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Sérgio Vilar

Sérgio Vilar - sergiovilar@digizap.com.br

Diário do Tempo

"Observador parcial do cotidiano. Jornalista nas horas bonitas do dia. Meu binóculo mira a lua de Dostoiévski. Um "provinciano incurável" das cenas da esquina. É que aprendi a observar a lagarta e não a borboleta".

Decretado o fim do romantismo?

quarta-feira, 11/junho/2008

Dia dos Namorados e o psiquiatra Flávio Gikovate decreta o fim do amor romântico. Segundo o médico, já com 41 anos de clínica e autor de oito livros sobre o tema, a vida de solteiro é um caminho viável para a felicidade. E afirma, em entrevista a Veja.com: “Sempre digo aos meus pacientes: se você tiver que escolher entre o amor e a individualidade, opte pelo segundo”.

É duro de ler sem massacrar as migalhas de esperança em uma civilização mais afetuosa e solidária, ou pelo menos em um admirável mundo novo, aquele mesmo de Aldous Huxley. É lastimoso acreditar nessa teoria mesmo quando o individualismo dos novos tempos já avança sobre as fronteiras do bem estar coletivo e as grades são portais entre dois mundos distintos.

Segundo o psiquiatra, as pessoas casadas e felizes são uma minoria. Não passam de 5%. Vivem relacionamentos possessivos em que falta confiança recíproca e sinceridade. Algum tempo depois do casamento até se consideram bem casados porque ganham filhos e se estabelecem profissionalmente. Depois, se deparam com outra realidade e a decisão drástica de mudança. Normalmente é a separação.

Sob análise fria, talvez seja mesmo o retrato do tempo-hoje. A cada dia aumenta o número de casais que optam pelos quartos ou até casas separadas, como maneira de preservar o vínculo. E Gikovate esclarece que o individualismo não traduz egoísmo ou descaso. Para ele, é uma maneira de aumentar o conhecimento de si próprio e criar condições para um avanço moral significativo.

“Há muitos solteiros felizes. Levam uma vida serena, sem conflitos. Quando sentem uma sensação de desamparo, resolvem a questão sem ajuda. Mantêm-se ocupados, cultivam bons amigos, lêem um bom livro, vão ao cinema. Com um pouco de paciência e treino, driblam a solidão e se dedicam às tarefas que mais gostam”. E ressalta: “Os solteiros que não estão bem são geralmente os que ainda sonham com um amor romântico”.

Se o psiquiatra comentasse isso em uma missa, certamente o padre diria: “Palavras da salvação”. Parece uma teoria pronta, definida e sem flexibilidade alguma. Não acho que seja regra. Tampouco premissa. Não faz muito tempo, Vinícius de Morais dizia que “é impossível ser feliz sozinho”. As palavras do poetinha já caducaram? Mas é bem verdade que Vinícius nunca encontrou um grande amor. Ou encontrou vários.

O também renomado psiquiatra e autor do best seller A Cura de Schopenhauer, Irvin D. Yalom deixou claro no livro a necessidade dos relacionamentos sólidos, baseado no amor, na compreensão das diferenças e dos limites de cada um – uma quebra do pensamento do próprio filósofo alemão. Para Schopenhauer, os relacionamentos e os desejos só levam à dor e ao tédio.

Talvez eu tenha desbancado Lulu Santos e seja o último romântico. Ainda acredito no amor como base fundamental de uma revolução do comportamento humano. Mas o pensamento de Gikovate é demasiado realista. Talvez a raça humana precise de uma era de solidão para reaver conceitos, criar a tal condição para uma evolução ética e só então se entregar verdadeiramente ao amor, à compaixão.

Mas por hoje, pelo menos hoje, admiremos a lua, que ainda emerge do mar. Os cenários românticos são praticamente os mesmos de outrora. Talvez um poste substitua um candeeiro. Nada demais. E Renato Russo exagerou: ainda há, sim, palavras a serem ditas, sem clichês, sem repetição e com a voz da pureza dos sentimentos. E nisso sou convicto: ainda há gentilezas no mundo. E gentilezas se traduzem no amor sutil. E eu pergunto: será preciso instantes de solidão para compartilhar esse amor?

