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Tatiana Lima

Tatiana Lima - tatianalima@digizap.com.br

Cinema com Café

Tatiana Lima, 27 anos, é apaixonada por cinema...

O que fizeram com os blockbusters?

terça-feira, 13/maio/2008

Há um ano, mais ou menos nesta mesma época, quando do lançamento de Homem-Aranha 3, Ricardo Calil comentava na Bravo! o fato de que as bilheterias de Hollywood têm dependido bastante, neste início de milênio, de personagens criados em meados do século passado. A falta de criatividade da indústria (duas palavras com certo grau de contradição) chegou a ponto de que somente heróis dos quadrinhos podem salvar os cinemas da crise causada, entre outros fatores, pelas novas tecnologias – que nos rendem imagem digital de ótima qualidade, mas ao mesmo tempo “contribuem” para a pirataria.

A Paramount tentou mais uma vez, agora com o Homem de Ferro: herói quarentão, herdeiro de uma indústria de armamentos, que entra em conflito existencial justo quando inventa sua arma mais poderosa. Parece que está obtendo sucesso. Apesar de as expectativas de bilheteria serem menores, se comparadas às de heróis como o Homem-Aranha e Batman, o filme já bateu a casa dos 100 milhões de dólares arrecadados somente nos quatro primeiros dias de exibição, nos Estados Unidos e no Canadá.

No Brasil, segundo pesquisa do Portal FILME B, o filme ultrapassou o número de um milhão de espectadores nos cinco primeiros dias. Blockbuster que é blockbuster sempre gera curiosidade. Não fui ao cinema assisti-lo na primeira semana com medo de não conseguir ingressos. Ledo engano. Na sessão em que estava, numa sexta-feira à noite, só havia quatorze pessoas. O que me fez pensar: que houve com aquele público que lotou os cinemas nos cinco primeiros dias? Foi só curiosidade inicial?

Vamos ao filme. Houve uma tentativa de dar à história um tom realista, fazendo conexões com o presente: Tony Stark, o herói tardio, está no início do enredo a caminho do Afeganistão para apresentar aos soldados americanos no front seu mais eficiente míssel, o Jericho – um nome bastante sugestivo. A falta de verossimilhança, no entanto, permeia a tal guerra da história. Não se sabe quem são os rebeldes que brigam contra os americanos e contra as comunidades locais, ao mesmo tempo. Parece videogame: não se sabe para que serve a guerra; somente que nela se deve matar e para tanto usar as armas mais avançadas.

Por outro lado, a caracterização de Tony Stark leva a crer que a tendência de formar personalidades mais humanizadas para os heróis de quadrinhos chegou para ficar. Ele não é perfeito, muito pelo contrário; assim como o ator que o representa, Stark bebe muito e usa as mulheres como quem troca de roupa. Sua mudança de posição quanto à responsabilidade que deve ter quanto aos mortos nas guerras advém de um seqüestro e isso é até verossímil. Mas tão rápido?

Talvez o problema de narrativa de Homem de Ferro seja justamente esse. Nenhum conflito dramático do filme demora mais que um minuto. Tudo se resolve muito rapidamente e como se não desse nenhum trabalho. A tentativa de dar o tom real da história entra em choque com essa falta de desenvolvimento dos conflitos. Faltou emoção de verdade.

Downey Jr., o Homem de FerroO que ficou bom? Muita gente já disse, mas reforço: a força de Homem de Ferro está na interpretação de Robert Downey Junior. Assim como o personagem, Downey já foi playboy, beberrão e mulherengo. Mas fez uma carreira interpretando gente de verdade, desde Charles Chaplin ao jornalista decadente Paul Avery, de Zodíaco. Trabalhou com Robert Altman e Steven Soderbergh. O rapaz pode parecer louco, mas pensa mais que a média dos atores de Hollywood, e isso deu ao Homem de Ferro a inteligência e a loucura que são as suas características. Faz esquecer até que o vilão é pouco caracterizado; um artifício que teria rendido um filme melhor, vide o Batman de Tim Burton com o Coringa Jack Nicholson.

