Desmistificando Avatar
O último brinquedo de James Cameron chama-se Avatar, e já faz sucesso. Certo, perdeu a liderança nas cobiçadas bilheterias dos Estados Unidos para um romance, mas menos mal, afinal não há melhor tecnologia que o amor, ele nunca sai de moda. Ademais, é o sentimento capaz de mover o mundo. Mas voltando ao enigmático Avatar, Cameron deveria lançá-lo em 1999, mas o filme só veio às telas nos dias atuais (insistente esse Cameron). Avatar fala de uma civilização moderna que vai explorar um minério em outro planeta e encontra resistência dos nativos. Os humanos desenvolvem um ser parecido com os nativos (o avatar) que será controlado mentalmente por um humano para se infiltrar entre os nativos e obter informações. No final, o avatar se simpatiza com os nativos e muda de lado. Uma guerra está declara. Quando tudo parece estar perdido, em meio a magias e culto à famosa mãe natureza, ela decide agir e salvar o planeta Pandora dos humanos. O filme retrata um tempo futuro e, se for feita análise superficial, se propõe a demonstrar alta tecnologia, imperialismo, e considerável desenvolvimento da biogenética, no entanto, os conceitos principais parecem estar mais preso ao passado que a pirâmide de Quéops. Há mais coisas entre Avatar e ideologias pós-modernas do que dizem nossas vãs filosofias. Então, vamos ao primeiro round?
Finalmente descobri o que levou tanta gente a ver Avatar. Não, não foi o fato de existirem muitos fanáticos por videogames espalhados por aí. Se bem que esses jogos à lá Age of Empire viciam mais que o cigarro mais viciante. Mas duvido que a magia seja o forte do filme, ele é apenas um acessório (do ponto de vista do telespectador), apesar de parecer principal (do ponto de vista do diretor). No filme, o que chama atenção à primeira vista (e à segunda também) é o gigantismo, associado à novidade de um novo planeta, novos povos, novas criaturas, tudo a ver com a curiosidade humana que incita a imaginação. Sim, gigantismo porque quase tudo no planeta colonizado pelos humanos é grande. São animais enormes, ferozes, fortes e resistentes que lembram os dinossauros. Há ainda chamativos, como as montanhas flutuantes que, sabe-se lá como, mantêm cachoeiras. Mas, Avatar, é mais que um filme de ação. A ação é a isca para algo mais forte e de que poucos ouviram falar: a Nova Era.
A Nova Era tornou-se popular com o Código da Vinci que apresentou conceitos em consonância com a “Conspiração Aquariana” (obra de Marilyn Ferguson) que preconiza que existiram várias eras na história da humanidade, e em cada era existiria uma espécie de salvador (avatar) que iria aperfeiçoar a humanidade. Assim afirmam que Jesus foi o avatar da era de peixes (período de 4 a.C. a 2.146 d.C.) e que agora estaríamos prestes a presenciar a era de aquário (período de 2146 a 4296 d.C.) em que o novo avatar seria o Maytreya. Segundo essa ideologia a presente era de peixes tem a influência de Jesus e por isso é dominada pelos cristãos. Não é à toa que o filme de Cameron se passa em 2154, justamente no suposto período de transição entre a era de peixes e de aquário.
Há algumas observações importantes sobre alguns aspectos especiais. Muitos detalhes do filme lembram a palavra “aquário”, como se fosse um simbolismo à era de aquário. A própria cor dos nativos é azul, a cor do mar. O ambiente aéreo da terra de Pandora tem seres que são semelhantes aos encontrados no mar, como a medusa. Há todo um simbolismo em torno da temática da Nova Era. Mas o mais impressionante e assustador é a dominação de um ser pela mente de outro. Embora o filme apresente uma crítica ao imperialismo, ele apresenta algo pior que o imperialismo físico, o imperialismo mental, um ser pode controlar o outro através da mente. O filme mostra o Avatar sendo controlado por uma mente humana, sem a qual ele nada faz, trata-se um corpo vazio guiado por uma mente. Em outros momentos, o filme mostra nativos que se conectam aos animais através dos cabelos e assim passam a dominar suas mentes. Trata-se de algo novo para o público e que tem uma representatividade muito forte, pois remete a idéia de possessão espiritual de um ser por outro, algo difícil de ser ver comentado na literatura mundial (é a primeira vez que vejo). Nesse caso, as idéias de Avatar vão mais longe do que podemos imaginar. Seria isso um simbolismo de possessão espiritual? Cada qual tire suas conclusões. No mínimo, retrata a idéia de possessão da mente humana. Impossível analisar Avatar sem considerar esses pontos polêmicos, pois eles são 99% do filme. Diante deles, os efeitos especiais são meros detalhes.
