Juízo
“O tratamento criativo da realidade”, disse do documentário o britânico John Grierson. Talvez por tal motivo muitos cineastas se aventurem no gênero sem o compromisso rígido no retrato da realidade com o mínimo de interferências. Esse não é o caso de Maria Augusta Ramos, cineasta brasileira que em 2007 lançou Juízo, em cartaz esta semana em Natal, na Sessão Cinecult.
Maria Augusta marcou presença no cenário do cinema documental no Brasil com Justiça, filme que enfoca os bastidores do nosso sistema judicial através do enquadramento de situações corriqueiras para seus protagonistas: audiências, corredores lotados dos fóruns, cotidiano de familiares, réus, juízes, defensores. Justiça conseguiu destaque e foi freqüentemente elogiado por seu estilo “observacional” puro: a câmera praticamente não se move, não há música, os protagonistas não falam para um inexistente entrevistador.
Juízo segue o ideário de Maria Augusta Ramos, ao mostrar para o público o dia-a-dia de jovens infratores no Rio de Janeiro. Há o cotidiano dos centros de internação para adolescentes, o papel do Poder Judiciário na inspeção desses centros, a atitude dos personagens no teatro das audiências e o papel que cada um desses jovens protagoniza no dia-a-dia da família.
A novidade é a “máscara” a qual a cineasta se permitiu em virtude de um entrave legal: a substituição dos personagens principais por jovens com a mesma idade e mesmas condições de vida que eles; isso porque o Estatuto da Criança e do Adolescente impede que se identifique o adolescente submetido a processo por ato infracional. Nas cenas dos interrogatórios, a estratégia foi a seguinte: duas câmeras instaladas ao fundo da sala de audiências filmaram juiz, promotor, defensor e eventualmente alguém da família; a essas imagens, depois da edição, foram juntadas cenas dos jovens não infratores representando as respostas dos verdadeiros acusados, retratados de costas nas cenas “reais”.
Marília Gabriela, ao entrevistar a diretora de Juízo e a Juíza Luciana Fiala, uma das retratadas no documentário, disse que a magistrada é a “protagonista” do filme. Luciana é bastante enérgica ao cobrar dos jovens o “juízo” que não tiveram ao praticar os atos pelos quais são processados, como se fosse mãe fazendo sermão. Sua atuação histérica impressiona até mesmo quem já observou o cotidiano dos fóruns, mas atrai pelo motivo mais óbvio: no fundo, qualquer um que se depare com um adolescente “mal-criado” se satisfaz mais com a bronca que com o próprio castigo. Na época em que o filme foi lançado, entretanto, houve juízes que questionaram até o direito que teria a juíza de repreender os adolescentes.
Mas o filme vai muito além da gritaria de Luciana Fiala. São incômodas as longas tomadas que mostram o dia-a-dia do DEGASE – Departamento Geral de Ações Sócio-Educativas, no Rio de Janeiro, um centro de internação de adolescentes infratores. Entre a revista diária após o almoço, à procura de possíveis “armas” para fugas, e a inspeção feita pela funcionária da Vara da Infância e da Juventude, que constata péssimas condições de higiene, nos damos conta da realidade imposta a esses jovens pelo poder público – e o motivo pelo qual quase todos os jovens retratados pelo filme fogem.
A resposta da magistrada ao questionamento do defensor quanto à vantagem de se enviar determinada adolescente para uma instituição também é enérgica: “se o Poder Executivo não faz o papel dele, eu é que não posso deixar de fazer o meu!”. Na dança completamente fora de ritmo entre o judiciário e o executivo, portanto, quem fica só são os jovens, carentes de muita coisa até chegarem ali, e que terão uma difícil – ou quase impossível – ressocialização (se é que isso realmente existe).
Apesar da tentativa de fazer um documentário seco e sem conduzir o espectador, Maria Augusta Ramos escolheu cuidadosamente momentos que confrontam e colocam em questão o “juízo” de seu público. O depoimento do rapaz que atentou contra o próprio pai, por exemplo, põe em xeque o papel das penas para determinados crimes que funcionam, eles mesmos, como penas para quem os pratica.
Partindo do princípio de que o conceito de “tratamento criativo da realidade” funciona para Juízo, Maria Augusta Ramos fez um trabalho bastante notável. Ela mostra a um público pouco acostumado a uma determinada realidade que ela existe, a despeito da máscara vestida por alguns, e daquela intencionalmente colocada em outros. E a falta de “juízo” não pode ser usada como desculpa para que achemos que ela não existe e, conseqüentemente, que não precisa ser modificada.
Trailer de “Juízo”:
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Por qual motivo não consigo acessar a coluna pelo Internet Explorer? Algum problema técnico de meu computador ou na publicação da coluna?
Com a palavra o suporte da Digi.
Manoel,
Era um problema na publicação da coluna, já foi corrigido.
Não assisti a este filme quando ele passou no CineCult por achar que ele não fosse tão bom, mas, pelo seu texto, acho que perdi algo bem interessante.
Aee, ate que enfim ajeitaram a formataçao do seu texto p gente conseguir ler ne tati?
Eu nao assisti ainda “Juízo” mas o colocarei na lista dos filmes que tenho que assistir ai a gente discute pessoalmente ok?;)
Eu recebi de um ex-aluno o documentario por vc citado, “Justiça”, e gostei bastante nao pq traz uma bela historia com final feliz mas pq traz uma amostra clara da realidade do nosso sistema penal e penitenciario. Seria bom que todas as pessoas que atuassem nesse sistema tivessem a sensibilidade da diretora…
A quem interessar o assunto, também indico Das Experiment (2001): Filme alemão de 2001, no qual um grupo de homens se voluntaria a simular com realismo o ambiente aversivo de uma prisão. Alguns serão os guardas, outros os prisoneiros. Contudo, o experimento dá errado de uma forma macabra… “Das Experiment” é uma excelente ilustração da necessidade de ética, planejamento e controle em experiências com seres humanos.
Pois é, Michelle, quando assisti a “Justiça”, e, mais tarde, “Juízo”, fiz essa mesma reflexão – que ótimo seria se todos os que atuassem nesse sistema tivessem a sensibilidade da diretora; mas isso é querer muito. Seria bom, pelo menos, que pudessem ver os documentários e se sentissem minimamente tocados pela crítica que ela fez ao decidir retratar o nosso sistema judicial.
Gostei muitíssimo da sua sugestão: Das Experiment tá na minha lista de prioridades!
Beijão!