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Win Rodrigues

Win Rodrigues - wintemberg@digi.com.br

Comentário Empreendedor

Wintemberg Rodrigues, 29, é administrador pela UFRN e escreve, às quartas-feiras, sobre desenvolvimento brasileiro, política externa e temas gerais sob a ótica do empreendedorismo.

Filosofia de dívida

sexta-feira, 14/novembro/2008

Dívida é uma coisa séria. Foi a dívida dos yankees que começou com toda essa história de crise. Mas, aqui no Brasil também precisamos dar um basta na filosofia “what you see is what you get” (o que você vê é o que você consegue). Porém, nem tudo que you see now é o que you have to get now. Por isso, a chave para evitar as futuras dívidas é a velha e boa paciência. Mas, como muitos preferem viver de aparência, acabam entrando no mundo dos sonhos do crédito fácil. Então, quando acordam do sonho em que esquiavam em Aspen dão de cara com uma imensa bola de neve.

Dívida é igual a “curso superior”: quem está fora quer entrar e quem está dentro quer sair. Por isso, meu caro neófito e amigo universitário, a não ser que você tenha muita lenha pra queimar, não se alegre muito por ter um cheque especial à sua disposição. Mas, se você teve que usar não atrase, ok? Quem avisa amigo é. Por isso trate logo de pagar tudo e fique bem longe dessa armadilha. Então, use seus poucos recursos financeiros de universitário para coisas mais urgentes, como investir em concluir seu nível superior. Depois, quando você estiver seguro de um emprego, e não numa aventura de estágio remunerado, então você poderá muito bem fazer dívida, mas a dívida boa. Dívida boa?

O que seria uma dívida boa? Primeiramente, a dívida que você tem segurança e condição de pagar sem comprometer capital de giro, investimentos e as demais despesas fixas e variáveis. O problema da dívida é que a pessoa que tem o poder de compra na mão mergulha num sonho: o sonho do “todo-poderoso” consumidor. Olhe, não se engane com seu cartão, nem faça festa quando recebê-lo. Coloque num baú com sete cadeados e só abra esse trem quando você tiver um bom, quer dizer um ótimo, ou melhor, um excelente motivo. Ele é perigoso e pode lhe dar uma falsa sensação de milionário. Se liga. Mas, para ter uma dívida boa você precisa primeiramente ter um salário bom e certo. Não valem empregos hoje sim, amanhã não. Mas, se seu emprego é certo, assinado em carteira e protegido, tudo bem. É exatamente a instabilidade no emprego que faz com que as dívidas se acumulem. Por isso, procure um emprego sério e seguro, com carteira assinada e com um bom salário. Em segundo lugar, mesmo quando o sujeito tem um bom salário, ele pode mergulhar em ótimas dívidas. Por isso, separe as ovelhas dos bodes. Coloque as dívidas sérias e indispensáveis de um lado, e as dívidas dispensáveis de outro. É a escolha entre casa ou automóvel. Se você compra uma casa, ótimo, não vai pagar aluguel e poderá comprar o automóvel depois. Mas, se você compra um automóvel primeiro, vai pagar aluguel, gasolina, prestação do carro, e companhia. Afinal, para ter dívida boa é preciso primeiro ter uma boa fonte de renda, e depois saber diferenciar uma dívida inevitável (prestação da casa) de uma dívida evitável (prestação do carro etc). Se você ainda não tem uma boa fonte de renda, ou seja, é um estudante que ainda está se profissionalizando ou profissional que busca um emprego, então esqueça as dívidas. Mas, para quem pensou que tem um emprego bom e por isso vai fazer dívidas boas, cuidado. Não queira viver de aparência. O homem mais rico do mundo pode ser o mais pobre do mundo caso tente dar um passo maior que as pernas.

