Corpo e alma.
Seja sincero, quando você pensa em Jazz qual instrumento que imediatamente lhe vem à cabeça? Com certeza não é o piano, erudito demais. Junto com o clarinete e o contra-baixo acústico o piano é um elemento muito presente no mundo dos concertos para ser identificado simbioticamente com o Jazz. Talvez seja o trompete, afinal, lá está ele com Louis Armstrong, Dizzy Gillespie e Miles Davis. Mas, pensando bem, o trompete também evoca as velhas bandas de um tempo anterior ao surgimento do jazz. Antes mesmo de Buddy Bolden inventar a Big Four o trompete já estava lá, ligado ao momento arcaico da origem, ao segundo fundamental da construção da tradição do Jazz. Como um Deus transcendente, o trompete misteriosamente já existia antes de tudo ser criado.
Se você parar para pensar vai ver que o saxofone está para o Jazz como a guitarra para o rock. Ou seja, ele não é apenas um produto estético do Jazz, mas sim a sua mais perfeita tradução. Curiosamente até meados dos anos de 1930 o sax não era um instrumento comum nas bandas de Jazz nem tinha seu lugar garantido nas orquestras de Swing. Duke Ellington e Count Basie já haviam canonizado o piano de Jazz, assim como Sidney Bechet e Benny Goodman haviam feito com a clarineta, Armstrong com o trompete e Chick Webb com a bateria, mas o sax não tinha ainda seu lugar.
Foi preciso que surgisse um cara, com um som leve, rápido e intenso, para que o mundo do Jazz percebesse que aquele instrumento desprestigiado, aquele pobre “pato fanho” (como o chamava jocosamente meu amigo Waldenor), tinha algo de essencial a oferecer.
Coleman Hawkins havia tocado com Fletcher Henderson, mas foi apenas no mês de Outubro de 1939 que ele pôde transformar definitivamente o saxofone em um instrumento solo. Usado na maioria das vezes como um suporte para a clarineta e o trompete, Hawkins, que havia ganho seu primeiro Sax-tenor aos nove anos, não havia tido oportunidade de explorar todas as potencialidades estéticas de seu instrumento predileto (além do Saxofone ele também tocava Violoncelo e piano). Então, no mês de Outubro de 1939 Hawkins entrou em um estúdio da RCA para gravar quatro músicas, entre elas, aquela que iria mostrar ao mundo do jazz todo o poder estético do “pato fanho”.
Durante um punhado de milênios, os grandes pensadores do ocidente teceram suas teorias sobre a natureza da alma e do corpo. Muitos filósofos construíram suas teses metafísicas com base na redução de um ao outro, alguns pensando que tudo era corpo, outros imaginando que o corpo, assim como a matéria que o compõe não é real. Teve gente, como Descartes, que sonhava com um universo cindido entre as coisas da matéria, com extensão e lugar definido no espaço, e as coisas da mente, com a pura temporalidade. Houve poetas que cantaram seus abismos, místicos que enveredaram pela superação das suas fronteiras e aventureiros que forçaram os limites do corpo e da alma até a exaustão. Muita gente boa se perdeu nos labirintos dessas experiências, em suas conexões, em suas esquinas, em suas veredas. Hawkins foi mais esperto do que muitos desses homens de engenho e arte, e nos ofereceu uma chave poderosa para sentir toda a amplitude dessa batalha metafísica em que a humanidade costuma a recair.
Body & Soul, é uma música de três minutos e a grande revolução da versão gravada por Hawkins em 1939 não está apenas no fato de toda a estrutura da música ser feita para o saxofone. Era como se ele estivesse apresentando seu instrumento, usando-o em toda sua potencialidade para construir uma música única, indissociável daquele timbre anazalado que era apenas usado como suporte melódico para que outras estrelas pudessem fazer seu número.
Em Body & Soul quem apresenta o sax é o piano. O grande instrumento canônico da musica erudita e da era burguesa. É o piano de Chopin, de Schubert, de Rachimaninoff que introduz a melodia da música nos oito primeiros segundos. Depois o piano humildemente silencia para que Hawkins possa construir, com seu sax, duas estruturas, duas bases melódicas diferentes que se entrelaçam como corpo e alma em um balé dialético onde dois elementos estão paradoxalmente conectados, mas não se completam.
Foi espantoso para a crítica musical de 1939 ouvir um Jazz como aquele. Hawkins parecia que tocava duas músicas ao mesmo tempo, que a despeito de serem distintas e de não se encaixarem totalmente compunham um conjunto extremamente harmônico, profundamente soante, misteriosamente ordenado. Sutilmente, Hawkins nos leva nesse entrelaçamento a um mundo misterioso, a um universo inquietante onde melodias são superpostas e ao mesmo tempo decompostas em uma dança de notas que guarda semelhanças com uma estranha vibração cósmica, que permeia o contato íntimo entre matéria e espírito, corpo e alma.
Lá pela metade da música somos surpreendidos por um fenômeno mais estranho ainda. A melodia, anunciada pelo piano clássico, desdobrada e duplicada pelo sax é completamente decomposta, sumindo, apagando todas as suas pistas. O que Hawkins fez na sua versão de Body & Soul é coisa para gente grande. Ele abre um espaço para que o sax, que depois será o instrumento da grande revolução de Charlie Parker e da genialidade superior de John Coltrane, possa construir seu império no mundo do Jazz. Mas não é só isso, Body & Soul antecipa o Be Bop quando desconstroi a própria ideia do reconhecimento melódico em uma música popular. Aquilo que as vanguardas européias, de Stravisnky à Shoenberg haviam tentado fazer em composições intrincadas e herméticas, Hawkins faz em alguns segundos da mais pura e simples música popular.
Uma dissolução de nossos dilemas metafísicos mais profundos, uma sutil guinada em direção ao campo aberto de uma nova forma de perceber o mundo, de uma maneira revolucionaria de reconhecer a música e de um jeito estético de sentir como um corpo-alma ou uma alma-corpo paira no vazio de um cosmos imenso e misterioso. Daquele ponto em diante o Jazz não conseguiria mais ser o mesmo. Os sinais do caos, que sempre antecipam as grandes revoluções, estavam no ar, nas linhas dos vinis, nas ondas do rádio e na consciência dos homens.
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É uma grande verdade, mas além disso, gostaria de dizer que o texto é excelente!
Arthur, disse TUDO.As colunas da DIGNET servem de atalho…de “Grande Ponto”.