os que não quiserem participar do trote pode se retirar pela porta dos fundos do Teatro da FMUSP. Aproximadamente quarenta pessoas optam por sair por aquela porta e não participar daquele tipo de comemoração. Começa a tradicional sessão de corte de cabelos. No ar, poeira de farinha. Ovos. Tintas nos novatos. A festa começa. A fila segue para um clube. Os calouros são lavados. Sentados nas arquibancadas da piscina, cantam estimulados pelos veteranos. Bebem. Pulam na água. Chuva. Churrasco. Bebida. Música. Arrastam-se pelo chão. Brincadeira da colher. ETC. ETC. ETC.
É tarde. Vem a Noite. A escuridão. O silêncio. Então o sol volta a brilhar esquentando a água da piscina onde jaz um corpo de um dos calouros da Faculdade de Medicina da USP. Professores, veteranos e calouros estão em volta da piscina. Choro. Silêncio. Tristeza. Consternação. Importência. Medo. Aflição. Incredulidade. Luto. E as perguntas que ficavam no ar: teria havido violência? fora morto por alguns colegas emocionalmente mais descontrolados? Alguma sessão de tortura? (Citação indireta de Maria do Patrocínio Tenório Nunes Warth e
Luiz Felipe Lisboa)

Se não houve violência e foi apenas um acidente, então como as pessoas só foram saber no outro dia e não na hora do acontecido?

Esse é um dos relatos mais trágicos e mais recentes acontecidos em trotes pelo mundo afora. E que incendiou de vez a discussão que propiciou um xeque-mate no trote violento no âmbito do Brasil.

Até hoje pessoas morreram, outras foram humilhadas, ainda outras sofreram agressões a ponto de ter que passar por cirurgias. Foram agressões, fatalidades, aberrações, ações típicas do paganismo medieval.

Vamos às origens.

Já no tempos medievais o trote era praticado de forma humilhante e alheia à cultura cristã de moralismo, razão pela qual sempre houve proibições, contestações, pessoas do contra que nunca aceitaram a idéia do trote. Sendo assim, já em 1342 o trote estava sendo severamente reprimido na Universidade de Paris.

Pelo mundo afora, inclusive nos Estados Unidos, mesmo com todo moralismo de sua tradição, o trote tem sido implementado e causado polêmica. Sempre. Não é algo, pois, que sempre foi tido como agradável por todos. Desde os primórdios esse ato vem sendo reprimido pelas partes que, tendo participado ou não, não concordam com a violência (física ou moral) que o trote no Brasil e no mundo já causou a tantos calouros.

Em muitos casos, a violência se dá apartir do momento em que o aluno não tem o direito de deixar de participar. Depois, o aluno que ingenuamente vai participar, não sabe o roteiro de tudo o que será feito. Então, como ele poderá aceitar algo se sequer sabe que algo é esse? Pode ser que ele esteja pensando uma coisa e será completamente diferente. Então, ele que aceitou no início, será que pode desistir durante? Nada disso está claro.

O trote veio ao Brasil pelos estudantes brasileiros que estudavam em Portugal. Sobre a história do trote em Portgual o site Trote da Cidadania assim escreve:

“Concentrado basicamente na Universidade de Coimbra, as investidas de Novatos consistiam em constante humilhação, agressão física, extorsão e o canelão, isto é, o chute com o qual os novatos eram recebidos nas salas de aula. Em Coimbra, chegaram a se formar grupos de estudantes conhecidos pelas maldades que praticavam por toda a cidade desde que os novatos, ou louraças, chegavam à cidade. Os mais famosos desses grupos foram o Rancho da Carqueja e o Palito Métrico cuja fama ainda “assombra” a cidade. Entre os lemas destes grupos estava a máxima: ŽSer calouro é ser asno de ouro, e ser asno de ouro é ser quase lente a menos que genteŽ”

Essa caracterização de violência é típica das práticas medievais. Porém, mesmo hoje, no século XXI, as coisas não mudaram completamente senão por conta de mortes, acidentes, fatalidades que têm acontecido. Porque as autoridades só têm despertado para a questão do trote depois que vítimas são feitas, numa indicação clara de como é mais fácil ver o fogo depois que a casa já estiver toda em chamas.

Todos querem saber: o que motivou os alunos de nível superior veteranos a violentarem os novatos em todos esses casos passados? É um caso para teste de psicologia. Mas, uma hipótese é de que haja uma ponta de ciúme da Instituição que faz com que os veteranos tenham que provar que ali são eles que mandam. O que na verdade não condiz com a realidade, pois quando o calouro ingressa na Universidade tem tanto direito quanto aquele que está concluindo. É claro que são várias as motivações. Algumas até nocivas, outras, creio, nem tanto.

Mas… sejam essas motivações nocivas ou não nocivas, queiram os veteranos e calouros das faculdades ou não, uma coisa é certa: o trote violento e tradicional típico da idade média chegou ao fim. É só uma questão de tempo para as Universidades amadurecerem e debaterem mais essa questão.

