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Win Rodrigues

Win Rodrigues - wintemberg@digi.com.br

Comentário Empreendedor

Win Rodrigues, 30, é administrador pela UFRN e escritor, autor do livro (teatro) Dr. Gänsehaut. Escreve, normalmente às quartas-feiras, sobre assuntos diversos sob a ótica do empreendedorismo. Twitter.

Árvores, prédios e terremotos

quarta-feira, 3/março/2010

Quando o Haiti tombou, o mundo caiu de tristeza. O barulho, o balanço, os pedaços ao chão, tudo ruiu. A agonia, o pânico, a urgência, a ajuda, o consolo, o alívio, mas com uma dose de dor, que o tempo não apaga. É difícil traduzir em palavras o sofrimento do povo haitiano, mas depois do Haiti o Chile também chora as agonias da dança da Terra. E agora nos remetemos a tempos e tempos, circunstâncias e episódios pretéritos distantes ou mais próximos, ofuscados ou não por outros eventos históricos, e vemos abalos na Itália recente, devastação na temível falha de Santo André em São Francisco, tremores estratosféricos no Japão, terríveis abalos na Sumatra, e diversas outras similares catástrofes que coube a história registrar. Os lugares que sofreram os abalos fizeram tudo o que estavam ao seu alcance para evitar novos desastres. Dois dos lugares mais perigosos do mundo: Califórnia e Japão, logo fizeram sua parte de defesa e definiram regras de construção. Por isso no Japão quando há terremoto recomenda-se correr para debaixo de uma árvore ou de um prédio.

Nós, os seres humanos, gostamos de resistir à precaução. Um exemplo próximo disso é que em várias cidades do interior nos deparamos com pessoas que resistem aos capacetes quando estão montadas em suas motos desfilando pelas ruas. As pessoas evitam colocar o sinto de segurança e se o fazem, é porque está próximo de algum Posto Federal ou fiscal de trânsito. Não gostamos dessa idéia de evitar certas comidas ou bebidas porque faz isso ou aquilo. Queremos fazer qualquer coisa sem pensar nas conseqüências. O Titanic foi um clássico caso de confiança excessiva no bom tempo. Temos um vício pegajoso de evitar reforçar algo para nos proteger. Só compramos guarda-chuva quando está chovendo. Só procuramos usar cinto quando conhecemos um caso em que alguém morreu por não usá-lo, e só avançamos na segurança aérea quando vários acidentes aconteceram. Somos desprevenidos, queremos atravessar o mar com uma prancha e acreditar que não existem tempestades. Igualmente, o mundo está aprendendo a construir quando terremotos acontecem. Mas, não precisamos fazer o teto somente quando chove. Precisamos nos antecipar à chuva.

Ora, os terremotos são naturais, acontecem desde a antiguidade e agora as estatísticas mostram que acontecem com mais facilidade. A Terra gira, o mundo roda, o planeta treme. Quem chegou primeiro: o giro da Terra ou os arranha-céus? O nosso problema é que construímos construções que não consideram verdadeiramente o meio ambiente em que estão inseridas. E isso é uma falha nossa, uma falha humanitária. Isso se justifica quando somos ignorantes acerca do nosso ambiente, mas não quando sabemos que tremores podem acontecer, mesmo que estejamos distantes do encontro das placas. Isso também pode se justificar quando uma nação é pobre, e não dispõe de tecnologia suficiente para fazer frente às necessidades, como no caso do Haiti. Mas, se há falhas nas placas tectônicas há também falha em nossas construções, a de não considerar a natureza da natureza.

Afora as cenas envolvendo grandes resgates de vidas, uma das cenas mais impressionantes no Haiti é aquela que mostra o Palácio do Presidente destruído enquanto as árvores diante dele estão de pé. A natureza tem muito a nos ensinar com seu exemplo de flexibilidade e resistência. Imagine que terremotos acontecem em duas circunstâncias na vida de alguém. Em uma delas a pessoa está no último andar de um edifício, no Brasil, país que não tem a cultura californiana ou japonesa de construir prédios resistentes a fortes abalos. Outro dia o mesmo terremoto acontece e a mesma pessoa está debaixo de uma árvore. Em que momento o medo foi maior? No prédio, obviamente. O edifício obedece a um protocolo rígido de construção civil, mas nem sempre é reforçado para eventos que nunca aconteceram, por isso mesmo, porque nunca aconteceram ou porque são pouco prováveis do ponto de vista científico. O fato de algo nunca acontecer ou ser improvável acomoda o ser humano. Então quando acontece é que surge a necessidade de mudar. Por quê? A preocupação é real quando a pessoa se depara com um evento acontecendo a sua frente, mesmo que antes seja improvável. O prédio é forte, resistente, concreto, ferro, e tudo o mais, mas essa mesma força cria uma resistência que pode não está em sintonia com a flexibilidade exigida num forte abalo. Por outro lado, debaixo de uma árvore, simples, mas forte e com raízes profundas, galhos fortes, bem regada, flexível, maleável, que pode balançar, mas muito dificilmente cai, debaixo dessa árvore você sente uma sintonia da natureza com a natureza. Embora haja exceções porque também árvores podem cair ou serem arrancadas pela força da natureza, a recomendação dos japoneses de correr para debaixo de uma árvore é muito válida, haja vista sua resistência e flexibilidade.

