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Patrício Júnior

Patrício Júnior - pittjr7@gmail.com

Crônico

Patrício Jr. nasceu em Natal em 1979. Escritor, jornalista e publicitário, é um dos fundadores do Jovens Escribas, selo pelo qual publicou seu romance de estréia, Lítio.

Quase trinta

segunda-feira, 28/janeiro/2008

A vida fica chata aos quase 30. Chatíssima. Só não digo que fica insuportável porque não quero parecer fatalista. Se ainda tivesse 20 e poucos, tudo bem, não teria o menor pudor em fazer drama. Mas tenho quase 30. Nessa idade, já perdemos o direito de não ser perfeitos.

Aliás, “nessa idade” é uma expressão tipicamente quase-trintona. Os mais velhos trabalham no pretérito (“no meu tempo era…”), os mais novos no futuro (“quando eu for…”). Nós, dessa tribo perdida no vácuo das desatenções, trabalhamos no presente. E como trabalhamos! Dez horas por dia, seis dias por semana e considere-se um bon vivant. Quem tem quase 30 já se acostumou à semana laboral de quinze dias. E no final do mês, vem aquilo que você já conhece muito bem: guardar dinheiro pra comprar um apartamento ou pagar o cartão de crédito? Nessa hora, você se pergunta como conseguia ser tão feliz aos 15, com uma mesada ridícula e a certeza de que ela duraria o mês todo. Será que cerveja e motel eram mais baratos naquele tempo?

Falei sobre um tal vácuo das desatenções. Pois é, vivemos nele, todos nós imersos no vácuo das desatenções. Responda, amigo que está quase lá, qual foi a última vez que você viu um programa social do governo voltado a sua faixa etária? Qual a última vez que você ouviu uma música pop falando sobre sua realidade? Essa é boa, essa é boa: qual a última vez que sua mãe sugeriu a você procurar um psicólogo? Na certa, você ainda tinha 17 anos, fumava escondido, ouvia Nirvana o dia todo e achava que jamais usaria uma calça social. Agora, nessa idade, ninguém mais se preocupa com você. E não pense que é porque finalmente confiam na sua figura ilibada. Tenho amigos com quase 30 que ainda fumam escondidos, ouvem Nirvana e acham que jamais usarão uma calça social. Mas agora são ignorados. Casos perdidos. As pessoas simplesmente desistiram deles. Estão mais preocupadas com os adolescentes problemáticos e os idosos da melhor idade.

O mais difícil de estar prestes a cruzar o limiar da terceira década é saber que não podemos mais usar a idade como desculpa. Esse infalível argumento foi utilizado por mim exaustivamente. Você vai acampar no Natal em vez de ficar com sua família? Qualé, pai, eu só tenho 25, tenho que aproveitar a vida! Você vai vender o computador pra comprar uma guitarra? Qualé, mãe, só tenho 26, tenho que aproveitar a vida! Você vai pedir demissão pra excursionar pela América Latina com três francesas lésbicas? Qualé… Hum, bem, não cola mais. Aliás, fica ridículo alguém de quase 30 dizendo “Qualé, pai”.

Poderia discorrer sobre uma série de outros infortúnios. Mas vou falar apenas de mais um: o sexo. Não consigo controlar a vontade de rir – e não é de felicidade. Com quase 30, a gente broxa pela primeira vez. Não há mais a pressa dos 17, nem a gana dos 20 e poucos. Não, amigo, temos quase 30. Agora, não há mais como ignorar o clitóris, ou pular as preliminares, ou gozar sozinho, ou virar, fechar os olhos e dormir. Com tanta pressão, claro, não tem tesão que resista. Bem-vindo ao mundo real.

A gente se habituou a estar em transformação, a ser outro a cada instante. E de repente, a estabilidade. Por mais que Martha Medeiros e Carlos Heitor Cony preguem que somos diferentes a cada segundo que passa, pouquíssimo em você mudará daqui pra frente. Talvez uma opinião aqui, outra ali; porém nada será mais tão radical. Este que é você ultrapassará seu trigésimo ano e será o mesmo daqui por diante. Para sempre. Como a maldição do galo que canta três vezes, lembra? Se você estiver envesgando os olhos bem na hora do seu aniversário, puff!, vai ficar vesgo pro resto da vida.

O conselho é: sinta bastante saudade de quem você foi. Muita mesmo. Chore de vez em quando lembrando das bobeiras de moleque, das inconseqüências da juventude, das burradas de quando aprendia a ser adulto. Não esquecer disso tudo vai fazer de você alguém melhor. Mais vivo, até. E só pra deixar algo bem claro: não eram três francesas lésbicas. Eram quatro.