Mesmo se alguém ganhar R$ 1 milhão por mês, pode cair em desgraça por causa da dívida. É como diz a velha história: quanto maior o gigante, maior o tombo. Então, é preciso colocar na cabeça uma coisa: o fato de você ter um valor garantido num emprego estável, ter um enorme pró-labore, ser aposentado bem remunerado ou qualquer outra segurança não lhe isenta de preocupar-se, cuidado! Pelo contrário, há muita gente endividada porque confiou demais, se comprometeu demais, foi além do que podia pagar. Não calculou direito. Por isso, coloque um limite para as ondas do mar de suas dívidas: daqui não passa! Ou seja, você não pode pensar que vai ficar feliz se quase todo seu salário é gasto em dívidas e não sobra nada para poupança, lazer, contingências domésticas, etc. Você tem que estipular um limite seguro para suas dívidas, para que não haja um sufoco financeiro. Por exemplo: as dívidas de longo prazo (como casa, carro) podem comprometer até 25% do salário e as dívidas e gastos de curto prazo podem comprometer até 35% do salário. Dos 40% restantes uma parte vai para contingência e outra para poupança e investimentos seguros. Não há uma receita de bolo que diga quanto por cento é dívida e quanto por cento é lucro líquido, o que importa é que haja uma preocupação de não deixar as dívidas ultrapassarem um limite seguro e confortável. Podemos dar um princípio de prudência com os gastos, jamais uma receita, o que vai depender de cada caso. Ademais, por mais rico que você seja, sempre vai ter muita coisa em que gastar. Os novos milionários que ganham na mega-sena normalmente se vêem em apuros quando não investem seus dinheiros de forma correta. É normal um pobre ter um dia de rico, para depois voltar a ser pobre. Por isso, fique de olho e não veja suas contas separadamente, mas num conjunto interdependente. Assim será mais fácil sentir o peso de mais uma conta para pagar e evitar dores de cabeça.

Se a arapuca da dívida lhe pegou, tenha paciência. Há muitas formas de fazer uma verdadeira dieta para emagrecer seu patrimônio, vendendo um terreno, um carro, a casa na praia, ou coisa do tipo. Não descartemos a estratégias de trocar uma dívida de juros maior por uma de juros menor. Mas, para quem ficou desempregado e faliu, e não tem mesmo como pagar, resta manter a paciência, jamais recorrer a agiotas, mas sim procurar caminho legais para quitar os débitos. Use a imaginação e jamais desista. Se possível use até mesmo a justiça contra injustiças e abusos contra o consumidor. Mas prepara-se e leve agasalhos, pois é possível que tenha um longo caminho pela frente. Então, não arranque seus cabelos, mas use sua imaginação e explore todas as possibilidades legais e corra atrás. É muito fácil entrar numa dívida, difícil é sair. Mas, com paciência, persistência e inteligência você vai respirar aliviado e contar até 200 antes de contrair mais dívidas sem a convicção de que poderá pagá-las.

A globalização coloca diante de nós o que há de melhor no mundo, mas nesse templo do consumo que é o capitalismo ter paciência é fundamental, pois as arapucas estão a postos e a espreita do primeiro transeunte que queira viver de aparência, suplantando sua capacidade de consumo. São muitos produtos para consumirmos no parque de diversões do capitalismo. A ordem é consumir, mas é preciso separar aquilo que, dentro de nossas limitações financeiras, é a ovelha da boa opção inevitável do bode das dívidas evitáveis e que não poderemos carregar por muito tempo. Nada contra o consumo que é necessário para o bem estar financeiro da nação, mas é preciso selecionar bem onde, como, quando e quanto comprar, para não ter que gastar ainda mais no futuro com remédios para dormir.

2 comentários

  • leo seabra : -

    Para muitos é dificil, mas ser racional e paciente é a melhor forma de evitar dividas. Se a gente tiver a consciência de que boa parte do nosso consumo vem de coisas desnecessárias, não ficariamos tão apertados. Felizmente nao sofro da doença do cartão de crédito e fico sempre me policiando, controlo meus gastos e me preocupo com o futuro. Mas boa parte das pessoas se iludem com a historia do crédito na praça.

  • Win Rodrigues : -

    Esse é o segredo. Vale lembrar que acúmulo excessivo de dívidas não é algo que depende da classe social. Ou seja, você não vai necessariamente acumular menos dívida na medida em que fica rico. Ambos, ricos, pobres ou intermediários devem ter cautela para não ficarem pobres ou ainda mais pobres. Este é um recado realmente para todos.

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