um pontofinal
– Eu sei o que estão pensando ou o que vão pensar, que não agüentei a pressão, que não fui capaz o suficiente de andar com minhas próprias pernas, e que eu sempre precisei de alguém me cobrindo com asas protetoras e quando me vi sozinho acabei trocando os pés pelas mãos, e que muita coisa, eu sei que estão pensando estas coisas, estas muitas coisas, o que posso fazer se as pessoas estão sempre pensando, concatenando, tentando adivinhar o que realmente aconteceu quando nem mesmo eu, que foi com quem realmente aconteceu, sei exatamente o que realmente aconteceu?, e me vejo assim, meio perdido, barco à deriva, sabe?, viajando a esmo, pensando no que estão pensando de mim, que fui apunhalado injustamente e justamente por quem todos avisaram que me apunhalaria, e agora sou este ser que ignorou a obviedade das coisas e tentou apostar numa porra de um sexto sentido inexistente, sexto sentido este que não serviu para nada além de transformar as óbvias punhaladas em acontecimentos surpreendentes, porque eu esperava no início ser traído como fui, mas fui relaxando, vendo que a punhalada não vinha, me sentindo cada vez mais em terreno seguro, quando era exatamente isto que queriam, que me sentisse seguro, baixasse a guarda, me descobrisse de cuidados, para que a punhalada pudesse doer, entende?, porque não teria graça dar uma punhalada pela frente, como cavaleiro corajoso que enfrenta os inimigos sem temer o próprio destino, não, não teria graça, tinha que ser pelas costas, de supetão, porque o ser humano busca o prazer em coisas mórbidas, em punhaladas pelas costas planejadas com requintes inigualáveis de crueldade que jamais foram imaginados nem pelos roteiristas das pseudoverídicas histórias policiais do Ratinho, ou do Linha Direta, ou do Cidade Alerta, ou daquele que fez muito sucesso e nem existe mais, mas que ficou gravado na memória de todo mundo porque foi o precursor desse tipo de “programa jornalístico”, que apela pra uma dramaticidade indescritível dos fatos reais, transformando crimes de subúrbio em enredos de novela mexicana, como fizeram certo dia com o rapaz que matou a própria mãe e depois estuprou o cadáver, não a mãe, porque não era mais a mãe dele, e sim apenas um corpo, e ele justificou assim, tendo uma música de violinos em dó maior ao fundo, bem grave, transformando toda aquela barbárie em mais uma cena de Maria do Bairro, ou Topázio, ou qualquer outro dramalhão mexicano que, inexplicavelmente, recebe o nome de dramalhão mas é apenas um drama pequeno, um draminha, que se amplifica propositadamente para que pareça grande, mas que nunca vai realmente deixar de ser pequeno, mesmo recebendo o nome de dramalhão, mesmo tendo litros e mais litros de lágrimas derramadas, mesmo narrando casos que, se fossem reais, seriam grandes dramas, mas que são encarnados por atores tão ruins, tão inexpressivos, que acabam se tornando um pequeno drama, e o engraçado é que sem perceber a gente faz exatamente isso em nossas vidas, porque não existem grandes dramas na vida real, só existem pequenos, pequeninos eu diria, como o fato da minha mãe gostar mais do meu irmão do que de mim, ou do meu cachorro ter morrido por causa de uma doença degenerativa nos nervos, ou de eu ter sido reprovado no exame de volante por duas vezes, tudo drama pequeno, sempre parecem pequenos pra quem não os viveu, e sempre tornam quem os viveu, aos olhos dos outros, um fútil, um maricas, um suburbano que teima em transformar a própria vida num capítulo de Maria do Bairro, ou Topázio, ou qualquer outro dramalhão que, inexplicavelmente, recebe o nome de dramalhão mas é apenas um drama pequeno, como a traição que vivi, que também serve de exemplo, excelente exemplo eu diria, porque sei que cedo ou tarde vou acordar deste pesadelo que se transforma a realidade nos momentos que sucedem um grande baque, e vou ver, depois de passados estes momentos, como minha dor é medíocre, e como eu tendo sempre a