O homem precisa entender a aprender com o natural, pois fugir disso pode ser perigoso. Foi-se o tempo em que artificializar, criar novas leis e regras, reinventar uma roda ou fazer algo diferente demais foi interessante. Os remédios devem conversar na mesma linguagem do corpo humano, evitando os efeitos indesejados; os edifícios e as casas devem conversar na mesma linguagem da natureza, sendo flexíveis aos abalos; a geração de energia deve acontecer de tal forma que não abale o meio ambiente. Devemos fazer o artificial sem fugir dos princípios naturais. O mundo gira e a Terra treme diariamente. Precisamos nos moldar a forma como a Terra trabalha com sua dinâmica. Há catástrofes e catástrofes. Há aquelas que realmente não estão ao alcance da humanidade evitar. Há aquelas que são possíveis de serem evitadas, ao menos em grande parte. O exemplo disso é que o terremoto do Chile foi mais forte que o do Haiti, mas o Chile sofreu menos por já ter preparado sua construção para esses eventos. Em um mundo instável como este, é preciso repensar a questão econômica, em que se constrói tudo com o mínimo possível e começar a pensar no aspecto conforto e segurança. Finalmente, será mais barato e agradável plantar prédios e casas flexíveis e resistentes que estejam em sintonia com a natureza que confiar na força e dureza do ferro e do concreto que se despedaçam feito vidro quando sob forte pressão. Lembremo-nos da casa feita de bambu que foi apresentada ao mundo por um chinês, é fresca no verão, é leve, segura, dura muito, resiste melhor a terremotos e ainda é auto-sustentável. O Taj Mahal é o exemplo mais monumental dessa tecnologia, que só agora, séculos depois, teve sua abóboda em bambu substituído por metal. E essa deve ser apenas uma das tecnologias que estão realmente em consonância com o meio ambiente. Nós, a humanidade, devemos continuar a evoluir na construção civil, mas agora, mais do que nunca, em consonância com o meio ambiente. As soluções naturais não são um modismo ou uma mera hipocrisia ecológica, elas são uma constatação de que não podemos ser ditadores das invenções, mas sim empreendedores de idéias que estejam em melhor sintonia com o nosso próprio ambiente.

4 comentários

  • Lolla : -

    Apoiado!

  • Marcus Vinicius (boi) : -

    Muito interessante seu texto. Parabéns. É engraçado caro Win, como os homens sempre acham que podem prever tudo. Desde eventos catastróficos como o “fim do mundo” como já preveu Nostradamus (ou será que foi a indústria do cinema?), passando por terremotos, tsunamis, até o clima, dentre outros. No meio de toda essa confusão de idéias, que misturam religião com ciência, mitos com fatos, não paramos pra pensar na simples idéia da imprevisibilidade dos acontecimentos. Quem nos garante que não seremos nós os próximos a serem afligidos por determinada moléstia, catástrofe ou seja lá o que for. Ora, eu posso tomar um choque digitando isto aqui, posso ser atropelado quando sair na rua, sei lá. E é nesse ponto que a idéia da precaução nos traz, pelo menos, uma certa segurança ou conforto de que se algum dano foi gerado por algum problema, foi devido à inevitabilidade de tal fato. Alguns chamam isso de destino, carma, cruz, enfim, eu chamo de inevitabilidade. A idéia de entrar em harmonia com a natureza para mim soa como clichê, na medida em que nós nunca devíamos ter nos desarmonizados com ela. Pura obrigação de usá-la, mas conservá-la. O ciclo dos elementos químicos são naturalmente renováveis, o homem que insiste em atrapalhá-lo. A discussão sobre ecologia e conservação ambiental precisa ganhar mais impulso, porém já notamos certos avanços, visto que dentro de uma mesma geração (a minha) já é notada a diferença cultural. Atos como coleta seletiva do lixo, reciclagem, energias não poluentes, já estão totalmente inseridas em nosso dia-a-dia. Quando eu era criança, o cara que falasse disso era um verdadeiro ECOCHATO…

  • paulo roberto ferreira da silva : -

    excelente e oportuno os comentarios trazidos a reflexão e implantação na pratica cotidiana. é necessarios leis que proibam construções sem seguranças contra abalos e outros fenômenos da natureza até porque ja existem tecnologia para tal. pasta informações e modelos trazidos da california e do japão…

  • selso : -

    E se bater o cupim no bambu?

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