O Cochicho das Águas
No fim de semana, presenteei-me com um banho de sertão - onde a chuva alegra o espírito de toda uma gente! Margeando a pista, o verde da jurema que nunca esteve tão verde. Em Angicos, João viu pela primeira vez que os açudes também sangram. Sangram tudo, enquanto as pessoas bebem da sua esperança e esbanjam alegria. A água abre caminhos, encharcando a terra… lavando corpos e almas.
No Açu, tanta água que dá medo, mesmo para os maravilhados como eu. Água barrenta, uma mistura de tantas águas e sonhos. Tucunaré frito. Feijão verde. Paçoca. No rumo de São Rafael, névoa sobre o asfalto. Perco-me numa neblina de pensamentos e leveza. Ainda não é Jucurutu, quando montanhas e serras emolduram-me. Já não sou mais eu. Não sou mais nada. Baixo o vidro pra respirar… não, pra me entregar! Sou tudo aquilo!
Paro sobre o Piranhas. A correnteza forma caldeirões na água. Redemoinhos sob os meus pés levam embora minha razão. Chego a Caicó. Carne de sol. Lingüiça do sertão. Costela de carneiro. Arroz de leite. Capelas e muitas igrejas. Êxtase puro. Peço trégua pra sonhar. Deito-me com o cochicho da chuva no pé do ouvido.
Acordo com o som das vozes. Com o falar alto do caicoense. Seguimos no destino de Cruzeta. Quebramos à esquerda numa estrada de pedras, barro, riachos e mata-burros. Na Fazenda Margarida, encontramos um lindo pedaço de terra e de estórias. Quebramos o jejum com o que se quebra dieta: cuscuz, queijo de manteiga e bolo de banana.
Visitamos mais sangrias, com a lama nos pés e o encantamento no resto. Na panela, uma curimatã e suas ovas. Não cabiam palavras no Açude da Perninha. Emudecemos. Os peixes eram muitos e do contra. Nadavam contra e saltavam, fazendo saltar os olhos do bicho gente. Inundo-me. Fluido, sou mais água do que pessoa. Transbordo meninice.
Galinha caipira. Sono na estrada. Já é tarde de domingo, mas não é triste. No pé de várias serras, o Gargalheiras nos apresenta a sua imponência. Faz frio no alto. Café quente e rapadura. Promessas de volta. Vontade de não deixar. No caminho das águas, acaba-se descobrindo misteriosas estradas dentro da gente.
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Texto belissimo….Com a mais pura sutileza de palavras…
Conheci vc pessoalmente e para meu espanto, vc não é o que escreve… É apenas um esnobe … Pena deveria ser tão bom qto escreve… Porém é um grosso….
Adorei seu texto. Sou caicoense e viajei nele pelo meu querido seridó.
Como é bom cultivar o dom da poesia, habilidade gnosio-filosófica e auto-empatia para viver a gosto a viad e irradiar a compreensão exprimida da leitura na biblioteca da “A Vida como ela é”.
Dom Rilder, fim de semana estive lá na Barragem Armando Ribeiro G, a sangria é uma beleza que desde 1986, quando cheguei por estas latitudes, não perco uma.
Bela reportagem, continue auscultando as páginas dessa basta biblioteca “A Vida Como ela é”.
Vidal