amplificar as minhas tragédias, e como eu sempre faço isso para chamar a atenção, porque sou carente, porque acho que minha mãe não gosta de mim, porque não estou preparado para grandes baques, mesmo vendo depois que não foram grandes baques, foram mínimos, e eu sei que vou ver isto, e sei que vou rir desta minha necessidade de sofrer em demasia e me transformar em Helena de Machado de Assis, ou em Peri de José de Alencar, ou, só pra ser mais contemporâneo, em algum personagem de Fernanda Young, que sofre e sofre e sofre e jamais se encontra, e o livro chega ao fim e a gente acaba sem saber se a pessoa encontrou um fim, como se o livro fosse apenas um flash rápido sobre alguns dias na vida daquele personagem, para que a gente tenha noção do que acontece quando se pega uma história pela metade e se completa as lacunas para que ela soe mais plausível e se deturpa (sem perceber) a história original e se pensa assim caralho vou mandar a pontuação às favas porque não preciso de vírgulas dois pontos ou travessões ou quem sabe interrogações e pontosfinais assim mesmo sem hífen porque hífen é sim pontuação e não quero pontuações para que compreendam o turbilhão de coisas que estou sentindo mesmo eu sabendo que não vão compreender que vão deturpar que vão ficar se perguntando o que realmente aconteceu comigo e com quem me traiu naqueles instantes em que ocorreu a traição em que meus olhos se arregalaram e não acreditaram no que estava acontecendo enquanto meu coração parecia pegar fogo e as extremidades do meu corpo estavam geladas todas elas as pontas dos dedos com suas unhas carcomidas suas cutículas malfeitas seus bifes inflamados e os pêlos dos pés que recobrem meus tarsos e metatarsos que às vezes se prendem nas dobras internas dos tênis se eu estiver sem meias e se arrancam dolorosamente e a cabeça do meu cacete que mesmo fria quase congelada alcançando temperaturas andinas latejava e parecia se umedecer e parecia pronta pra jorrar uma golfada de gala bem leitosa parecia que ia explodir de tantos latejos e eu pensando que não fazia sentido estar excitado justo naquele momento tão crucial justo ali na hora em que minha vida sem exageros desabava e tudo foi ficando muito gelado meu cérebro pedindo insistindo implorando por uma vírgula que mudasse o sentido daquela frase que eu ouvia porque vírgulas mudam sentidos todos sabem disso eu aprendi isto na oitava série por isso meu coração pedia uma vírgula só uma virgulazinha naquela frase ou um ponto um pomposo pontofinal bem redondinho pretinho ínfimo um derradeiro pontofinal daqueles que parecem um cu um cuzinho bem apertado só um ponto para que toda a realidade se alterasse e eu pudesse rever as coisas de uma forma mais confortável às minhas retinas mas de repente não so as pontuaçoes mas tambem os acentos foram sumindo todos sumiram o agudo torrido o circunflexo concavo a crase que e um agudo as avessas o trema quase sempre inexequivel o til querido til tao lido tao lindo mas todos sumiram tornando as coisas cada vez mais dificeis de serem compreendidas e de serem escrevidas ah que se foda a gramatica quero escrever escrevidas e quem se importa se cometi um erro de portugues ninguem se importou quando fui apunhalado agora nao irao se importar com um erro crasso de portugues porque eu ja nao conseguia entender porra nenhuma do que estava acontecendo estando imerso no meu infinito desejo de pedir so uma virgula para mudar tudo aquilo e ele continuou ele meu inimigo nao ele um homem ele poderia ser homem ou mulher ou ambos ou nenhum que nao mudaria o que me fez nao mudaria a forma como diluiu completamente a minha realidade e fez com que ate meus textos perdessem o sentido veja so ate meus textos exatamente aquilo que mais valorizo em minha podre cabecinha de yuppie cheiracoca cafajeste logo meus textos foram atingidos fazendo tudo perder o nexo fazendo com que tudo se transformasse em algo assim ininteligivel sem pontuaçoes e sem