Colunas Diginet
Tatiana Lima

Tatiana Lima - tatianalima@digizap.com.br

Cinema com Café

Tatiana Lima, 27 anos, é apaixonada por cinema...

“Edukators” e o cinema alemão contemporâneo

domingo, 25/novembro/2007

edukators-cartaz.bmp“O cinema antigo está morto. Acreditamos em um novo”, dizia o Manifesto de Oberhausen, publicado em 1962, encabeçado por Edgar Reitz e Alexander Kluge e assinado por 26 cineastas. Estávamos nos turbulentos anos sessenta, e principalmente no pós-Maio de 1968 os conflitos sócio-políticos vieram com força nas películas dos jovens Rainer Werner Fassbinder, Werner Herzog e, tardiamente, Wim Wenders. O que marcou o início dessa fase denominada de “Novo Cinema Alemão” foi o tal manifesto, em que um grupo de jovens cineastas reivindicava a destruição da estética conservadora do Terceiro Reich (lembre-se de Leni Riefensthal) e incentivos financeiros para aquecimento do setor.

O novo cinema trouxe, além dos questionamentos políticos e de quebra de convenções sociais, como a emancipação feminina, as relações de poder dentro da família e os grupos sociais marginais, o cinema introspectivo e reflexivo de Wim Wenders, inspirado, claramente, em Antonioni. Com a morte de Fassbinder e os trabalhos cada vez mais freqüentes de Wenders em Hollywood, diz-se que o novo cinema alemão acabou. Não acho que isso seja totalmente verdade. Wenders, apesar de tudo, continua fazendo um cinema de autor, a meu ver. Mas é inegável que o cinema alemão contemporâneo está mais próximo que nunca da estética americana, e para conquistar público precisou se aproximar mais da televisão.

O filme mais bem sucedido dessa nova etapa é claramente Corra, Lola, Corra, do diretor Tom Tykwer, lançado em 1999. Que o filme é quase um video-clipe ninguém duvida. Mas é interessante como as inovações narrativas ainda permanecem lá, como algumas décadas atrás. Mas quero direcionar meu foco para Edukators, de Hans Weingartner (2004), um exemplo em que estética moderna e questionamentos políticos se juntaram, mesmo que aparentemente.

Edukators narra a história de dois jovens alemães que, cansados de fazer protestos contra as opressões do capitalismo na praça, com cartazes e palavras de ordem, acabam partindo para um protesto mais intimidador, por assim dizer. Através da interferência nos sistemas de vigilância de casas de ricaços, eles invadem e realizam uma verdadeira bagunça na mansão alvo: nada é roubado, mas tudo é tirado do lugar, de forma a atingir o sentimento de segurança do “burguês”. Recados como “seus dias de fartura estão contados” e “você tem mais dinheiro do que deveria ter” são deixados para advertir o morador sobre o protesto.
edukators.jpgedukators1.jpgedukators3.jpgedukators4.jpg
Paralelamente surge um triângulo amoroso formado pelos dois rapazes e pela namorada de um deles, que acaba se envolvendo na ação dos “educadores” ao sugerir uma ação na mansão de um ricaço para quem ela deve quase 100 mil euros, por causa de uma batida de carro. O triângulo é umas das formas de aproximação que o diretor utilizou para chegar ao público jovem. O problema é que algumas cenas chegam a ser bem piegas, como na conversa em que Jan e Jule descobrem que estavam no mesmo show de Jeff Cole. Outros artifícios de aproximação são a trilha sonora roqueira que os rapazs escutam em alto volume dentro do furgão com o qual fazem as invasões, e a estética “câmera na mão” aliada à falta de apuro no tratamento de imagens, que ficaram um tanto escuras. Aparentemente, no entanto, isso faz parte das intenções do diretor.

A idéia central do filme é basicamente a indagação do que a nossa geração fez, ou pode fazer, para mudar o mundo. Através dos diálogos em que se questiona a justiça de se pagar a dívida de Jule ou a quantidade de crianças que foram escravizadas para a produção de um tênis, o diretor quer fazer acreditar que ainda há idealismo e rebeldia entre os de nossa geração. E que, apesar de a maioria ter sido esmagada pelo anseio capitalista, ainda há gente que pensa diferente e age pra mudar.

O contraponto com a idéia revolucionária dos anos sessenta é feita com as conversas entre os educadores e o ricaço seqüestrado. O filme aí fica bem interessante. O conflito de gerações se torna claro e propõe uma questão espinhosa: o tempo arrefece os anseios revolucionários?

Edukators vale pelas questões que sugere, que vão contra a corrente de comédias românticas ou filmes iranianos com crianças que não tem nem um sapato para ir à escola. Ele é mais próximo de nós: sugere que os jovens de classe média têm muito a fazer para mudar concretamente o status quo em que estão inseridos. E não é só discurso. Mas a resposta do filme é um tanto pessimista. Ou eu não entendi o final direito. Assistam e me contem o que acharam.
edukators2.jpg

5 comentários

  • Lucila : -

    Achei o filme muito otimista.
    Quase um final da Disney =)
    Tem as imperfeições que você citou, mesmo. Mas, ele é muito comovente e revitaliza uma visão de altruismo, meio fora de moda nesta geração.
    É uma ótima indicação.

  • FFF : -

    Tatiana, o filme é ótimo, gostei muito mesmo. O final é bem controverso, há quem diga que eles viraram a casaca e se tornaram burgueses e que o ricaço tentou pegá-los, mas na minha opinião mostra o contrário, que o ricaço financiou a ação deles na ilha não sei das quantas. Acho que tanto a estética do filme quanto seus diálogos são muito bons, o que faz valer a pena assistir.

  • Camila : -

    Oi Tatiana!
    Adorei esse filme e gostei muito do que você escreveu. Eu já li tantas discussões sobre o final que até me perdi, preciso rever.

  • Tatiana Lima : -

    Uma das coisas mais interessantes do filme é essa dúvida que fica no final. Mas quando vi pela primeira vez, tipo “a primeira impressão é a que fica”, achei que eles resolveram continuar fazendo os protestos de uma forma, digamos, mais confortável.
    Assim como algumas famosas ONGs (sem generalizações)…
    Não viraram a casaca totalmente, como disse o FFF, mas a Jule se livrou da dívida. Um final feliz.

  • Fábio Farias : -

    Vi o filme ontem. Discordo que ele tem uma estética que se aproxima mais do cinema norte-americano. Certo é que ele passa longe, bem longe mesmo da preocupação estética do cinema europeu. Acho ele mais próximo do cinema sul-americano e dos curtas metragens. Câmera de mão, atores sem maquiagem, aparente despreocupação com o figurino e com a pós produção do filme, cortes secos.

    Sobre o filme em si, a idéia foi excelente. Sim, concordo que o triangulo amoroso ficou meio forçado ali, mas a narrativa em si e a complexidade dos personagens, sempre prontos a te surpreender são o ponto forte do filme. Isso tudo, é claro, sem falar da mensagem que o filme passa.

    Altamente recomendável. Mas eu ainda prefiro “A Vida dos Outros”.

Comente!

Veja mais artigos de Tatiana Lima