Plasticamente, o filme é belo: tem cores ótimas e efeitos especiais, idem; convence, portanto, como um bom filme de aventura. Apesar dessa plasticidade, não convence enquanto blockbuster: a falta de desenvolvimento de seus conflitos, de verossimilhança dos fatos referenciados e até a carência de atuações que dialoguem com a estrela principal retiram a grandeza que um bom filme de herói deve ter. Tanto é que havia pouquíssimas pessoas no cinema. Passou a curiosidade inicial, o filme não se sustenta. O sucesso da tática de se aproveitar heróis dos quadrinhos para roteiros de cinema deve ser relativizado. Ninguém agüenta adaptação mal feita, muito menos os fanáticos por quadrinhos.

15 comentários

  • Odyle Serejo : -

    “Ninguém agüenta adaptação mal feita, muito menos os fanáticos por quadrinhos”. Eu pelo menos não agüento. De verdade.
    Nem pra ver Robert Downey Junior, que eu adoro.
    Mas, ei, vc nem falou nele em “A Pele”. Vc viu?

  • Tatiana Lima : -

    Não vi, Odyle… vou procurar “A Pele”. Também gosto muito do Downey Junior, especialmente do Chaplin dele. :D

  • Kamila : -

    Tatiana, eu gostei muito de “Homem de Ferro”. Achei um entretenimento de primeira, com boas cenas de ação, mas cujo ponto mais forte é mesmo o elenco. Robert Downey Jr. e Jeff Bridges brilham!

  • Nabuco : -

    Ótima crítica e o comentário sobre o ator foi excelente. Odyle serejo falou em “A Pele”. Filme espetacular com uma atuação espetacular do nosso “homem de ferro”.

    Não assisto a filmes de super heróis pelo motivo de que os meus eram de 30 anos atrás (na verdade bem mais velhos). Vê-los tão tecnológicos não me atrai. Eles viraram mitos para mim do jeito que eram.

    Um detalhe. Kill Bill foi um filme genial que resgatou todos os seriados das décadas de 1970 e início dos anos 80. Kung Fu, Speed Race (ouvi falar que estão filmando), Judoca, e todos os faroestes, Bruce Lee’s etc. Confeço que me emocionei (minha infância estava ali) com a morte absurda e genialmente brega de Bill, a coroar o fim do filme (pura década de 70). Foi uma bela interpretação de David Carradine, o Shaolin (”Gafanhoto”) de Kung Fu. MARAVILHOSA IDÉIA DO TARANTINO

    Falei de Kill Bill por um motivo. Não acho que a industria esteja fazendo tais filmes por falta de criatividade! É que garotos e garotas viraram coroas de 30 e tantos, 40, 50…Possuem dinheiro (podem não ser ricos mas não são mais estudantes) e pagam para ver seus heróis de infância reconstituídos na modernidade. De quebra ainda levam seus filhos e netos. Americano não brinca com grana. Descobriram um grande filão!

    Abraço grande

    Nabuco

  • Gabriel Galvão : -

    Não acredito que descobriram um grande filão. Acredito, como Tatiana bem sugere, que há uma crise mesmo. A fórmula mágica de criar personagens e inseri-los nos moldes do “mito de Campbell” já está chegando aos limites da possibilidade de qualquer variação inteligente. O último filme que explorou _decentemente_ essa fórmula foi “Guerra nas Estrelas”. De lá para cá estamos numa queda livre.

    Mas isso é bom, não é?, pois aparece mais espaço para filmes de verdade.

  • Djalminha : -

    Na minha opinião, Tatiana tentou mergulhar de cabeça em uma piscina rasa, ao abordar com ares de profundidade um filme que é puro entretenimento, nitroglicerina. As pessoas que vão assistir Homem de Ferro sabem exatamente o que vão encontrar, e isto está muito bem resolvido. Não existe filmes de super-herois com conflitos suficientes para preencher minutos e minutos, não há tempo, e não é isso que o público deste tipo de filme quer. O público quer ação, aventura, efeitos especiais, algo que o tire da realidade por 120 minutos. Homem de Ferro, Homem-aranha e Transformers são filmes com apenas um objetivo, e satisfazem o telespectador.

  • Alessandro : -

    Concordo com Djalminha.