acentos mas eu me recupero sei que me recupero sempre me recupero aos poucos vou ter de novo as virgulas, deliciosas virgulas, os travessoes – como amo travessoes – e quem sabe ate mesmo um par de aspas possam “reencarnar” no meu texto, e vou recuperar os acentos tambem, os agudos tórridos, os circunflexos côncavos, as crases que são agudos às avessas, o til, tão lido, tão lindo til, e os tremas quase sempre inexeqüíveis, e vou rir disso tudo, desse conto idiota que eu escrevi e que no fim das contas não conta nada, porra nenhuma!, mas diz muito, porque se você tiver um pouquinho de feeling vai tentar se colocar no meu lugar, mesmo sem saber o que realmente aconteceu comigo, e não vai ficar tentando completar lacunas, tentando adivinhar o que aconteceu para poder julgar se tenho razão ou não, ou se vale ou não a pena me apoiar, e eu, colega, eu vou torcer para que jamais aconteça o mesmo com você, porque sei que você não resistiria da maneira como eu sei que vou resistir, e terminando assim bem piegas, eu vou sobreviver, mesmo que não possa contar com seu apoio, já que, infelizmente, disso sei há tempos, as pessoas não conseguem apoiar causas que não entendem, é uma pena, mas infelizmente é assim, só que não me importo!, porque depois de tudo só uma coisa continuará faltando, me afetando com sua ausência, uma pequena coisa que poderia mudar o sentido de tudo, aquele cu preto e redondo e ínfimo que é o ponto-final, pois minha história começa agora, depois dessa traição, depois das lágrimas, depois de onde todos julgavam que era o fim, o meu fim, mas é bom que você saiba que a minha história não terá pontos-finais,
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Cara, você pegou pesado! seu texto é forte, tirando os palavrões e as expressões chulas, o resto é muito bom!. Não sei o que realmente aconteceu com esse “eu” se era você ou um personagem, mas gostei do desabafo. Nota dez!!! tenha um ótimo final de semana.
Show de bola! Parabéns!
novelas mexicanas são muito engraçadas,
Oi patrício, você é a cara do Chris Rock. Beijos!
Cara, uma verdadeira erupção verborrágica, jorrando letras, pontos, vírgulas, acentos e sentimentos literalmente pelos ares. Quase uma convulsão. Ufa…
Agora a menina surtou de vez…. Coisa de viadinho!!!!!!!!!!!!
Isso tá parecendo frustação de menininho que não consegue fazer o que quer… Se eel pisar em um carocinho de uva ele cai… Ô coisa de bicha.. Tanta gente com garra lutandoo pela vida e um viado desse escreve com crise existencial.. Falta de ………….
Amigo, a galera aqui pega pesado, não? A Ana Reis falou bem.
“tirando os palavrões e as expressões chulas”. Já disse isso. O cara domina as palavras, falta catalisar algo de interessante.
Acho que vc viaja muito, cara. É o tempo todo querendo afirmar que é o cara da pajelança. AlôÔô…Vida real cara! Regras, ordenamento, entende? É como se deixasse enveredar essas coisas no seu sangue. Sai dessa homem, larga disso. Daqui a pouco vai dar valor a reciclagens, cortinas de búzios e conchas do mar, se encher de penduricalhos pelo corpo e cultuar o hard! kkk Deixa isso pra trás homem de Deus! Já tá mais que na hora, não?!
“Às vezes precisamos de um mapa do passado. Ele nos ajuda a compreender o presente e a planejar o futuro”. Perdas e danos - Josephine Hart.
Abraço.
Imaginem se esse viadinho tivesse de acordar às 3 horas da madrugada para vender as tapiocas que sua mão faz para ganhar uns trocados e comprar comida para os filhos e, depois de voltar para casa lá pelas 6 da manhã, ainda ter de ir para a escola estudar para conseguir entrar em uma faculdade pública para ser gente na vida. Deixa de frescura e vai tomar jeito de homem seu viado!!!!!!!!!!!
Acho que esse viado não encontrou nenhum espanhol que quisesse comer o cú dele pór lá e ela ficou frustrada. \Deixa de viadagem e vai batalhar pela vida seu fresco, viado, bicha lisa…
Esse gustavo é viado também……..
Belo texto.
E aliás… Não sou só eu que acho.
