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Tatiana Lima

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Cinema com Café

Tatiana Lima, 27 anos, é apaixonada por cinema...

Do dilema de ser um herói

sexta-feira, 8/agosto/2008

Ouvi falar do britânico Christopher Nolan, pela primeira vez, ao encontrar um conto no jornal chamado Memento Mori. O tal conto originou o filme Amnésia, longa que trouxe Nolan para a vitrine do cinema americano. Uma história contada de trás pra frente, em blocos, já que o protagonista sofre de um tipo de amnésia que apaga as lembranças recentes a cada 15 minutos. Um filme que o grande público qualificou como “difícil”, “maluco” ou “cabeça demais”. O artifício não era tão original assim, já que Tarantino já o havia utilizado com sucesso em Cães de Aluguel. Mas o que se revelou inovador foi a capacidade de adaptar o conto a um roteiro narrado em primeira pessoa, cuja ordem obedece justamente à falta de ordem da memória do narrador. Nolan se utilizou da narrativa não-linear para dar sentido à confusão mental de seu protagonista.

Todo esse prólogo pra dizer que Nolan não é um diretor qualquer, que começa fazendo filmes fáceis pra ganhar o público. Escolha acertada, portanto, para dirigir e roteirizar o episódio O Cavaleiro das Trevas, da série Batman para os cinemas. Se o filme anterior já trazia uma atmosfera sombria, que buscou justificar as dificuldades de Bruce Wayne (o homem por trás da capa de Batman) enquanto ser humano, esta segunda versão do Batman de Nolan aprofundou duas questões básicas para a definição do herói: sua dificuldade em lidar com suas limitações humanas, e sua necessidade, mesmo já sob a capa de super-herói, de possuir boa dose de resistência psicológica, e não só força física.

A ambientação da película é bastante realista, ao contrário de muitos filmes do gênero. Gotham City lembra qualquer megalópole de hoje: é super povoada de homens maus, desde ladrões pé-de-chinelo, que se vestem de Batman para satirizar o herói, até mafiosos com grande e sub-reptício poder. Prato cheio para a boa vontade do Promotor Público Harvey Dent e de sua colega Rachel – a melhor amiga e amor da vida de Wayne, agora vivida por Maggie Gyllenhaal. O grande problema do promotor é o grande desafio da polícia nos tempos atuais: conseguir provas de atuação do crime organizado e cercá-lo até que suas práticas se tornem inviáveis. E, infelizmente, ele não conseguirá fazê-lo sozinho.

O embate inicial entre Wayne e o promotor – mais clichê impossível, por causa do amor de uma mulher – introduz na história a aproximação das duas forças “do bem”. É a partir dela que toma corpo, neste filme, a caracterização do peso de ser um herói que Wayne carrega. Se, por um lado, sua capacidade de conter o mal está além da do promotor, como se mostra no episódio da prisão do mafioso chinês, de outro, ele percebe que precisa de alguém que faça o trabalho utilizando-se do sistema, para que sua super ajuda não seja imprescindível eternamente.

Não bastasse o dilema humano do Batman, um psicopata surge para auxiliar os mafiosos na guerra contra o super-herói e o promotor Dent: o Coringa, um lunático que, menos por dinheiro e mais pela diversão, “só quer ver o circo pegar fogo”, na palavras de Alfred, o mordomo que diz as falas mais sábias de O Cavaleiro das Trevas. Segundo conflito montado, e o que vemos a partir daí são algumas das mais intrigantes e magnéticas seqüências dos últimos tempos, tratando-se de filmes de super-heróis. Não porque são cenas de ação, mas porque brincam com a capacidade do ser humano de duvidar da previsibilidade do próprio ser humano.

A caracterização do Coringa, neste filme, preenche as intenções da origem de seu papel. O personagem é aquele que traz a desordem para que se questione a ordem: o senso de segurança que se adquiriu com a presença do homem-morcego; o caráter de quem está no poder; as intenções das pessoas mais comuns. Poucas vezes, no cinema, um personagem foi tão bem caracterizado. E é certo que não se trata apenas da tão elogiada atuação de Heath Ledger. A construção do personagem, parece-me, procurou aproximá-lo bastante do perfil de alguns terroristas e assassinos em massa cujas histórias encontramos nos jornais. O problema maior está quando não conseguimos prever o que esses malucos irão fazer. E o que o Coringa quer mostrar é que não há como prever as reações de ninguém.