Segundo a Nova Era, tudo é deus. A natureza é não apenas viva, mas o próprio deus, como no filme Avatar. Esses conceitos religiosos presentes em Avatar não são novos, e remetem a algumas práticas já existentes aqui mesmo no planeta Terra há muitos séculos, como xamanismo (mágicas ritualísticas), e invocação e comunhão com espíritos. O panteísmo, termo que preconiza que Deus é tudo e que não é pessoal, mas é manifestado em todo o Universo, também faz parte das idéias do filme Avatar que tem em Eywa, a deusa “Mãe de Tudo”, considerando Deus como se fosse a própria natureza. Talvez daí surja o termo: “mãe-natureza”. A personificação da Terra é conhecida como Teoria de Gaia, que vê a terra como um ser vivo, ou seja, Gaia é a deusa da Terra. Já a bruxaria se considera como a religião da ecologia. Tudo isso ganha força num mundo em que a natureza é depredada pelo homem. Aproveitando-se dessa depreciação, James Cameron mostra um Avatar romântico bem diferente do realista Apocalypto de Mel Gibson. Enquanto Cameron (em Avatar) exalta a religião dos nativos americanos (o panteísmo), Mel Gibson (em Apocalypto) mostra um povo sanguinário que sacrificava humanos para agradar aos seus deuses.
As idéias da Nova Era contrapõe-se aos princípios cristãos, uma vez que apresentam rituais próprios do paganismo, dentro do contexto da pós-modernidade, conhecidos como neo-paganismo, ou paganismo moderno. Essas idéias estão longe de ser novidade, apenas surgem como bandeira de um povo “sofisticado” e moderno, com milhões de dólares para investir e propalar pelo mundo. O que muitos acreditam ser interessante é a possibilidade de ser seu próprio deus. Se tudo é Deus, qualquer é pode sê-lo. Tudo isso caminha na contramão da concepção dos cristãos, para os quais Avatar é mais uma obra polêmica da Nova Era com o intuito de dar continuidade ao Código Da Vinci, a famigerada Conspiração Aquariana.
Esses são temas que, por trás das cortinas de fumaça dos efeitos especiais hipnóticos do 3D, são lembrados no filme Avatar. Mas, muitos não percebem que o produto principal oferecido não é 3D, aventura e diversão, mas simplesmente idéias teosóficas cunhadas na bigorna da Nova Era, que na verdade nada mais é que um mix de filosofias orientais, conceitos modernos e uma pitada do velho paganismo. Com essa mistura explosiva, o filme tinha que chamar mesmo muita atenção, até de quem não gosta nada de falar de avatar. Realmente, esse assunto chato de teosofia cansa os mais hábeis leitores, mas trata-se de um remédio amargo que ajuda a desmistificar certos enigmas. Na próxima, prometo falar somente de amor.
8 comentários
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A principal ida dos espectadores ao cinema para assistir ao filme,sim,foi todo esse mix de efeitos e gigantismo. Porém, ao sair da sala havia algo que calava fundo no peito de algumas pessoas.A profunda relação da mãe natureza com o ser humano. Observem,a natureza fala…mas poucos a ouvem.
Win,
Importante também avaliar o nome do único país citado no filme. Quando o vilão, caricato e cicatrizado remete algo do tipo: como foi difícil na Venezuela…
Dentro da lógica da manipulação das mentes do cinema americano e a óbvia insatisfação política, já se anunciando numa preparação da comunidade internacional para a próxima guerra.
Já é sabido que aqui pela terra estão se organizando comunidades que procuram o autosustentalismo e a desconexão do mundo capital e isso deve ser duramente combatido e destruído.
O que existe de parecido com o cenário Pandora no mundo além do pulmão amazônico? O foco dos grandes peixes do fim dessa Era será ocupar o nosso aquário.
