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Patrício Júnior

Patrício Júnior - pittjr7@gmail.com

Crônico

Patrício Jr. nasceu em Natal em 1979. Escritor, jornalista e publicitário, publicou seu romance de estréia "Lítio" em 2005. Escreve também no PLOG.

A cova digital da Globo

terça-feira, 26/agosto/2008

A Globo disse que não vai investir em multicanais na TV digital. Que colocar mais canais no ar aumenta custos e não atrai novos anunciantes. Que prefere usar o sinal digital para melhorar a qualidade de imagem. Mas o que parece apenas uma decisão empresarial focada na melhoria do serviço para o telespectador nada mais é do que uma estratégia para manter a influência arrasadora da Globo sobre a mente dos brasileiros. Teoria de Arquivo X? Vamos aos fatos.

As afirmações acima são do diretor de engenharia da emissora carioca, Fernando Bittencourt. Ele debateu o assunto no 5° Fórum Internacional de TV Digital, no painel “Grandes Redes no Ambiente Digital”. Segundo Bittencourt, o número de anunciantes não subirá com o número de canais. O sistema nipo-brasileiro permite que as emissoras tenham até quatro canais com qualidade de imagem normal ou apenas um canal com imagem digital. A Globo prefere imagem de alta definição à programação multicanal. Mas é claro que não é por causa do bem do telespectador.

Explico: nos últimos anos, a Globo vem sofrendo para manter sua audiência estratosférica. Com a chegada da banda larga, do DVD, do celular 3G e agora, da TV digital, o mundo todo sofreu o fenômeno de pulverização da audiência. Ou seja, programações mais fragmentadas e direcionadas a nichos de mercado. Foi esse fenômeno que possibilitou a chamada Era de Ouro da TV americana: séries com enredos intrincados, formatos diferenciados e tramas mais elaboradas que atraem facções do público. Mas facções fiéis, que acompanham as séries, compram produtos licenciados e migram suas audiências a outras mídias relacionadas. (Como o caso dos gibis de “Heroes” disponibilizados para download no site da série. Esses gibis tinham historietas com informações adicionais da trama veiculada na TV. Foram baixados por milhões gratuitamente traduzidos pelos fãs para diversos idiomas e mais tarde lançados como gibis convencionais.) Sucesso de audiência pelo mundo afora é aquele programa que alcança 20 pontos de audiência mesmo sendo uma superprodução. Pra efeito de comparação, uma novela das seis da Globo com 20 pontos de média é um fracasso.

O que a emissora carioca pretende ao rechaçar a multiprogramação é manter sua fatia gorda do bolo. Ou seja, investir somente em uma transmissão, em tese, pode manter a audiência como um cordeirinho diante do canal 11. Na prática, porém, essa realidade já foi testada e reprovada em diversos países do mundo. E aqui no Brasil não será diferente.

Novelas como “Mutantes”, por exemplo, provam isso. Não agrada a gregos e troianos, mas tem um público fiel que não deixa a peteca do Ibope da Record cair. A MTV também é um outro exemplo: um canal fragmentado, com programação dirigida ao público adolescente e uma verdadeira seita de seguidores que mantêm seus níveis de audiência sempre estáveis. Nunca é um arrombo de audiência, mas em compensação tem sempre a sua fatia do bolo garantida.

Os anunciantes, por sua vez, acompanham a fragmentação. Me permitam um exemplo técnico: se existisse um canal que atingisse diretamente mulheres na faixa dos 25 aos 35 anos, público-alvo prioritário dos produtos Dove, por que a Dove investiria milhões numa mídia nada fragmentada na Globo? Esse exemplo se transfere a todos os produtos do mercado. Preste atenção aos comerciais veiculados na MTV. São produtos que jamais freqüentam a programação de grandes emissoras. Mas estão ali, na MTV, pagando o salários dos VJs.

Essa postura de gigante da Rede Globo é um tiro no pé. Na ânsia de manter seu Ibope, a emissora acaba sendo a mesma sempre. Novelas previsíveis, telejornais pálidos, coberturas internacionais exatamente iguais. O aclamado Padrão Globo acaba tornando a grade da emissora uma coisa cinza, uma zona de conforto, um lugar sem grandes novidades. E a geração que está saindo da escola pro mercado de trabalho não quer mais isso.

Boni, ex-diretor de programação da emissora, chegou a afirmar no Maximidia de 2006, em São Paulo, que a interação entre TV e computador era inviável. Para ele, quando um programa de televisão diz pro telespectador acessar a internet para votar numa enquete, por exemplo, na verdade está perdendo audiência, porque aquelas pessoas irão pro computador e se dispersarão da TV. Na teoria, o raciocínio é perfeito. Mas na prática, é um retrocesso. Hoje em dia, muita gente vê TV, navega na internet e ouve música no iPod ao mesmo tempo. Ao investir na audiência de hoje e desprezar a audiência futura, a Globo cava sua própria cova.

Claro, isso é ótimo pra gente. Ter uma TV onipotente não é nada bom para o país. A opinião pública fica à mercê dos caprichos do diretor de jornalismo da emissora. A moda, os costumes, a evolução da sociedade: tudo isso acaba sendo tacitamente ditado pelas telenovelas globais. Os heróis que temos são os atletas erigidos ao posto de deuses pelos editores do Globo Esporte. E assim, o Brasil imerge na ignorância de sempre. A ignorância global.