A loucura do Coringa, portanto, dialoga bem com uma questionável sanidade do Batman. Não é à toa que esse questionamento volta quando estamos na segunda fase do filme e encontramos um Harvey Dent bastante compenetrado em seus objetivos. Essa loucura que impregna o filme é o grande trunfo do roteiro. Nunca se questionou tão profundamente, em um filme de um super-herói, o limite de sua humanidade. E, na humanidade, o limite entre ser louco ou são, bom ou mau.

O roteiro, aliás, é o grande trunfo do filme. Nolan é um ótimo diretor; Ledger é um ótimo ator. Mas fazia tempo que o cinema não presenciava um casamento tão interessante entre boa ação – vide as cenas de perseguição ora ao Batman ora ao Coringa; humor negro – as cenas do Coringa enquanto a enfermeira Matilda fazem o público literalmente gargalhar no cinema; suspense – bastante psicológico, diga-se, dados os jogos planejados pelo palhaço psicopata; e, por fim, drama, já que o dilema de ser um herói, para o Batman, foi muito bem delineado e torna o final bastante emocionante. Quem dera que toda equipe de realização de filmes de super-heróis conseguisse não subestimar a inteligência do espectador e produzisse espetáculos cinematográficos como O Cavaleiro das Trevas.

7 comentários

  • FFF : -

    Pensei que você não ia comentar esse filme. Exageros à parte por conta de alguns comentaristas na net, o filme foi dos melhores que vi ultimamente, dos poucos que me fazem ir ao cinema mais de uma vez. Da primeira vez que vi achei o roteiro massa mas um pouco longo, e fiquei pensando que a “segunda fase” do filme talvez tivesse ficado meio mal contada, mas quando vi da segunda vez pude perceber melhor que o filme todo é um preparo para a derrocada de H.Dent. Enfim, excepcional!

    FFF

  • Kamila : -

    Tatiana, acho que você foi certeira ao apontar o roteiro como uma das grandes qualidades de “O Cavaleiro das Trevas”. Muita gente acha que o filme fala sobre o que faz de um homem um herói ou um vilão. Eu acho que o longa do Christopher Nolan mostra que todos nós temos estes dois lados dentro de nós. Em algum momento, isto irá se manifestar. Este elemento faz parte fundamental do jogo do Coringa, que quer nos levar aos nossos limites.

    Enfim, é um trabalho excelente do Nolan e, principalmente, de todo o elenco de “O Cavaleiro das Trevas”. Como você bem disse, seria bom que todos os filmes de super-heróis fossem um espetáculo como este…

  • Chigue : -

    Noossa, quanta saliva pra comentar esse lixo supremo da triste anestesia mental que passa por cultura no nosso mundinho imbecilizado de hoje-em-dia.
    Entrei pra ver, enganado pela midia, confesso, e pela admiração de alguns amigos, e saí com 35 minutos, com falta de ar.

  • leo seabra : -

    Coincidência o mafioso ser chinês?

  • Vulgo Dudu : -

    Eu já andei comentando sobre o filme, que não vi, em outros blogs. Tenho uma implicância séria com super-heróis. Não sei se é algo mal resolvido, complexo de alguma coisa, vai saber… Fato é que não tenho, de verdade, a menor vontade de ver esse filme. Talvez no dia em que passar na TV…

    Eu acho engraçadas as discussões que o morcegão gera. Tem amigos que defendem a tese de que ele é um fascistóide, outros que ele é a personificação do egocentrismo e por aí vai.

    Bjs.

  • Cidadão Mossoroense : -

    Nesta campanha o “hino” é Numb.

    Boa Sorte e se cuida, abraços.

  • Mi : -

    Tati

    Assisti esse filme no fds passado – mais um pouco e acho que perdia a chance de ver na telona – e adorei… de fato, como vc frisou, o Coringa está fantástico nesse filme, em todos os aspectos: figurino, atuação, texto, muito melhor que o próprio Batman… Nao querendo menosprezar as sábias palavras de Alfred, o mordomo, quem me fez refletir mesmo sobre os limites humanos foi o Coringa…e isso é o bom dos filmes de super-herói… perceber que todos nós temos nossas loucuras, fraquezas e maldades se pressionados…concordo com a Kamila, ninguém é totalmente bom ou ruim…a diferença é que uns conseguem controlar melhor ou durante mais tempo seus limites..um xero e indique mais filmes pois to esperando:P

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