Então, estamos numa fase intermediária. Já existe disk denúncia, etc. Mas, isso é pouco. O trote não vai mais ser “trote”. Ele tomará a conotação cidadã, de responsabilidade social. Tudo isso graças a quê? Graças a uma lenta conscientização de décadas, quiça centenas de anos em que as pessoas foram concluindo, como concluíram que a guerra não é legal, que o trote violento deve ser definitivamente abolido. E hoje é proibido. Basta apenas que isso seja mais formalizado.

As pessoas acham que trote violento é matar ou agredir fisicamente. Não. Violência pode ser caracterizado pelo constrangimento físico ou moral através do uso da força. Então, quando alguém diz: “não quer participar”, como aconteceu várias vezes, ele deve ser obedecido. Pronto. Apartir da desobediência já caracteriza-se pelo trote violento. Se alguém estiver participando sem querer, é violência.

Então, o trote cidadão chegou e tirou de cena o trote violento que tende a perder cada vez mais espaço na medida em que as pessoas foram evoluindo suas idéias acerca do assunto, com participação de todos, inclusive a sociedade. Porque o fato de o trote ser tradição não prejudica que ele evolua. Ele pode ser algo benéfico. E o trote violento deve ser terminantemente proibido, o que acredito que ainda não é uma realidade prática.

O trote cidadão é uma forma de os veteranos mostrarem que são criativos, fazendo algo de benéfico para a sociedade. O bom profissional não deve estar ligado apenas nos seus interesses. Ele deve estar comprometido com o benefício social de seus atos.

Para que o trote violento seja realmente extinto, dando lugar a trotes criativos, será necessário muito mais que um decreto. Para isso é imprescindível que toda Universidade brasileira crie uma “Lei do Trote” que vai tratar dos detalhes do trote, para que esse não seja violento, e sim cidadão.

A lei do trote deve regulamentar o trote como um ato com a participação da Universidade e do professor também. Deve haver um termo de compromisso para os que quiserem participar assinarem. Antes de assinarem, os veteranos devem apresentar o roteiro do trote, com tudo que vai acontecer. Para então os calouros decidirem se querem ou não. O trote deve estar devidamente registrado na Universidade, com um departamento que se encarregará dessa questão. O trote deve ter acompanhamento de uma representação da Universidade.

Além pode dizer que ficaria muito sem graça, muito formal, etc. Que seria necessário realmente fazer o medo e a pressão. Então, essa seria uma apologia ao trote violento (com coação). Mas, não estamos mais na idade média. É hora de evoluir.

Se o trote não puder ser dessa forma, com civilidade e inteligência, então o trote não é bem vindo jamais. Porque a foram preciso anos de história para que a comunidade universitária avançasse um pouco nessa questão a ponto de não permitir o trote violento. Mas, resta agora formalizar mais tudo isso. Ainda há muito a evoluir. Mas, muita gente está parada. Talvez esperando outras violências acontecerem. A Universidade não pode mais fazer vistas grossas a tudo isso. Não estamos mais na idade média, conhecida também como idade das trevas. Estamos em pleno século XXI, e devemos acordar para esses detalhes que todos os anos causam polêmica nas Universidades.

Se a Universidade é realmente o berço de gênios, acreditamos que exista criatividade para trotes que sejam bem vistos pela comunidade, ou seja, trote cidadão. Esse é o desafio. E Universidade é lugar de vencer desafios intelectuais. A forma como o trote é feito vai dizer muito sobre a qualidade dos seus executores.

3 comentários

  • Pri : -

    que podre cara..
    nada a ver

    trote eh pra curtir mesmo
    contanto que nao haja violencia..

    eh pra comemorar a entrada da galera na facu meo..

  • Samuel : -

    A democracia é desejo de todos, somente aqueles que desejam inflingir o direito alheio ou sobreviver em detrimento dos demais, isto é, de forma parasita, que é a favor de um ambiente ditatorial, o trote deve ser algo opcional. Por mais simples que seja, o calouro deve ter o direito de escolher se quer ou não participar do mesmo. Pra mim, esse argumento (descrito em uma língua estranha, que de longe assemelha-se a o Português): ” ‘eh’ pra comemorar a entrada da galera na ‘facu’ .” Só é válido para os veteranos, os calouros que sofrem imposições por parte de débios mentais são vítimas. Não apoio em hipótese alguma essa atividade. Jamais farei isso nem com um animal irracional desprovido de direitos, muitissímo menos com um ser humano!

  • Wintemberg Rodrigues : -

    Olá Samuel:

    Como você percebeu a crítica não é que deixe de haver uma brincadeira, mas que seja algo educado e não medieval como acontece. É preciso civilizar o comportamento de alguns jovens universitários para evitar tantas tragédias. Acreditamos que estamos caminhando para um comportamento mais à altura do cidadão universitário.

Comente!

Veja mais artigos de Win Rodrigues