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Tatiana Lima

Tatiana Lima - tatianalima@digizap.com.br

Cinema com Café

Tatiana Lima, 27 anos, é apaixonada por cinema...

“As Leis de Família” e o Novo Cinema Argentino

terça-feira, 30/outubro/2007

leis-de-familia.jpgA expressão “novo cinema argentino” serve, para aquele país, como o termo “retomada do cinema nacional” serve para os filmes produzidos no Brasil a partir de Carlota Joaquina, Princesa do Brasil. Não designa uma escola, ou um grupo de cineastas com temas conexos, mas nomeia a safra de filmes advindos do incentivo criado pelo Instituto Nacional de Cine y Artes Audiovisuales (INCAA), da Argentina. Desde 1994, o INCAA desenvolve uma política de fomento que levanta recursos por meio de taxas sobre a venda de ingressos no cinema, sobre o aluguel e venda nas locadoras e sobre a arrecadação das emissoras de televisão. O incentivo, associado à existência de escolas de cinema na Argentina, serviu para alavancar criatividades e despertar uma arte que está no sangue portenho. Desde os anos 40 o Brasil já observava a desenvoltura dos argentinos na produção de comédias e melodramas de estúdio.

Agora o que nos chega aqui é uma onda de filmes existencialistas e, por vezes, melodramáticos, que, pelos temas, têm feito sucesso também no mercado europeu. Para começar a entender a atração dos argentinos, recomendo Pizza, Birra, Faso, de Adrián Caetano e Bruno Stagnaro, O Pântano, de Lucrecia Martel, Valentim, de Alejandro Agresti, e Plata Quemada, de Marcelo Piñeyro. Além de As Leis de Família, que é o meu tema desta semana.

As Leis de Família foi o filme exibido na semana passada na Sessão CineCult, projeto que tem como palco o Cinemark. É um filme do diretor Daniel Burman, do também excelente O Abraço Partido, de 2004, filme de que falei muitas vezes a alguns amigos, por ter me tocado bastante, pelo roteiro e pela forma engraçada de tratar de um tema tão árido: a busca pela identidade.
perelman-pai-e-filho.jpg
Em As Leis de Família a temática persiste. Apesar de o foco da película aparentemente estar em Ariel, o filho, percebe-se que toda a sua tentativa de deixar a vida menos sem graça remete a um desejo de não se parecer tanto com o pai. Em O Abraço Partido, ao contrário, a busca de identidade tinha como desejo contido o reencontro com o pai, que deixou a família muitos anos antes.

O que importa é a narrativa escolhida por Daniel Burman. Contando em off sua história, Ariel (o mesmo nome de personagem e o mesmo ator, Daniel Hendler, de O Abraço…) descreve sua vida como quem ri das situações por que passa. Ele é defensor público e professor de Direito de uma universidade, e apaixona-se por uma de suas alunas. Já que ela deixa a faculdade, ele se matricula em sua escola de Pilates e acaba ajudando-a a resolver uma pendenga com a justiça. O detalhe é que ele pensa que só consegue conquistá-la por conta da tal ajuda.

Para completar, Burman soube escolher ótimos atores. A interpretação de Daniel Hendler conquista o espectador, apesar de seu personagem ser um cara que, se encontrássemos na rua, passaria por extremamente chato - ele até dorme de gravata (!). E tem uma sintonia com o menino que interpreta Gastón que faz imaginar se eles não seriam mesmo pai e filho. As músicas, com um toque infantil, remetem mais ainda a um clima “família”.
gaston-e-ariel.jpg
A identidade passa, então, a ter como referência a família. O título do filme nada tem a ver com Direito de Família propriamente dito. Ariel percebe que as relações que teme, na escola do filho, em casa, e com o pai, são o que o formarão como indivíduo. A sua escolha de como participar na apresentação do filho na escola e a sua fala, ao final, apesar de aparentemente ingênuas, explicam muita coisa.

Vale a pena curtir Burman em dose dupla. E rir bastante de seus próprios problemas.

16 comentários

  • FFF : -

    Parece bom…

  • anailuj : -

    Gostei muito de O Pântano, de Lucrecia Martel. Vou ver se assisto este.
    Acho o cinema argentino super maduro.
    Você citou Valentim, de Alejandro Agresti, e lembrei: “O ano em que meus pais saíram de férias” é praticamente uma refilmagem dele. Aliás, tão bom quanto.

    abraços

  • Tatiana : -

    Oi, Juliana! Pois é, eu não vi “O Ano em que…”. Mais um reforço para que veja, porque “Valentim” é um dos filmes mais emocionantes a que assisti. Aqueles óculos do menino, aquela cara de coitado… parece que ele foi feito para o papel!
    Veja também “O Filho da Noiva”. Vale a pena.

    FFF: não sei se o filme já está nas locadoras, porque é bem recente. Mas a vantagem dos filmes argentinos, com relação aos europeus, é que eles têm sido lançados pelas distribuidoras daqui. Vale ficar de olho.

    Abraços!

  • Gabriel Galvão : -

    Vou atrás desse filme!

    P.S.: O Filho da Noiva é excelenet!

  • Flávia : -

    O que mais me encantou ness filme foi, além de abordar os temas como a falta de tempo, a paternidade e as leis bem rígidas da família, foi o fato de levantar essas questões e não se preocupar em responder nenhuma delas.