29 comentários

  • Quase trinta também : -

    Show de bola.

  • Rayana : -

    Massa, man! Parabéns, ótimo texto!
    Tenho 20 anos, então ainda tô na fase do ‘quando eu for’, quando eu crescer…
    Mas já sinto saudade de quem eu fui, lembro das bobeiras de moleca, das inconseqüências da juventude.
    Sou meio precoce, né? Hehehe
    E quanto ao argumento da idade como desculpa, já têm um monte de situações que essa desculpa não cola mais.
    E eu confesso: Morro de medo de ficar velha!

  • Sílvio : -

    Meus Deus!
    Ser o mesmo daí por diante é uma condenação!

  • Help : -

    Hoje estava falando com uma amiga sobre a época do forró classe A que tinha no américa,o carnaval na apurn(em pirangi),da boate Flash,das músicas antigad do cavalo de pau,quando o carnatal era na praça civica… ai ai ai,então leio essa coluna e vejo que só quem esta beirando os trinta ou tem é que aproveitou tudo isso.
    Mas nossa!! dá saudades mesmo…

    Poxa patricio…
    fiquei com depre Balsaquiana!!!

  • Lu. : -

    Vamos usar um eufemismo, né?
    Não é “quase trinta”… é Vinte e muitos!
    Hahahaha.
    Bjo.

  • David : -

    Gostei muito do texto, apesar de não ter quase trinta e a minha expressão deveria ser “quando eu for” me considero mais parecido com quem tem quase trinta, pois só penso em trabalho, não vejo a hora de comprar o meu apartamento e enfim trocar o carro. A única coisa que faço que não condiz com a idade a a respeito de festas pois, até sinto vontade de ir mais por ter vinte e poucos meus pais ainda me regram muito.
    Todavia só resta te parabenizar pelo belo texto acabou de conseguir um novo fã.
    Abraço

  • Gabi du Gato : -

    eu lembro quando o MADA era na rua chile…

    =~

    tenho 26

    ¬¬

  • ZEN : -

    Putz!!Também tô quase lá, tenho 28.Ei Gabi do Gato, rua chile, massa mesmo, lembrei da época do B52, Blackout, Downtown…

    Vamo que vamo.

  • Chico Rei : -

    É tudo verdade! Mas a história não termina aí. Depois virão os quarenta, os cinquenta, com os seus respectivos ônus e bônus e finalmente a tão temida terceira idade, quando, aí sim, as possibilidade se tornam ainda mais limitadas pela realidade impiedosa de uma sociedade que só valoriza o novo. E quanto mais alinhado estiver o indivíduo com essa visão, mais sofrerá os efeitos da passagem inexorável do tempo.
    Portanto, aos trinta ainda é cedo para acharmos a vida chata,da mesma forma que aos 40, 50 e assim sucessivamente. Se o peso das responsabilidades recai sobre as nossas costas, se o apartamento próprio se torna uma necessidade imperiosa, se começamos a nos achar velhos demais para algumas coisas e pelo menos de vez em quando temos que usar uma calça social, tudo isto faz parte do jogo e também tem as suas compensações, pois é somente a partir daí que podemos ter a pretensão de sermos levados a sério.
    Só não vejo razão para chorar ao me lembrar das minhas bobeiras e micos da adolescência, que por sinal foram muitas e adoraria ter podido aprender o que elas me ensinaram sem cometê-las.
    E tem mais: naquele tempo, cerveja e motel eram mais baratos, sim.

  • Gabi du Gato : -

    “E tem mais: naquele tempo, cerveja e motel eram mais baratos, sim.” [2]

    XD

  • Menino do Rio das Quintas : -

    Olá velhinhos!!!!!!!

    Ai meu Deus, já estou com 32.
    Mas só para lembrar o valor do motel,era mais barato mesmo.só que hj são 6 horas esticadasssssssss.

  • Tenho28 : -

    Tbm nasci em 79 e me tranqüiliza saber que essa estabilidade, traz uma crise existencial para outros da minha idade… Quase trinta, me deixa num quase nada. Espero que daqui pra frente, eu não fique tão entediada, como temo…

  • Kaká : -

    Quase trinta anos e não sabe escrever direito. Dizer “já perdemos o direito de não SER perfeitos” foi osso.

