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Rodrigo Levino

Rodrigo Levino - rodrigolevino@digizap.com.br

Rodrigo Levino

Rodrigo Levino, 25 anos, jornalista e escritor, lançou em 2006 o seu primeiro livro, "Aos Pedaços". Em 2008 lançou o segundo, de crônicas, "Dias Estranhos". Escreve para as revistas Piauí, Trip, Rolling Stone e Playboy.

Pé do Ouvido VIII

terça-feira, 24/abril/2007

Pé do Ouvido revirou a estante e separou algumas dicas bacanas de livro, discos e filme esta semana. Por falar neles, é fato como discos e filmes tornaram-se com auxílio da tecnologia, muito mais acessíveis nos últimos anos.

A era do download alçou bandas de garagem ao estrelato (Arctic Monkeys, lá fora e Moptop, no Brasil, por exemplo) e interferiu até em roteiro de filme (Snakes on a Plane), prova da interatividade entre usuários e veículos produtores de arte ou simplesmente espetáculo.

Ao que parece, a barreira primordial que impede os livros de estarem no mesmo rol de acessibilidade é o duelo entre praticidade e prazer, incapaz de tornar aliados o livro, objeto físico, com os gadgets eletrônicos.

Por mais que se ofereçam vantagens no deslocamento de alguns bytes que comportam centenas de livros, o prazer de segurar um calhamaço passa ao largo de levar num iPod milhares de música. É como se, ao menos para os nostálgicos, ainda fosse mais prazeroso ouvir música numa vitrola velha, ao invés de mp3 players digitais.

É, em termos, o que se dá com os livros. É de fato incômodo – ainda, pois nunca se sabe o que diabos a tecnologia nos aguarda na próxima esquina – ler páginas e páginas numa tela de computador, sem cheiro, sem tato.

Em programas de download como E-mule e Kazaa é possível encontrar disponíveis alguns exemplares de audiobooks. Já em sites como o Domínio Público, podem-se baixar centenas de obras clássicas da literatura brasileira e estrangeira, tratando dos mais variados assuntos.

A verdade é que até que surja um “iPod de livro” realmente confortável e que aproxime um pouco da bugiganga o prazer que é ter um livro em mãos, a dica é cascaviar sebos e livrarias e deixar a estante organizada, seja lá como você preferir.

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Arctic Monkeys

Por falar em Arctic Monkeys, o disco novo da banda britânica caiu na rede faz alguns dias. Antes de vir inteirinho, a versão ao vivo, gravada numa rádio inglesa, de “Brainstorm” (primeiro single do disco “Favourite Worst Nightmare”) já dava pistas de que o caminho apostado para o segundo disco seria a mesma crueza que consagrou o primeiro.

Depois disso, a versão com sete das doze músicas chegou ao E-mule uma semana antes do lançamento físico. Ou seja: um museu de grandes novidades. O que nem de longe tira o brilho da banda, alçada ao mainstream indie pelos viciados em download. Só ratificou o atual momento da produção musical no mundo todo. Se não vazou na internet, não é sucesso, não cria burburinho etc.

Ao contrário de “Whatever People Say…”. lançado no Brasil pela TRAMA, o disco “Favourite Worst Nightmare” ganha, esta semana, lançamento nacional pela EMI, que anda aos tubos com o rombo financeiro da filial brasileira, mas não podia se dar ao luxo de engolir mosca de uma pequena gravadora.

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Massive Attack

Vítima do fetiche dos jornalistas ingleses por batizar bandas e estilos musicais (vide Shoegaze, para mim o mais bizarro de todos), o Trip Hop, registrado em cartório numa edição da revista Mixmag para definir o disco Maxinquaye, de Tricky, dispõe de um site brasileiro dedicado a downloads de discos na íntegra: o Trip Hop X.

O compasso downbeat misturado a instrumentos acústicos, rendeu desde então discos memoráveis na década de 90, como o Mezzanine, do Massive Attack e o Roseland NYC Live, do Portishead. Ambiências, jazz, reggae, dub e funk fundem-se em melodias soturnas e trabalhadas a exaustão por produtores cuidadosos como os franceses do Air, que lançaram este ano o “Pocket Simphony”, prova de que o estilo não desfaleceu.

No Trip Hop X os downloads são de boa qualidade e a lista é extensa. Além do próprio Mezzanine, Pé do Ouvido recomenda aos que curtem uma boa “viagem” sonora os discos “Black Cherry”, do Goldfrapp, “Sunchild”, do Thief, além de “The Virgin Suicides” (Trilha Sonora Original do filme homônimo, da diretora Sofia Coppola). Tudo lá, gratuito, é só começar a baixar.

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Lock

Por trás de um grande filme há sempre uma trilha sonora memorável. Ou pelo menos deve haver, que o diga Enio Morricone, um retrato de como às vezes a trilha até suplanta a película.

Unindo as duas coisas - uma boa dica e nem tão nova assim - “Jogos, Trapaças e Dois Canos Fumegantes” (Lock, Stock, and Two Smoking Barrels, 1998), do diretor inglês Guy Ritchie, já beira os dez anos, mas perece ter saído do forno ontem.

A edição de videoclipe (que seria repetida em “Snatch – Porcos e Diamantes”) e um roteiro bem amarrado, embora algumas vezes pouco crível, sustentam a história de quatro amigos que conseguem numa “vaquinha” levantar 100 mil libras. Decididos a entrar num seleto grupo de pôquer dominado por mafiosos, os quatro perdem as calças logo de cara e recebem o ultimato: 500 mil libras em uma semana, para saldar a dívida adquirida no pano verde.