  • Tassianna : -

    O filho da noiva e um filme lindo, e tem outro do mesmo diretor q nao sei o nome,mas minha irma assistiu ( nao sou silvio santos, mas vale )e tb gostou. me fala qdo acontece essas sessoes no cinemark, parece a epoca das sessoes de arte la do natal shopping,que eram bem legais…” o ano em que…” vale a pena ser visto, ate pq e o nosso concorrente ao oscar, ne? bj

  • Tatiana : -

    Pode crer, Flávia, não havia pensado sob esse ponto de vista, mas o filme realmente não se preocupa em responder a essas questões.

    Tassianna, a sessão Cinecult ocorre durante toda a semana, em sessões sempre às 15h, no Cinemark. A cada semana é um filme diferente, sempre mudando na sexta-feira. Aqui no site da Digi, no link “Cinema”, sempre há o cartaz e a sinopse do filme da semana. Acho que o filme de que você fala, do Juan José Campanella, é “Clube da Lua”, não? Também não vi ainda… vou procurar ;)

    Abraços!

  • Tassianna : -

    horario ingrato esse, eh pra amantes do cinema mesmo, entao… estarei la hihihi, qto ao nome nao sei vou perguntar a minha irma. abraços

  • Gabriel Galvão : -

    Esse horário do cinecult é uma agressão à inteligência.

  • Tatiana : -

    Pois é… como se a criança/adolescente fosse o público alvo do projeto, né?
    E semana passada perdi “Baixio das Bestas”… :(
    Fazer o quê? Pelo menos há o sábado!

  • Roberto Nunes : -

    Caros Gabriel, Tassiana e Tatiana, realmente o horário da Programação do Cine Cult pode não ser o ideal, mas o importante é que estamos garantindo a exibição de filmes que nunca chegariam a Natal no Circuito Comercial, ao escolhermos o horário das 15 Horas, garantimos a possibilidade de oferecer os ingressos a um preço promocional e assim atrair um público que muitas vezes só vai ao cinema na sessão desconto.
    Aqui em Aracaju, onde começamos o Projeto muitos frequentadores pediram sessões noturnas, começamos a realizar sessões nos finais de semana a noite, com o ingresso ao preço normal da bilheteria e essas pessoas nunca apareceram.
    Natal atualmente é o segundo melhor público do Projeto atras de Aracaju.
    Estou a disposição de vcs para qualuer opinião pelo e-mail> cinevideoeducacao@hotmail.com
    Grato

    Roberto Nunes
    Coordenandor do Cine Cult

  • Tatiana Lima : -

    Olá, Roberto!

    Muito obrigada pela gentileza em nos trazer essas questões “práticas” relativas ao Projeto Cine Cult. Foi bom saber que é um projeto que não ocorre só aqui.

    E só posso ratificar o que você disse: o projeto é uma alternativa muito importante para quem não quer ficar só no circuito do cinemão. Sou sempre agradavelmente surpreendida pela atualidade e qualidade das produções trazidas. Até já comentei algumas delas neste espaço.

    O fato é que, para quem trabalha, é complicado ir ao cinema às 15h. Por isso a reclamação de Gabriel e Tassiana. Penso que não há só o entrave do preço que ficaria mais alto à noite, também deve ser desvantajoso para o Cinemark reservar uma sala, no fim-de-semana, à noite, para um filme que não está no chamado circuito comercial.

    Infelizmente, hoje em dia, qualquer filme que não seja uma superprodução ou que não seja norte-americano fica relegado ao rótulo de “cult”. Mesmo que não seja cultuado.

    Mas é como mencionei aí em cima: ainda bem que a sessão permanece aos sábados e domingos! E a redução do preço em decorrência do horário também é um fator que pode atrair um novo público para essas seções. Espero sinceramente que sim.

    Um abraço e vida longa ao Projeto Cine Cult!

  • Gabriel Galvão : -

    Roberto,

    obrigado pelo contato!

    Eu venho aqui somente amaciar um pouco a dureza do meu comentário.

    Quero dizer que projetos como esses são realmente difíceis no nosso país mas bastante necessários. O grande problema é que o horário inviabiliza toda e qualquer pessoa que trabalhe.

    Um horário que seria interessante seria o último horário da sexta ou do sábado. Acredito que seja um horário que dê pouca gente, então por que não utilizá-lo? A maioria das pessoas que consomem este tipo de cinema acredito que possam ir ao cinema à meia noite de uma sexta-feira ou sábado.

    Abraço,

    Gabriel Galvão

  • Luana : -

    Roberto,

    Gostei de você vir ao espaço dar “cara à tapa” e defender o horário do Cinecult, o que, convenhamos, é dificílimo :)
    O sucesso da sessão, no entanto, eu acho que não está no preço nem no horário, mas na absoluta falta de opção de cinema na cidade, que mesmo para os filmes comerciais, tem um número de sala muito reduzido. O Cineclube daqui é super ativo e as sessões que promove são sempre disputadas. Natal tem público para filmes de arte sim, pode apostar :)

  • Camila : -

    Adorei a crítica sobre Leis de Família. Sou fã do cinema argentino e dos filmes do Daniel Burman.

    Camila

  • Virginia Keunecke : -

    sou argentina morando em Natal. Por falta de informaçao perdi aqueles filmes que vcs comentam aquí. Mas vi outros que indico: Kamchatka, Luna de Avellaneda, La Niña Santa, e outro de uma diretora nova que assim que me lembre do título repasso pra vcs. Gostaría ter a programaçao do cinecult , para nao ter outras perdas. Muto Obrigada.Virginia Keunecke

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