  • Patrício Júnior : -

    Caro Kaká, quando li seu comentário também me bateu a dúvida. Fui até a gramática mais próxima para tirá-la. Esse trecho que você citou envolve o uso do Infinitivo Pessoal, uma forma nominal dos verbos geralmente utilizada de maneira errada por nós. Mas qual não foi minha surpresa quando vi que eu usei corretamente! Veja o que diz a gramática: “A flexão do verbo no infinitivo pessoal é desnecessária quando vem posto em oração subordinada e o seu sujeito é o mesmo que o sujeito ou objeto da oração principal”. Obrigado por me alertar de um possível erro. Mas da próxima vez, cheque se você está mesmo correto. É mais elegante.

  • www.ovisnigra.org : -

    Caro escriba: ainda que admire a elegância com que replicou comentário de tamanha impertinência e ainda que reconheça o substrato gramatical em sua contestação, permita-me, respeitosamente, expressar opinião divergente.
    Conquanto a oração transcrita pelo comentarista seja, como você disse, claro caso de oração subordinada reduzida de infinitivo - o que, como você bem pontuou, envolve uso do Infinitivo Pessoal -, não acredito inclua-se este exemplo no rol das hipóteses de flexão facultativa (ou desnecessária) do verbo.
    Me parece, apesar de tratar-se o mesmo sujeito na oração principal e em sua subordinada, haveria aí a necessidade de flexão do sufixo verbal com o fim de definir o sujeito referenciado, por não vir este expresso no período. Muito embora não seja este caso de flexão obrigatória do infinitivo, reza a cartilha gramatical ser de bom alvitre a aposição desinencial na oração subordinada para se evitar a compreensão ambígua.
    O exposto não obstando, aproveito o ensejo e confesso o apreço não só por sua fluída escrita: quisera eu, também nos umbrais do trintênio, postar-me com tamanho garbo.

  • Patrício Júnior : -

    Companheiro de letras, caro Ovelha Negra, antes de qualquer coisa parabéns pelo site. Gostei muito dos escritos que encontrei por lá. Agora, vamos à gramática: a regra que você citou está correta, realmente é necessário flexionar o Infinitivo Pessoal para evitar ambigüidades. No entanto, na frase “já perdemos o direito de não ser perfeitos” não vejo ambigüidade alguma. O sujeito está bem claro na oração principal e não resta dúvidas de que continuo falando dele na oração subordinada. Por isso, sigo julgando desnecessária a flexão. No mais, obrigado pela admiração. A recíproca é verdadeira.

  • FFF : -

    Agora vai ficar todo mundo com medo de comentar, depois desses 3 comentários acima, no estilo “pisando em ovos”, com erudição saindo pelas bordas, pois o erro será apedrejado em praça pública :)

    Parabéns pelo texto.

  • Rayana : -

    Eu juro que eu li esse comentário de Ovelha Negra umas 3 vezes, até desliguei o som pra acompanhar tanta inteligencia hehehehe
    Quanta erudição, meu deus!
    Esse povo inteligente me mata de orgulho! =D

    E FFF, a gente devia começar a comentar com um monte de coisa escrita errada, aí pessoas como Ovelha, com todo seu garbo e elegância na arte da escrita, viriam corrigir a gente.
    hehehe

  • Alberto da silva martins : -

    O ovelha negra deve ser um daqueles velhos eruditos chatos que escrevem esses textos que ninguém entende.

  • FFF : -

    Concordo Rayana. Mas é sério, o comentário e respostas estão muito bem escritos, dignos de nota. Mas que agora eu vou pagar alguém para revisar todos os meus comentários, isso eu vou! Hehehe. Com o alto nível das opiniões, as colunas da digizap deixarão de ser uma arena para troca de tapas, e passarão a fomentar o vocabulário antes paupérrimo do nosso povo potiguar! Me empolguei…

  • Rayana : -

    Hahahahaha
    É, a coisa agora ficou séria.
    Sempre que for comenatar eu vou dá aquela velha olhada no dicionário.
    Mas, como vou escrever tudo certinho, vou passar a corrigir os outros, inclusive o colunista, se preciso for. Hahahaha
    Brincadeira, viu, Patricio?

  • Ovelha Negra : -

    No entanto, deixo claro que a intenção não foi propriamente CORRIGIR o colunista: o escriba possui talento transbordante, e não precisa de ninguém a direcionar-lhe a grafia. Ocorre que, na réplica ao (mal-educado) comentário, o beletrista expressou um enfoque morfo-sintático conhecidamente controverso. E, por arregimentar tantos fãs e ser um formador de opiniões, suas considerações - esta inclusive - podem por vezes travestir-se de caráter doutrinário aos que as lêem. Sendo este espaço aberto, tencionei tão-somente, e com todo o respeito, atentar para a existência de julgamento gramatical divergente, sem necessariamente querer retificar o posicionamento do companheiro de letras.

