Blogosfera em chamas
Três fatos ocorridos nessas duas semanas são sintomáticos sobre o rumo que a comunicação tomou nos últimos dez anos. Ratificam a importância das novas ferramentas de divulgação e informação, sem, no entanto, preencher a lacuna das respostas que todos esperam acerca do futuro dos veículos tradicionais de mídia. Há de se concordar que nem é esse o objetivo. Simplesmente há mudanças em curso e isso basta.
Cuba, França e Tibet estão unidos pelo fio de liberdade do território livre, a zona autônoma da web. Bytes para denunciar mordaça, blogs para alertar sobre censura. Jornais, TVs e rádios a reboque do fato que não comporta argumentos: a revolução chegou a bordo da internet.
Na ilha de Fidel ou Raul, tanto faz, a blogueira Yoani Sanchéz (www.desde cuba.com/generaciony) está impossibilitada de postar notícias da sua rotina de cubana jovem e insatisfeita com os velhotes de Sierra Maestra. Cuba, que possui apenas um provedor, o estatal, e um único ponto de acesso livre (os demais são controlados pelo governo) onde a hora de uso pode chegar a cinco dólares, vinha sendo descortinada até então pelas palavras irônicas - nem sequer subversivas - de Yoani.
Sobre o incentivo que (pasmem!) só agora o Estado cubano anunciou para a compra de eletrodomésticos a todo el pueblo, Yoani foi mordaz: “Nesse ritmo os meus netos conhecerão o GPS quando estiverem na adolescência”. Na nomenklatura fizeram careta e acharam que ela foi longe demais. Resultado: censura. O blog que é hospedado em um servidor alemão, já não pode ser acessado dentro da ilha. Aos que tentam, a mensagem é cômica, mesmo quando trágica: Erro no download.
Do outro lado do mundo, no Tibet, quando a China, coincidentemente comunista, expulsou de Lhasa os jornalistas e limitou a cobertura e as imagens à TV estatal, celulares waps e smartphones furaram o bloqueio com imagens do conflito entre monges e tanques, que matou mais de cem pessoas até agora, muito embora o site do governo chinês só admita dez. Os herdeiros de Mao, pagando o pato da própria tecnologia que pirateiam, ainda não sabem o que fazer com os blogs que divulgaram as imagens recebidas via celular.
Para os que entendem os fatos como mera coincidência ou nada tão importante, é da França que chega a notícia que atesta o peso que os blogs tomam a partir do momento que deixam de ser apenas um repassador de releases do governo, para questionar a ordem vigente. O primeiro-ministro Sarkozy, derrotado fragorosamente nas últimas eleições municipais, estarreceu-se com a assertiva do seu conselho político: blogs de toda a França foram elementos primordiais no protesto, que culminou com a derrota.
O que fez o modernoso conservador? Contratou o jovem Nicolas Princen, 24 anos, blogueiro, para prestar consultoria de imagem na internet. Nicolas vai tentar explicar aos dinossauros que a blogosfera unida pode dar muito trabalho para ser vencida. E que há maneiras menos truculentas de lidar com quem pode, a partir de casa, mobilizar milhares de pessoas em protestos, campanhas e votos em massa. É provável que não consiga, mas não deixa de ser um grande passo para a consolidação da ferramenta como oficial, e não oficiosa, no trabalho de mobilizar pessoas e furar bloqueios.
Nos EUA, alguns blogs políticos (http://www.instapundit.com/ ou http://www.dailykos.com/) foram alçados a condição de grande mídia pelo poder de ataque e empatia que possuem junto aos usuários. Não é raro uma denúncia política surgir em blogs e só depois ganhar apuração mais detalhada em grandes jornais. Alguma coisa está fora da ordem e é assim que vai ser agora.
Já no Brasil, como de costume, ou a coisa tende para o completo desvairio de interesses velados e circo armado de uma falsa guerra ideológica (vide Reinaldo Azevedo e Diogo Mainardi x Paulo Henrique Amorim e Luis Nassif), ou para o exercício descarado do “chapa-branquismo”. O meio termo é coisa rara, mas é bom acreditar que a natureza livre da blogosfera nutra em cada um dos que dela fazem parte, um sentimento universal de desapego à arbitrariedade e apoio a todo e qualquer governo. Pois uma coisa é certa, quando a rede incomodar de fato, vai ser a primeira coisa que tentarão bloquear. Estejamos de teclados e mouses a postos.
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Excelente artigo do Ethan Zuckerman sobre ativismo digital. Mostra como as tecnologias sociais/web 2.0 podem e estão sendo usadas como uma alternativa à midia convencional.
http://www.ethanzuckerman.com/blog/2008/03/08/the-cute-cat-theory-talk-at-etech/
Rodrigo,
Remek, como se diz aqui nas terras magiares (= esplêndido).
Parabéns mais uma vez pela clareza, precisão e limpeza de texto.
Um prazer lê-lo daqui de longe.
Abraço.