Que a TV digital e a cabeça-dura dos executivos da Globo nos dêem uma esperança.

8 comentários

  • Clodoaldo Damasceno : -

    Patrício,
    Concordo que a Globo, como qualquer outro canal, deseja se manter no topo da audiência. É isso que gera verba publicitária e é dela que as tvs vivem.
    Acredito também que o fato de a Globo não se interessar em quadruplicar sua programação se deva ao custo que isso representa, pago pelo mesmo tempo de propaganda. Numa visão limitada da coisa, devem calcular que cada 1 real de publicidade ganho teria que ser transformado em 25 centavos para cada programação. Porque, então, não manter uma apenas, menos custosa e trabalhosa?
    Esse pensamento é um erro, por esquecer que não é só a mídia que vem mudando – a internet é um fato incontestável – mas, e principalmente, o público e seus gostos. Será pouco provável que alguém se interesse mais em ver Fausto Silva em alta resolução do que uma diversidade de outras opções na qualidade convencional. As telinhas do YouTube estão ai para provar.
    Será esse erro a capitulação da Globo? Tomara.

  • Marlos Ápyus : -

    Ótimo texto Patrício. Andei sondando um tempo os comentários online de pessoas que aderiram à TV Digital. E a opinião geral era: “Uma imagem de ótima qualidade para assistirmos à mesma porcaria de sempre”. Se for pra ver Zorral Total numa noite de sábado, tanto faz se a TV é digital ou preto e branco. A internet, mais que ninguém, tem provado que o que importa é o conteúdo e a sua utilidade para quem lida com ele. A Globo está apostando apenas na embalagem, ao que tudo indica.

  • Jordana Mamede : -

    Patrício, que bom que não sou só eu que tenho essas teorias, que são até consideradas de conspiração. Como comunicadora, eu quero mais é que outros veículos surjam, outras formas de fazer a mídia apareçam. Para mim, se continuar do jeito que tá por mais tempo, só quem perde é a audiência.

  • chico rei : -

    Se a Globo fosse assim tão ingênua não teria chegado onde chegou, nem manteria a sua hegemonia por tanto tempo. Este discurso da emissora faz parte de uma estratégia que visa tirar o máximo proveito possível da sua condição atual. Ninguém pense que ela não tem planos para a TV Digital, só que ainda desfruta de uma posição muito confortável para se precipitar. Quando a TV por assinatura chegou ao país, foram ditas coisas muito parecidas, assim como na chegada da Internet. A Globo não só seguiu incólume, como explora com muita competência esses dois nichos e ganha dinheiro em todos eles, sem precisar abrir mão do padrão global, seu maior trunfo. Com a TV digital, por mais que desejemos o contrário, não será diferente, pois ela conhece o seu público como ninguém e saberá como mantê-lo no cabresto ainda por muito tempo.

  • Patrício Júnior : -

    Chico Rei, só tem um erro na sua argumentação: a Globo não seguiu incólume à chegada das novas tecnologias. A audi~encia está em queda constante, as concorrente cada vez mais batem os programas globais e a perda de estrelas para outros canais é evidente. Ainda é um império? Sim. Mas nunca pensaram que teriam que brigar por conteúdo e não mais por forma. Essa é minha esperança.

  • chico rei : -

    É verdade Patricio. A Globo teve que passar por uma grande reestruturação para se sobreviver aos novos tempos. E vfez isto com muita competência, enxugando o seu “cast” para reduzir custos, abrindo mão de algumas estrelas de segunda grandeza para outros canais, vendeu subsidiárias pouco lucrativas, alterou a sua grade de programação, focalizando a sua atuação em fatias mais rentáveis do mercado, investiu em formatos como o Big Brother, pelo qual nunca havia se interessado, tudo isto para manter a sua elevada margem de lucro. E manteve. Ela fez direitinho o dever de casa e, gostemos ou não, mesmo sendo bombardeada pela concorrência e padecendo de uma pequena queda de audiência, ainda é A Favorita no horário nobre. Também desejo que isto mude, mas tenho dúvidas se viverei para ver.

  • A TV do futuro | Bitpapo com Sec2o | Sadismos e pitacos sobre a vida digital. : -

    [...] para a afirmação do padrão certo de TV digital, despercebido foi quando um diretor do plim plim disse que vai ficar tudo no mesmo na programação, porém em alta [...]

  • Gabriel : -

    “Claro, isso é ótimo pra gente. Ter uma TV onipotente não é nada bom para o país. A opinião pública fica à mercê dos caprichos do diretor de jornalismo da emissora. A moda, os costumes, a evolução da sociedade” Concordo com bastante coisa que você diz, mas você não acha que dando muitos poderes a rede RECÓPIA.. ou record não estariamos cavando a nossa propria cova, ou como dizem por lá, comprando nosso lugar no ceú? Não podemos deixar levar pelos 318 pastores ou por tocar no manto sagrado, que é isso que a emissora do bispo quere infelizmente eh isso, levar para uma ceita que só visa a lucratividade deles para manter uma emissora onde não há criatividade alguma. nada contra evangelicos, mas como a igreja universal é demais! queria uma resposta sua, se possível!

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