    (No mais, FFF: em absoluto arvorar-me-ei a prepotência de corrigir qualquer comentarista. Acredito verdadeiramente na liberdade de expressão deste espaço e cada um que se manifeste da maneira que melhor lhe convier: cada qual com seus ‘pobrema’. Outrossim, acaso lhe permaneça a idéia de pagar alguém para revisar seus comentários, aviso que desde já me disponibilizo de bom grado a prestar-lhe este serviço mediante a contraprestação de pecúnio absurdamente elevado.

    Rayana: obrigado por suas gentis considerações. A minha (pretensa) erudição é mais produto do seu olhar amável do que propriamente a constatação de um fato real.

    Alberto da silva martins: desculpe se lhe causei transtorno à perfeita compreensão. Tentarei me expressar mais provincianamente da próxima vez.)

  • Max Pereira : -

    Coisas boas de quem tem mais de trinta

    Shows:
    Legião - Vários
    Cazuza - Vários

    Bares:
    Chernobyl
    Vila Negra

    Festival de Artes do Forte dos Reis Magos ( Show de Jards Macalé e Aguillar e Banda Performática)
    Projeto Arte em Outdoor - 80% dos outdoors da cidade foram pintados aa mão por atistas da cidade com poemas de gente daqui.
    Assistir Laranja Mecanica, Blade Runner e outros na tela grande ( nem tão jurássico assim, eram sessões de clássicos no cinema nordeste)
    Fazer parte da meia dúzia que sabia soletrar Baudrillard, Rimbaud e Nietzsche
    Saber que ainda pode rolar muito, muito mais

    Coisas chatas de quem tem mais de trinta

    Joelho
    Coluna
    Grana
    Carro
    Uma estranha sensação de “se acabó lo mejor”
    A cidade virando um nadinha com grife
    Enfim
    Life goes on, anyway

  • Gabriel Galvão : -

    Estou exatamente na metade do caminho, 25. Não acredito (ou melhor, não quero acreditar) que as coisas se estabilizem e você não mude. Até hoje a única coisa constante em mim foi a mudança! Por que que isso mudaria? Isso não mudar é a exceção que confirma a regra! :P

  • fabi : -

    Seria mais bonito questionar o autor, se caberia alí uma ressalva, do que dizer que ele errou. É mais feio corrigir sem elegância, do que errar com humildade.
    Sou defensora da língua portuguesa, mas não apoio constrangimentos públicos.

  • fabi : -

    O texto está ótimo e pertinente a naturalidade do ser. É mais difícil para pessoas que tem medo de envelhecer…
    Olho para as meninas de 20 e penso: caramba, já ive esta barriga retinha, já tive este peito empinado…e a lei da gravidade já me atingiu na idade balzaquiana, kkkkk…muit triste.
    O lado bom é que já não tenho a insegurança da primeira idade, já a substitui por admiração, pela independência financeira, pela garra e pela liberdade total do adulto.
    Realmente, como anteirormente comentado, tudo tem “bônus e ônus”, e eu faria tudo de novo.

  • Vladimir : -

    Já passei dos 30, tô com 34…A pressão por um apto é grande…(quem sabe este ano) O carro, graças a qualquer Deus, já comprei um… Sobra mês e falta grana… Casamento, já fiz isso… e filho tb… Após trabalhar, não sei se vou surfar, jogar bola ou estudar pra concurso..(é isso aí, se preocupar com o futuro ou curtir mais a vida à la tiozão) A vantagem do mundo real é curtir a experiencia adquirida e tocar a vida meu irmão… “Viver é não ter vergonha de ser feliz, que beleza ser um eterno aprendiz, a vida podia ser bem melhor e será, pq a vida é bonita, é bonita, é bonita…”

  • Claudia : -

    Patrício, como você aproveita de sua imaginação isso é bom devo concordar que depois dos trinta, nos preocupamos mais com nossas ações, pois a cada uma, existe você sabe resposta que pode ser contra ou a favor de “nós mesmos”. Confesso que hoje sou mais equilibrada pois do jeito que era não conseguiria com certeza casar. Ainda bem que alguns melhoram depois dos trinta! continue escrevendo pois com certeza é a sua praia.

  • Martina Russo : -

    7j3aip22u0qjtxty

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