    Adorei o filme, tem ação e cenas divertidas. Se eu quisesse um filme totalmente verossimil veria documentarios…

    E mesmo assim, o filme é bem explicado e apesar de obviamente não ser totalmente verossimil, tem alguma base de verdade…

    Conflitos podem se resolver rapidamente sim, de um dia para o outro pessoas podem mudar muito se o choque for muito grande. Assim como algo traumatico pode deixar a pessoa sem falar de um dia para o outro também existe situações onde um choque existencial pode fazer a pessoa passar a falar de um dia para outro…

    Razão de guerra? Nenhuma guerra tem uma razão plausivel. No fim, toda guerra é apenas alimentada por corações egoistas buscando benefícios propríos que jamais justificam vidas perdidas. E os vilões queriam isso, poder e dinheiro. Não é nenhuma razão complexa, e nenhuma guerra tem razões complexas. No fim, é simples.

  • Wener de Carvalho : -

    Fico com o filão do entretenimento, Hollywood já percebeu depois do 11 de Setembro que realismo demais pode custar vidas, basta assistir Nova York Sitiada, pra perceber que as pessoas que fizeram aquela hecatombe, se tinham falhas em seus planos o filme as ajudou a corrigir.
    Gosto de diversão, pura e despretensiosa, assisti Iron Man, como assisti Super Homem, Quarteto Fantástico e assistirei o próximo Batman.
    Sou dessa geração, e sinceramente esperar desses filmes de heróis que sejam obras de Arte, acho que já é pretender demais. Cumprem com o que prometem, boa diversão nas duas horas seguinte à sua entrada no cinema. E pronto.
    Se for avaliar por esse prisma, ficou perfeito, recomendo e assistirei novamente, vamos ?

  • Ovelha Negra : -

    Eu, de cá, cri também que a película cumpriu com maestria os papéis a que se propôs: entreter e pavimentar o caminho para uma sequência. (Um Nick Fury bizarramente negro?)

    O Homem de Ferro é entretenimento de primeira. Enredo enxuto, livre de rebuscamentos e alheio a qualquer profundidade, como gosta o público-alvo desse tipo de filme: os fãs de HQ’s. E, talvez, a alegada baixa visitação às exibições do Iron Man deva-se, não a desvirtuamentos produtivos, mas à limitada extensão do séquito de fãs do Homem de Ferro ou à impopularidade da personagem - falando sério, duvido que haja aqui aqueles que hasteavam o pavilhão em homenagem ao John Starks antes da sua materialização por intermédio do Robert Downey Jr…

    Este, aliás, não creio merece lá tantas linhas. É um ator formidável, e esteve, no filme, mais uma vez, muito bem. Mas nada que se qualifique à expectativa a que nos marcou definitivamente seu talento de incursões cinematográficas anteriores. No mais, a salva de palmas, em minha opinião, vai para o Jon Favreau: além da direção bem encadeada e surpreendentemente talentosa, desde Jeff Woolnough e o seu Universal Soldier 2, ecoando um poderoso Megadeth através dos amplificadores do cinema, não via um metal tão bem encaixado como nesse intróito erigido ao som de AC/DC. Vale o ingresso, acho eu. E a pipoca.

  • Pedro Leal : -

    A colunista mergulhou de cabeça, mesmo, é está certa: não acredito ser possível ir ao cinema e suspender a inteligência. A verossimilhança ali é fundamental, é o fio que conduz à função enganadora da arte, que leva gentilmente (inteligentemente) à ilusão e ao deslumbramento.
    Pra mim, não basta saber se tratar de um blockbuster pra embarcar na viagem. Quero que o filme me convença.

    Eu até me pergunto: qual a razão de ler uma crítica se o que você espera são os 120 minutos de “adrenalina pura”? Qual a função de fazer uma crítica da crítica?

    Não há piscina rasa que não banhe a quem tem disposição pra mergulhar de cabeça, mas isso não é mesmo pra todos. Até os mais simples contos de fadas guardam fantásticas revelações (e é por isso bem discutível que se diga: são apenas contos de fadas, histórias pra crianças dormirem). Ruim mesmo são os poços vazios dos comentários vaidosos que se prendem ao óbvio e se esperam surpreendentes.