A partir daí muita trapaça, jogo de cena e tudo que for possível para se livrar dos canos fumegantes que perseguirão o quarteto até a quinta geração. A trilha, escolhida a dedo, tem desde lendas distantes do grande público como Junior Murvin, com “Police and Thieves” e Lenny McLean, com “Blaspheming Barry”, até James Brown na ótima “The Boss” e o clássico Iggy Pop, ponteando as seqüências de perder o fôlego com “I Wanna Be Your Dog”. É sensacional. Para quem gostar do filme, ouvir a trilha é quase um exercício involuntário de memorização dele.

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Roth

Para encerrar o papo, a dica de livro fica por conta de Philip Roth e o seu grandioso “Complexo de Portnoy”, livro que eu já havia citado numa crônica dia desses.

Auto-ironia, humor negro, uma visão crítica da classe média judia americana e situações que beiram o absurdo são a tônica deste livro, que em 2009 completa quarenta anos de lançado.

A narrativa de Alex Portnoy nos leva ao divã de um analista que ouve do seu paciente os dilemas de um filho que não consegue livrar-se da barra da saia da mãe e da culpa acumulada diante do caráter proibitivo que o sexo assume na criação, permeada de conflitos religiosos.

Superprotegido na infância e sufocado na adolescência, Portnoy dedica grande parte de sua vida aos escapes, leiam-se a crítica aos moldes como foi criado, em meio às tradições judaicas, e a dedicação fulltime à masturbação (por favor, nada de chiliques, não estamos em época propícia ao choque deste relato), como formas de expiar os “pecados”.

Entre os “pecados”, manter uma amante que apesar de linda é uma porta de tão inteligente e o pior: não seguidora do judaísmo. O livro é hilariante, mas algumas vezes doloroso. É como se o dilema de Portnoy cause riso justamente pelo excesso de dor. É aí que nasce o humor negro e a ironia cortante que marca a obra de Roth.

Aos curiosos, segue abaixo alguns trechos do livro citado. Espero que gostem, sem necessariamente presentear às vossas mães no dia delas.

“Ela estava tão profundamente entranhada em minha consciência que, no primeiro ano na escola, eu tinha a impressão de que todas as professoras eram minha mãe disfarçada. Assim que tocava o sinal ao fim das aulas, eu voltava correndo para casa, na esperança de chegar ao apartamento em que morávamos antes que ela tivesse tempo de se transformar. Invariavelmente ela já estava na cozinha quando eu chegava, preparando leite com biscoitos para mim. No entanto, em vez de me livrar dessas ilusões, essa proeza só fazia crescer minha admiração pelos poderes dela. Além do mais, era sempre um alívio não surpreendê-la entre uma e outra transformação - muito embora eu jamais deixasse de tentar; eu sabia que meu pai e minha irmã nem faziam idéia da natureza real de minha mãe, e o peso da traição que, imaginava eu, recairia sobre meus ombros se alguma vez a pegasse desprevenida seria demais para mim, aos cinco anos de idade.”

“Era assim, com essa ferocidade autodestrutiva com que tantos homens judeus de sua geração se matavam por suas famílias, que meu pai se matava por minha mãe, minha irmã Hannah e, acima de tudo, por mim. Se ele vivia prisioneiro, eu haveria de voar: era esse seu sonho. O meu era o corolário do dele: ao me libertar, eu o libertaria - da ignorância, da exploração, do anonimato. Até hoje, em minha imaginação meu destino permanece atrelado ao dele, e volta e meia, ao deparar com uma passagem num livro que me impressiona pelo que há nela de lógico ou sábio, na mesma hora, sem querer, penso: “Ah, se ele pudesse ler isto. É! Ler e compreender…!”. Até hoje tenho essas esperanças, tenho esses anseios, como o senhor vê, aos trinta e três anos de idade… Nos meus tempos de calouro na faculdade, quando eu era ainda mais do que hoje o filho que tentava fazer o pai compreender - naquele tempo em que, para mim, era uma questão de vida ou morte ele compreender -, lembro que uma vez arranquei o formulário de assinatura de uma revista intelectual que eu próprio acabara de descobrir na biblioteca da faculdade, preenchi com o nome de meu pai e nosso endereço e o coloquei no correio anonimamente. Mas quando, nos feriados de Natal, fui, emburrado, visitar e criticar minha família, não encontrei nenhum exemplar da Partisan Review. Lá estavam Collier’s, Hygeia, Look, mas onde estaria a Partisan Review? Certamente ele tinha jogado fora a revista sem nem sequer abrir - pensei, arrogante e inconsolável -, sem ler, sem lhe dar importância, esse meu pai schmuck, idiota, filisteu!”

Ps.: Todas as palavras em negritos estão hiperlinkadas.

4 comentários

  • Sílvia A. Dias : -

    Brilhante!! ;)

  • Paulina Preta : -

    delicioso saber disso tudo assim facinho facinho..
    hehe :*

  • marina : -

    sempre, eu digo sempre, boas dicas culturais !!

  • Hugo Morais : -

    Cada vez que ouço falar em novos estilos musicais tenho mais saudade di passado que rock era rock e pronto. Ô saco. Estávamos no APR tentando decifrar o que era o som do Quarto das Cinzas…sei lá que porra é aquilo, só sei que é ruim. Quanto aos filmes de Guy Ritchie são muito bons, deu vontade de ver de novo.

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