Abraços
Fernando, daí a importância de se aprofundar nos significados do filme para a atualidade. Existe um grupo de pessoas influente que apropriam-se do discurso ecológico da atualidade para difundir idéias neopagãs. A Nova Era é um mix de idéias, e o Avatar foi o filme que parece juntar tudo num canto só. É claro que o filme gera uma sensação de estranhamento em qualquer um: o ser humano tem profunda ligação com a natureza, mas não a ponto de torná-la seu Deus como fizeram os ameríndios. A visão romântica dessa religião pagã esquece o que está explícito no realismo do filme Apocalypto (Mel Gibson) e também as práticas dos índios tupinambás brasileiros de canibalismo com seus inimigos. Devemos respeitar a natureza, mas devemos também respeitar a nós mesmo. Devemos evitar a poluição da natureza com nossos carros da mesma forma como evitamos a poluição de nossos pulmões com cigarros. Ou seja, a importância em não poluir o ambiente ou nosso pulmão, e estar em consonância com o sistema em que habitamos não é pretexto para considerar o sistema um Deus. Essa mensagem do filme de Universo-Deus é camuflada (apasar de tão explícita) pelas batalhas, pelo mix. O que está por trás da cortina representa algo muito mais interessante do ponto de vista dos promotores das idéias.
Hugo,
Já que puxou para o lado político, além de James Cameron, o ex-vice-presidente dos Estados Unidos tem essa visão de Nova Era. Ele é um dos seus adeptos. Essa corrente pretende dominar o mundo. Trata-se de uma conspiração mesmo, real. O filme é um investimento a longo prazo para divulgar mais ainda essas idéias, como vez Dan Brawn em Da Vinci. E no mundo dos problemas reais, quem está fazendo o discurso da ecologia: Al Gore. Aproveita-se um problema sistêmico para criar uma Nova Ordem Mundial. Isso é fato. Está no google e nos livros para quem quiser pesquisar. Há muito mais coisas em jogo do que imaginamos.
É sério que você contou o final do filme? E logo no primeiro parágrafo?
Tudo bem que o roteiro é fraco e previsível, mas mesmo assim…
Pois é… Dá pra fazer um monte de ilações sobre um produto da magnitude do filme do megadiretor Cameron, que realmente não brinca em serviço, desde Aliens, o resgate, quando passei a acompanhar melhor suas peripécias. Para mim, ao lado de Ridley Scott (Blade Runner e o primeiro Aliens, o oitavo passageiro, obras primas) ele é a expressão máxima da moderna cinematografia ianque. Mas sinceramente, acho que você enxergou demais! Algumas colocações, como a citação à Venezuela (Beware Hugo Chavez!! O “Big Stick”, de Theodore Roosevelt pode voltar a qualquer momento!) e a visão romântica da suposta benevolência da “mãe natureza”, que precisaria de nossa atenção especial, mostram como o filme vai do ufanismo belicista à pieguice em questão de minutos. Como panfleto é muito vazio, e sinceramente só vi mesmo uma bela alegoria 3D daquelas que você tem que desligar quase totalmente o senso crítico para embarcar literalmente na ambiência 3D, e só…
Primeiramente gostaria de dizer que o último comentário acima, feito por Ricardo Arrais, é o absurdo do ridiculo!
Gostei muito desta postagem e digo que na Internet há muitos comentários e artigos sobre filme Avatar, mas a sua comparação de Pandora ao fundo do mar é realmente original, pois eu não havia pensado nisso!!!
O que me atraiu ao cinema não foi o espetáculo visual, mas sim as idéias que nele estavam contidas, pois só de ver o trailer eu já sabia que este filme seria um resumo de elementos da NOVA ERA e foi isso que me levou aos cinemas, pois a NOVA ERA está chegando e isto é inquestionável.
Danilo:
Realmente, essa questão do espaço terrestre como fundo do mar é bem interessante, e depois confirmei mais ainda a tese, haja vista que muitos animais terrestres têm traços de animais aquáticos, há animais parecidos com tubarão martelo, há um animal que lembra um felino e que tem uma espécie de barbatana. Tudo isso realmente lembra o mar, lembra água, lembra aquário, lembra Era de Aquário, uma mensagem subliminar do filme, entre tantas outras, sem dúvida.