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Sérgio Vilar

Sérgio Vilar - sergiovilar@digizap.com.br

Diário do Tempo

"Observador parcial do cotidiano. Jornalista nas horas bonitas do dia. Meu binóculo mira a lua de Dostoiévski. Um "provinciano incurável" das cenas da esquina. É que aprendi a observar a lagarta e não a borboleta".

De agosto

sexta-feira, 1/agosto/2008

Agosto parece mês inebriado. Abriga a força dos ventos alísios. E dos ventos chega a maresia a acalmar mentes e almas. E a brisa umedece sensações e perfuma ainda mais os coqueiros-caciques de Navarro de uma melancolia infinda.

Das varandas à beira-mar, o agosto se faz mais presente. O sabor das ondas nos olhos; o gosto do mar no corpo. Dos silêncios da praia, brota o barulho da natureza, remexida pelos ventos do mês. Os coqueiros suspiram, arquejando de tédio. O mar mais bravio descansa no encontro com as falésias. Os olhares, mais ausentes, acompanham inebriados o navegar manso da canoa em labuta, alheia ao vento e ao frio.

Ainda há o manto invernal. Os ventos friorentos de agosto intimidam os cajus. Das dunas de Santa Rita ainda se vê algum. A chuva de amarelos e avermelhados frutos vem mesmo no veraneio. É que caju é fruta alegre, amigo leitor. Vê-se pela cor. E neste mês cinza, os cajus e a euforia se escondem como marias-farinhas em suas tocas, medrosas a qualquer pingo de chuva.

Nas dunas desta praia espremida e pacata, da qual vigio há mais de 20 anos, é onde os ventos de agosto parecem encontrar morada. Vagueiam pelo mar em direção à duna, como quem persegue a solidão das pegadas na areia: passos de melancolia. E daquela mesma duna que guarda o sol em fim de tarde, emana o cenário dos céus em gradações de cores, interrompidas por nuvens carregadas de tédio.

E as dunas, amigo leitor, são movidas pelos ventos. Brisas geladas que congelam corações e mentes nativas que ainda habitam aqueles confins de praia, regressados aos seus barracos na companhia do sol, nos fins de tarde. E seguem carregando o peixe ou a estafa, enquanto a canoa adormece numa solidão tristíssima nos barrancos de areia à beira-mar, alisada pela maresia corrosiva e fria.   

É assim o caminhar nestes dias de agosto: mês com cara de grande manhã cinzenta, longe das tardes insistentes e abafadas do verão. Em agosto os dias se arrastam, medindo forças com o tempo e com o vento. São carregados de uma tristeza refletida na introspecção dos passantes na calçada; no olhar perdido do ambulante. É que agosto parece querer regressar no tempo; provocar pensamentos, reflexões.

Mas os ventos parecem abrandar neste fim de mês. Setembro já é mira no horizonte. Mês sem graça; mês vazio. Parece transitório. Já se pensa em algum verão; alguma alegria. É quando o período contemplativo é guardado novamente no armário, junto aos cachecóis. As nuvens entediadas se dissipam. E lá longe, na duna daquela praia-refúgio, os cajus já ensaiam largar a vírgula das castanhas.

2 comentários

  • @Help : -

    Eu tinha muito medo do Mes de agosto,pois sempre acontecia um desgosto.Depois comecei a ter medo do m~es de setembro.
    então vi que cada dia tem seus medos e preocupações.
    Já vejo o agosto,como o começo de final de ano.Chegando a primavera…
    foi assim que comecei a conviver melhor com ele.

  • Máfia do prazer. : -

    Isso não existe, não, dona Socorro.

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