Todo mundo que te lê, reconhece isso.
(As vezes comentamos sua coluna aqui pelo trabalho… E olhe que jornalista é um bicho-criado-para-ser-CRÍTICO.)
Boa sorte e jamais se abata!

Isso aqui é um forum cultural ou uma feira de baixarias??? Êita, danousse! Queria só ver esse povo pegando num talher para comer, como será, hein? É nêguinho atirando pra todo lado, principalmente pra trás kkk. Bem, como eu só atiro para frente, logo sou espda! êita povim descontrolado sô. Calma pessoá, a vida é bela sim! KKKKKKKKK
Abraço, Patrício.
Dimas/Tiro certo, sinceramente, “cara(s)” acho que suas agressões mostram o quanto vocês são “rapazes” reprimidos, ou tem algum sentimento a mais pelo escritor, será que não foram rejeitado. se ele é ou não viado, não importa, o que vale é o conteúdo do texto, isso sim pode ser discutido numa página como essa. pergunta que não quer calar: qual das opções acima acontece(u), foi?! muita agressão, agressão dessa maneira sempre tem sentimento envolvido diz ai pra gente qual foi!.
“rapazes” reprimidos \ o que vale é o conteúdo do texto isso sim pode ser discutido numa página como essa \ foi?! muita agressão, agressão dessa maneira sempre tem sentimento envolvido diz ai pra gente qual foi!”. Realmente é de uma agressividade fora no normal. “Problemas, meu caro”.
Fiquei bege. kkk
“Agressão espontânea”. Tem que ver o que é isso, aí.Sentimento? Ciúme…esse é o meu palpite.
Sobre o texto, gostei, tirando as palavras chulas, é claro.
Estou passada, pense! kkkkkkkkk Onde entro sempre tem alguma coisa relacionada a isso, é piada gls, é isso é aquilo. Até aqui também?
Assim, não entro mais aqui! Educação pessoal, não falo em preconceito, pois isso todo mundo tem e sempre vai ter, falo de “respeito ao próximo”.
Caso vá ler esse comentário, vale a dica: tendo como pressuposto, por exemplo o excerto “ate meus textos exatamente aquilo que mais valorizo em minha podre cabecinha de yuppie cheiracoca cafajeste logo meus textos foram atingidos fazendo tudo perder o nexo fazendo com que tudo se transformasse em algo assim ininteligivel sem pontuaçoes e sem acentos mas eu me recupero sei que me recupero sempre me recupero aos poucos vou ter de novo as virgulas, deliciosas virgulas, os travessoes – como amo travessoes – e quem sabe ate mesmo um par de aspas possam “reencarnar” no meu texto, e vou recuperar os acentos tambem” -, creio que isso você poderia fazer sem precisar explicar, amigo. Seria mais interessante deixar o leitor descobrir (tudo bem, é um pouco óbvio, mas mesmo assim não tira o mérito de quem consegue) naturalmente isso que você está querendo dizer. Imagine um grande autor, num suspense, explicando os recursos usados no próprio texto, para o fim de demonstrar o que pretende. Que trabalho nós, leitores, temos? Dificulte um pouco as coisas para nós, pois, caso contrário, não terá graça ler seus textos - tudo que é fácil cansa rápido.
Abraços
Patrício,
Afinal, o escritor que não incomoda é morno demais pro meu gosto.
Já me chamou a atenção em Lítio sua capacidade de ‘Saramaguear’. Gosto muito desse fluxo taquipsíquico que você consegue, e imagino que escreveu literalmente num fólego só. E gostei do trocadilho da ausência de ponto final com a ausência do fim. Continue escrevendo, muitos se incomodam com o que você escrevem, mas aportam em sua coluna sempre que aparece algo novo
Bjs
Calma Patrício.O homem depende de seu pensamento.Você é bom nisso.Tranquilize-se.
Quanto aos machões de plantão,gostaria de saber o motivo de tanto preconceito,o qual os leva a chamarem de viado o homem que faz algo do qual discordam. Tem muitos “viados”bem mais inteligentes que voces.
meu nego, vamos tomar uma cerveja…isso tudo é saudade de mim!
=*