O álcool é pop. O pop não poupa ninguém
Dedicado ao Marcelo Paulino e ao Neimar Gomes.
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De cada 10 pessoas que usam bebidas alcóolicas, pelo menos uma se torna dependente. E nega sua dependência com unhas e dentes pois acha que é normal encher a cara só no final de semana ou porque beber um pouco todo dia sem se embriagar não pode fazer tanto mal assim, é apenas intriga da oposição. Se mais de uma pessoa já aconselhou você a parar de beber ou dar uma moderada, considere-se verdadeiramente sob risco. Cerca de 20 milhões de brasileiros estão viciados, mesmo que neguem, e já estão condenados a 17 anos a menos de vida. Ah, não é só o cigarro que dá impotência.
Enxergar as bebedeiras como doença e assumir o domínio da bebida sobre a mente é o primeiro passo para se livrar do vício. O problema é que a maior parte dos alcoolistas só busca auxílio quando já tem lesões irreversíveis… Ai onde entram ‘os outros’. Reconhecer as pessoas sob risco e auxiliá-las é papel de toda a sociedade. Não só por altruísmo ou pelo ônus social que todos nós deveríamos cumprir, mas também porque o prejuízo é de todos. Eles estão por toda parte, dirigindo ônibus, trabalhando com fios de alta tensão, conduzindo crianças – ele pode ser o seu marido, sua filha, seu médico, sua mãe, pode ser o amigo que contribui com o vício de seu filho, um funcionário faltoso da sua empresa. O álcool é a droga mais pop do mundo.
Quando vemos um professor universitário perdendo seqüencialmente seus amigos, perdendo sua esposa, abandonando seu trabalho, adoecendo mentalmente seus filhos e detonando seus neurônios, fica mais fácil entender que alcoolismo é uma doença grave e não um mero hábito de ”cabra safado que não tem o que fazer”.
O abuso de álcool é devastador, pois no geral começa nos finais de semana já na adolescência e cresce exponencialmente, detonando a pessoa justamente na sua fase mais produtiva, levando a deficiências nutricionais, fraqueza, doença hepática, predisposição a infecções, graves perturbações mentais, acidentes de trânsito e violência doméstica, entre outros. Primeiro a pessoa bebe para se socializar, depois se socializa para beber, segue perdendo o convívio social com quem não tem o mesmo vício e bebe para continuar conseguindo viver; e em fim, morre por beber – é essa a seqüência mórbida que precisa ser quebrada o mais precocemente possível. Não encontro definição para o alcoolista mais perfeita do que a do AA: “toda pessoa vencida pelo álcool e cuja vida começa a ser incontrolável“.
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..:..O que leva uma pessoa a se tornar viciada, enquanto outras conseguem beber eventualmente??
Quanto mais compreendemos o processo saúde-doença, mais a genética ganha espaço. O alcoolismo, salvo melhor informação, tem suas raízes em múltiplos fatores, numa combinação entre predisposição genética, influências do meio e bagagem emocional + vivências de cada pessoa, sobretudo o modo com o qual lida com os seus problemas. Na minha observação médica, sem uma casuística formal, os alcoolistas têm um perfil ansioso, e optam pelo embotamento do álcool para libertar a mente dos problemas cotidianos. As pesquisas vem demonstrando que é comum o abuso de álcool entre viciados em cigarros e em pessoas com distúrbios mentais diversos, como esquizofrenia e transtorno bipolar. Enquanto a sociedade enxergar o alcoolista como um desocupado ou irresponsável, vai continuar negligenciando sua triagem e tratamento.
Os homens são mais predispostos do que as mulheres apesar delas serem mais sensíveis aos efeitos do álcool, e filhos de alcoolistas têm quatro vezes mais chances de sucumbirem ao vício. Se seu pai ou mãe foram adictos, vigie-se.
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..:..Como definir se alguém é apenas um etilista social ou já está dependente ?
Diagnosticar um dependente quando ele já está na fase terminal, com insuficiência hepática, insuficiência cardíaca, Pelagra*, Beribéri** e deficiência intelectual é muito fácil, mas ai já é muito tarde. O lance é pegar a coisa no início.
O diagnóstico de Alcoolismo é complexo, envolve inúmeras condições e não teremos a pretensão de debater a doença nesse pequeno artigo. Casos de intoxicação aguda, abstinência, delirium tremens, demência, amnésia e diversas condições orgânicas graves apresentam critérios diversos de diagnóstico. O alvo do artigo é dar uma idéia geral da gravidade e alertar a sociedade.
Considerando que a pessoa responda afirmativamente a si ou a terceiros com honestidade a pelo menos uma das 5 questões abaixo¹, é uma forte candidata a já estar dependente ou estar em vias de dependência:
1. Alguma vez você achou que o melhor seria parar de beber ou que precisava arrumar uma forma de pelo menos diminuir a bebedeira?