    Para bom entendedor… basta uma piscina rasa. A colunista não fez uma tese de doutorado, mas uma ótima observação, sem pretensões.

    A grande graça do filme é mesmo o Jr., no mais não se compara a outras adaptações dos quadrinhos para o cinema (sobretudo Sin City e 300, ou até mesmo Hulk).

  • nabuco : -

    Tatiana,

    Ontem, domingo, 25 de maio de 2008, assisti no Cinemark as 12:25 Speed Racer

    Tava absolutamente sozinho no cinema. Eu e eu e mais ninguém. Pude me emocionar com tranquilidade sem a menor vergonha.

    Me transportei. Minha infância voltou. Tava de volta as tardes de semana na TV Tupi. Era Speed, seu irmão desaparecido (o Corredor X) seu irmão mais novo c/o macaquinho e todos os vilões. Era sua namorada e seu carro que fazia de tudo com saltos, serras e o que há de mais fantástico. Foi tudo de espetacular com a excelência da industria, meio filme, meio quadrinho.

    Parabens aos irmãos Wachowski. Fizeram um ótimo filme. Os “garotões” voltarão a ser garotinhos e levarão seus filhos para a telona. Irão gastar dinheiro e enriquecer ainda mais a competentíssima industria cinematográfica americana.

    Grande abraço

    Nabuco

    P.S - Por favor, não tente fazer análises psicológicas sobre ninguém daquele filme. Não escreva sobre ele. Deixe-o como ele é. Diversão e nada mais. O cinema foi feito com essa intensão.
    Por fim, os tupiniquins vão ter que amassar muito barro até chegar a algo com aquele tipo de excelência.

  • Ygor Moretti : -

    Acho que o filme funciona sim e cumpre com o que se propoe: ser um entretenimento, um filme de ação, e acredito que muitos filmes de heróis estejam sendo feitos agora, pois só nos dia de hj temos a tecnologia necessaria para fazer um homem de ferro ou um homem tocha etc. Claro não vamos ser inocentes né, essas histórias dão sim dinheiro. Mas contudo, repito Homem de ferro cumpre com aquilo que se propoe, um roteiro razo é verdade, mas de introdução ao personagem, concordo que os dramas da história foram feitos meio as pressas, mas não compromete o filme.

  • Élmano : -

    É isso mesmo, Tati.

    Também acho pouca criatividade! Repetir coisas que deram certo é uma característica tanto de filmes quanto de programas de televisão!

    Mas, nesse caso, ou a critividade está falha ou é um saudosismo grande afim de levar a criançada atual a ter, no futuro, o que seus pais tiveram….

    Acho que o High School Music ou os atuais heróis não estão tão bons para os produtores…

    É uma crise mesmo…

    Como se isso não bastasse, a coisa fica pior com a pirataria que não ajuda a vender o qua aparece de bom no cinema.

    Mas eu permaneço no cinema, ao invés de comprar um dvd pirata antes que o filme saia no dvd original!

    Absurdo!

  • Vulgo Dudu : -

    Há muito tempo Hollywood se rendeu ao mercantilismo cultural, lamentávelmente. Fórmulas prontas, subjugando a capacidade de raciocínio de um público completamente anestesiado. Se o cinema fosse feito somente para dar dinheiro, como eles queriam que fosse desde a década de 50, quando foi introduzido o star system, putz, eu desistia na hora de ter um blog sobre o assunto.

    Eles cismaram que heróis são a bola da vez. Vão entupir as pessoas com isso, igual ao que fazem com os gansos antes de produzir patê.

    E a gente, aqui, querendo copiar tudo o que eles fazem. O cinema brasileiro, por exemplo, só começou a dar certo depois que resolveu olhar para o próprio umbigo. E ainda assim, louvamos pastiches.

    Mas rezo para que nunca cheguemos aos pés de Hollywood…

    Abs.

  • Tatiana : -

    Pois é, Dudu, concordo com você… rezo para que nunca fiquemos igual a Hollywood… Lembrei-me agora do Walter Salles e o fiasco “Água Negra”, feito para os gringos - o cara só voltou a fazer sucesso quando retornou às raízes, com o “Linha de Passe”.
    Um abraço!

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