6 comentários

  • Ruth Maia : -

    Sérgio,
    vc leu realmente o livro de Gikovate ou apenas uma matéria que saiu no jornal?
    o titulo é o fim do amor romantico…no sentido de fusão romantica em que as duas pessoas perdem sua identidade (personalidade) e se torman uma…uma dependente da outra…como a união de duas metades. Ele defende a união de dois inteiros, dois individuos completos, independentes e de pesonalidade formada que se atraem pq um acha o outro interesante e decidem compartilhar sua vida com a outra pessoa. Ele defende uma relação saudável que mantenha a individualidade de cada um.
    individualidade é algo totalmente diferente de solidão. ele não defende a solidão, defende relações humanas saudáveis e inteligentes.
    ai…se a pessoa não encontrar esse tipo de relacionamento, ele dá outra alternativa, ser feliz sozinho…o que não quer disser que a pessoa vá viver em solidão, sem se relacionar com ninguem nem viver em sociedade.
    É ele isso pq as pessoas que estão teoricamente solteira seja uma pessoa infeliz ou que está faltando alguma coisa na vida dela e não é bem assim.
    Ele fala que existem pessoas casadas infelizes assim como pessoas solteiras felizes…e vive-vesa…não existe uma regra geral.

    enfim acho as teoria de Flavinho Gikovate otimas.
    e como hoje é o dia dos namorados, muito amor pra todos.

  • Sérgio Vilar : -

    Oi, Ruth!

    Eu li apenas a entrevista, por sinal, muito bem conduzida. E minhas observações partem daí. Pelas palavras de Gikovate, a visão dele me parece bem maniqueísta, sobretudo quando ele diz que os solteiros são geralmente felizes, e os infelizes são aqueles que ainda sonham com um amor romântico. Mas não é de todo errada. Como disse, são bem realistas, retratam o tempo-hoje.

    Uma outra passagem: “Sempre digo aos meus pacientes: se você tiver que escolher entre o amor e a individualidade, opte pelo segundo”. Quer dizer: o amor, para ele, é secundário. Ou pelo menos a individualidade é primordial. Se ele fala do amor entre um casal, ou amor romântico, talvez seja isso mesmo. O amor que ainda acredito é entre as pessoas, não exatamente entre casais. É o amor cotidiano, traduzido nas gentilezas, nas palavras e gestos de carinho para com o próximo.

    Quanto à solidão, essa é uma opinião minha. Acredito na necessidade de uma era de solidão, introspecção para uma mudança radical no comportamento social.

    Poxa, valeu mesmo o comentário, Ruth. E como você disse: muito amor para todos!

  • A Pedra_* : -

    Vou descrever o amor sem precisar ser psicologo nem psicanalista.
    lá vai:

    O amor é um sentimento muito bosta, ele nos empolga, faz falarmos coisas estúpidas e depois nos da uma rasteira enorme. Só sendo insuficiente para sofre, só sendo burro para não perceber que a assim. E o pior é que ao sofremos por este sentimento merda, criamos uma sensação de inferiores. Mas tudo isso é pura ilusão. E o melhor de tudo é reconhecer que quem a gente amava não passa de uma pessoa fraca idiota, sem identidade própria e com uma sede artificial de viver a vida.

    Agora o povo vai meter o pau véio.
    abraços

  • Diego : -

    Caro Sérgio,

    Acredito que exista aí um questão fundamental, a saber, que “amor” é esse? Se estivermos falando do amor do romantismo burguês, idealizado, aquele das “almas gêmeas”, que ainda pauta a cabecinha de muita gente que se casa, acredito que estejamos vendo,sem sombra de dúvida, os seus momentos de agonia. Mas se estamos falando do amor enquanto sentimento maior, como sinônimo de respeito, de altruímo, aí a coisa é diferente, pois esse é um amor que ainda grassa, felizmente, em nossos espíritos. O que talvez se mostre imperativo seja a renovação desse amor, sua resignificação, é necessário que ele seja relido para que possa compor esse universo no qual o indivíduo se apresenta como eixo maior. E vamos descobrir que um certo individualismo e a abnegação não são tão paradoxais quanto parecem.

    Grande abraço.

  • Puncion : -

    Não posso opinar… Minhas duas cabeças pensam diferente…

  • Marcelo M. da Costa : -

    Grande Sergio, sempre adimiro seus artigos, e sou adepto de suas opnioes. Tambem me considero uma especie de ultimo romantico, sem melodramas ou radicalismo, que e aparente da dureza de pensamento de uns e dores de cotovelo de outros…
    Creio que a uniao de metades e impossivel, mas que ser espectador da vida de outro e viver o amor de forma plena, em todas suas facetas, e uma dadiva. Creio que so atraves dele ha a transformaçao, e que lado vamos tomar sempre sera uma escolha.
    Grande Abraço, e parabens novamente.

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