2. Já ficou chateado (a) com alguém em virtude de críticas que recebeu com relação à bebida?
3. Já sentiu-se mal, com sentimento de culpa, por beber da forma que vem bebendo?
4. Já usou algum estimulante para conseguir ficar acordado?
5. Tomou alguma bebida alcóolica ao acordar, para se acalmar ou para melhorar a ressaca?
Essa seria uma triagem básica. Partiremos agora para critérios médicos para o diagnóstico de dependência:
Três critérios dos sete descritos abaixo já são suficientes para o diagnóstico ²:
1. Tolerância: Isso ocorre quando a pessoa precisa ingerir pelo menos 50% além da quantidade de álcool para chegar ao estado de embriaguez que conseguia quando o vício começou. No meu caso, por exemplo, sentir o cheiro do uísque já é suficiente para chegar ao estado de crise de riso, e a embriaguez é possível com um bochecho de vinho. Geneticamente, o risco de me tornar alcoolista é nulo. Quanto mais a pessoa tolera o álcool (“forte para beber”) maior a chance de ingerir cada vez mais.
2. Ocorrência de pelo menos dois sintomas típicos de Abstinência*** que surjam horas ou dias após a redução ou interrupção do consumo ou ainda o uso de mais bebida para aliviar o sofrimento.
3. Beber mais e por mais tempo que “planejou”
4. Desejo compulsivo de beber, com falhas nas tentativas de interromper o uso
5. Tempo excessivo gasto em conseguir a bebida, beber até cair e recuperar-se
6. Prejuízo nos compromissos sociais, familiares e do trabalho
7. Continuidade do uso do álcool apesar dos prejuízos descritos no item 6.
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..:.. O que é uma dose e o que é pouco ou muito?
A sensibilidade ao álcool varia muito de pessoa para pessoa, mas para termos uma base, podemos impor como critério o que afeta a maior parte dos indivíduos. Vamos considerar uma dose o equivalente a 0,2 a 0,3 gramas de etanol por litro do nosso sangue: isso corresponde a uma lata de cerveja ou um cálice de 150 ml de vinho ou uma dose de 40 ml de uísque/aguardente. Mais de 4 doses por ocasião ou mais de 14 por semana já estão relacionados a dependência e abstinência para homens. Para mulheres, uma quantidade menor já é suficiente: o consumo de 7 doses por semana já sinaliza dependência !!!
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..:.. Como ajudar a pessoa sob risco de dependência a no mínimo moderar o uso e a pessoa dependente a interromper definitivamente o vício?
O primeiro passo é detectar essas pessoas, e se virar nos 30 para quebrar a barreira da negação para que elas aceitem a condição e permitam receber auxílio, ou busquem auxílio espontaneamente. A dependência não tem cura: uma vez viciado, sempre viciado, e isso precisa ficar claro: qualquer quantidade de álcool pode desencadear dias de consumo, e derrubar todo o trabalho feito antes.
Não existe um protocolo 100% eficaz, o índice de recorrência é infelizmente elevado e o que podemos afirmar com menor margem de erro é que a abordagem mais precoce garante melhores resultados. O suporte que cada paciente deve receber é individualizado, e envolve o apoio familiar em primeiro lugar, médicos, psicólogos e apoio de iguais. Os Alcoólicos Anônimos e outros grupos de apoio ajudam as pessoas a manter a abstinência, por oferecerem estratégias de resistência ao impulso de beber.
O suporte médico é fundamental para o tratamento das deficiências nutricionais e eventual suporte psicofarmacológico. Muitos pacientes precisam de ansiolíticos e antipsicóticos, sobretudo na fase de abstinência e até encontrarem maior equilíbrio emocional. O suporte com psicólogos auxilia a pessoa a confrontar-se consigo mesma, quebrando barreiras e resolvendo conflitos.
Sem dúvida, a luta contra o alcoolismo acompanhará a pessoa até o fim de sua vida. O retorno às atividades laborativas e a reinserção social e familiar são pilares da recuperação e libertação do estigma, devolvendo à pessoa a auto-estima, sua dignidade e sentimento de utilidade, há muito perdidos.
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Para saber mais:
Alcoólicos Anônimos no Rio Grande do Norte
‘Alcoolismo’, do portal da UFRRJ
Diagnóstico e tratamento da dependência e uso nocivo de álcool
‘Alcoolismo’, do portal Psicosite
Marcadores Biológicos do Alcoolismo
Fonte consultada para as referências ¹ – ² : BlackBook Clínica Médica, 1ª Ed.
* Pelagra: Doença caracterizada por lesões de pele, demência e diarréia. É uma desordem nutricional, que tem como relação principal a deficiência de Nicotinamida. Como o Beribéri, ocorre em alcoolistas e desnutridos.
** Beribéri: Doença que causa fraqueza nos membros por acometimento dos nervos, freqüente em alcoolistas e desnutridos, e ocorre por deficiência de Tiamina. Como a Pelagra, também pode levar a morte.
*** Abstinência: Ocorrência de sudorese, taquicardia, tremores, insônia, agitação, enjôos e vômitos, 6 a 48 horas após a redução ou cessação da bebida. O Delirium tremens é a forma mais temida da abstinência, e pode levar à morte: a pessoa apresenta confusão mental, crises convulsivas e alucinações (vê animais no seu corpo, por exemplo). O Delirum no geral surge 2 a 4 dias após a interrupção da bebida.
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