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Pablo Capistrano

Pablo Capistrano - pablocapistrano@yahoo.com.br

Pablo Capistrano é natalense, escritor, autor de livros de poesia, ensaios e do romance Pequenas Catástrofes. Professor de filosofia, mestre em ciências mortas e doutor em linguas ocultas.

Na Cova de Michael

terça-feira, 30/junho/2009

A última aula do semestre é sempre um momento ambíguo. Ao mesmo tempo em que aparece aquela contagiante emoção de quem está na iminência das férias, preserva-se também certa quantidade de saudade que vem do simples fato do tempo passar.
Pois foi na última aula desse semestre que eu tive a notícia da morte do Michael Jackson. Uma aluna interrompeu a aula e me passou um bilhete comunicando: “professor, por favor, avise a turma que Michael Jackson morreu”.

Bem, não há muita novidade nisso.
Morrer não é lá algo inusitado. Mas foi inevitável a tentação de imitar o “moonwalk” (famoso passo do Michael) nos instantes finais daquela aula para descontrair.

Se o Michael tivesse simplesmente morrido, eu juro com toda a força de minha autocrítica que não escreveria uma linha sobre o assunto. O problema é que ele não apenas morreu como acabou protagonizando um dos mais curiosos fenômenos de histeria coletiva dessa primeira década do milênio.

Veja só, amigo velho, duas semanas atrás quem se lembrava do Michael Jackson?
Os vinte e cinco anos do disco Thriller passaram com algumas matérias nos telejornais, um ou outro programa especial de memórias na Globo News, um artigo aqui outro ali em revistas especializadas e um punhado de críticos tentando explicar os meandros do disco e suas mitologias.

Agora, depois da morte de Michael, não se fala de outra coisa. O mundo congelou e nem os conflitos no Irã, nem o avanço da gripe do porco, nem a queda de mais um Airbus conseguiram congestionar o mundo virtual com a força da notícia da morte de Michael.

Subitamente, como se tomada por um avassalador sentimento de culpa, a humanidade ajoelhou-se aos pés de Michael Jackson. Todos agora são fãs, todos agora escutaram seus discos, todos imitaram sua dança quebrada no furacão do break dos anos oitenta, todos sem exceção, entendem a sua genialidade profunda, sua inovação criativa, sua importância fundamental e insubstituível para o mundo da música e da dança.

Morrer é assim pessoal.

A morte nos absolve de todas as culpas e dilui todo julgamento público, por isso Michael agora conseguiu aquilo que todo morto ilustre consegue: a imunidade e a unanimidade avassaladora das salas de necrotério.

Seis meses antes de se entupir de demerol e ter uma parada cardíaca, Michael estava falido, isolado, esquecido, com sua dignidade marcada pelas denúncias de pedofilia, com seu corpo destroçado por uma seqüência pouco saudável de intervenções médicas. Ele parecia um ex-ídolo Pop cuja obra já começava a ser objeto de pesquisas arqueológicas.

O Fato é que entre os anos de 1991 (quando lançou o álbum Dangerous) e 2001 (ano de Invencible seu último disco com canções inéditas), Michael padeceu de um desconcertante ostracismo criativo. Um vazio estético nunca superado. O auge da sua produção musical está, com certeza ligado, em um primeiro momento ao trabalho com os Jacksons Five e com a Motown, e em um segundo momento à parceria com Quincy Jones que o ajudou a produzir seus três melhores discos: Off The Wall (1979), Thriller (1982) e Bad (1987).
Após isso Michael nunca conseguiu, como bem observou o Arthur Dapieve em entrevista recente, superar a si mesmo e sua carreira mergulhou em um buraco artístico só comparável a seu abismo existencial auto destrutivo e psicótico.

Quando morreu, Michael era enxergado com certa desconfiança, como uma espécie de freak da música, um pirado que bem poderia fazer parte do rol de personagens do Asilo Arkham da DC Comics, junto com o Coringa, o Duas Caras, o Pinguin e, é claro, o Batman (curiosamente, também acusado de abusar sexualmente de menores no famoso “caso Robin”).

Bastou a morte… sim, bastou a fria e isonômica morte, que igualha reis e escravos com a mesma lâmina cortante do tempo e da decadência do corpo, para que o velho freak de Neverland, na velocidade do Twitter, virasse uma espécie de santo pós-moderno, como Bob Marley, John Lennon e Che Guevara.

Hoje é dia de dançar sobre a cova de Michael Jackson e começar o longo processo de exumação de seu cadáver artístico, e canonização de sua figura andrógena. Um processo amplo e contínuo que ainda vai durar alguns anos, ou décadas. Um tempo de recomposição de imagens partidas que vai gerar muito lucro, antes que, como tudo nesse mundo, seu legado seja lançado na poeira do tempo para se dissolver definitivamente, como a própria terra que nos gerou, nesse silêncio sem fim do universo. Tal qual a luz de uma estrela que morre.

8 comentários

  • FFF : -

    triste, mas verdade.

  • PED : -

    Uma verdade irrefutável: Após a morte, de repente somos lembrados. Antes dela, apenas somos lembrados se fizermos grandes coisas notáveis, ou ameaçarmos a própria vida constantemente. Qual seria a próxima celebridade decadente que devamos esperar morrer para que seja lembrada, quando poderiamos estar fazendo tal ação enquanto esta está viva?

  • socorro capistrano : -

    Portanto, prefiro viver muito tempo e bem. Embora esquecida, mas viva.

  • Vanessa : -

    Texto excelente. Parabéns.

  • leila : -

    Patético e verdadeiro ele surpreendeu o mundo com sua morte que vai lhe render mais que seus 50 shows.Ironia do destino.

  • A Pedra : -

    Todo mundo meteu o pau no cara, esquecendo que a mídia inventa muito.Michael era um caro bem pacato, e aquelas fantasias loucas dele, eram apenas algumas coisas para ele tentar ser diferente.
    Todos os dias um monte de gente faz plástica no mundo.Quem disse que era proibido o cara fazer plásyica no nariz. se ele quer mudar de cor? e dai? aueles branquelos não faz bronzeamento artificial? qqual é o problema.
    Uma estrela não pode passar por esse planeta e ser apagada.
    Michael era o cara mano!!!
    Não jogo pedra nele não!!!!
    vlw pela coluna

  • Cláudia : -

    Antes da notícia de sua morte eu já tinha pena dele, por ele estar tão andróide em sua aparência e tão pobre com relação ao que era, isso para um super rico deve ser a morte em vida. Se o leilão que foi promovido antes de sua morte fosse agora os itens iriam ter um preço astronômico. Acho que os americanos, o dinheiro, o poder, faz o ser humano se desconformizar da realidade. Às vezes é melhor ser simples mortal do que mito, mas ainda vai levar muito tempo para que esse mito e esse fato histórico de sua morte, seja esquecido.

  • Liuz Eduardo : -

    Paulo Capistrano já li vários textos seus neste site e comentei em poucos!!! Francamente seus textos são ótimos!
    É impressionante o poder da morte em casos como este!! Desequilibrado, julgado, condenado enquanto vivo.. Santo, mito, gênio depois de morto!!
    Parabéns pelo texto!

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