Colunas Diginet
Meire Gomes

Meire Gomes - saladamedica@gmail.com

Salada Médica

Médica e estudante de pós-graduação em Direito Previdenciário. Nas horas vagas escreve algumas notas sobre saúde, arte & abobrinhas no Blog Salada Médica. Contatos: Twitter - E mail.

Ela mentiu

quinta-feira, 19/fevereiro/2009

‘Para vencer no mundo é conveniente ter consigo uma boa bagagem de circunspecção e indulgência: a primeira protege-nos de danos e perdas, e a segunda de lutas e querelas.’

Arthur Schopenhauer, em Aforismos para a Sabedoria na Vida, capítulo V, máxima 21.

.

.

Everybody lies (Todo mundo mente). Por essa afirmação aparentemente misantropa, o personagem Gregory House deveria ganhar a imortalidade. Ele seguiu à risca um provérbio árabe que diz às vezes, para ensinar algo bom, é preciso ser um pouco rude’. O personagem não só disse o que todo professor de Medicina deveria dizer aos seus alunos, como disse o que toda pessoa deveria lembrar antes de se arvorar a julgar os outros e bater o martelo. Nem tudo é só certo ou só errado, um erro só deve ser penalizado às expensas de sua proporção, e pode trazer na sua essência  fatos atenuantes. E isso nem é conseguido através de um juízo precipitado, tampouco através do juízo nos moldes daqueles espíritos de plantão, prontos a atirar a primeira pedra.

Falando em atirar pedras, O Nobre Alcorão, Livro Sagrado do Islã, recomenda que antes de apedrejar uma mulher o caso seja investigado e que existam testemunhas. Tudo bem, sei, apedrejar uma mulher não é exatamente um bom exemplo a ser seguido. O bom exemplo daí e que nos basta é a prudência necessária antes de se aplicar a pena.

Um ditado que se torna popular, como o ‘Todo mundo mente’ do Dr. House, pode trazer um caminhão de sabedoria nas suas costas. Muitos deles são em essência o que exorta sabedorias tão antigas quanto as chinesa, hindu e iídiche. No quesito Julgamento, muitos provérbios não só lembram às pessoas que todo homem é um ser que falha, como orientam que não se dê um juízo precipitado ao outro. Isso se chama senso de justiça e que, a despeito de fazer parte da consciência do homem desde tempos imemoriais, não está presente naqueles que se julgam acima do bem e do mal. Ainda bem que vivemos num tempo onde a Justiça procura olhar todas as faces da moeda. E a moeda da Justiça não tem só duas faces:  além  da versão do acusado e da do réu, tem a face do Juiz.

Quem afirmar que nunca disse uma mentira já está mentindo, ou por não ter consciência das mentiras que já contou na vida, ou por ser hipócrita. As ‘mentiras que todos contam’ são parte de adaptação à vida  em sociedade – sejam elas as desculpas esfarrapadas que um adolescente dá aos seus pais ou a mentirinha de um amigo que ao encontrar outro elogia sua aparência, àquelas mentiras contadas a quem não confiamos revelar algo pessoal. Mentiras que contamos podem evitar que outras pessoas sofram e pode nos proteger do juízo avassalador de alguém – assim que muitos homossexuais se protegem dos seus algozes morais -, como simplesmente podem fazer parte do nosso direito de manter a privacidade sobre coisas que só dizem respeito a nós.

As mentiras diferentes das ‘mentiras que todos contam’, podem prejudicar outras pessoas, difamá-las ,  geram fraudes que lesam o  patrimônio público e de terceiros, e podem ter consequencias desastrosas dentro de uma família ou um círculo de amizade, culminando até em atos violentos e uma sequencia de injustiças. Pode haver muita coisa por trás de uma mentira que gera um ato violento contra si ou outros,  como uma mente psicopata,  uma mente perturbada psicoafetivamente, um mau caratismo visando um interesse secundário e um desespero real, daqueles que fazem a pessoa perder momentaneamente a razão e afirmar o que de fato não afirmariam em outro momento. Dentro dessas quatro possibilidades que não são as únicas, certamente existem muitos outros desdobramentos.

Estou falando da advogada brasileira Paula Oliveira, radicada na Suiça e que no dia 08 de fevereiro alegou ter sofrido um ataque de neonazistas, seguido de aborto de seus gêmeos em uma estação de trem. Paula relatou, conforme declarou seu pai à imprensa, que sofrera além dos cortes de estiletes encontrados durante seu exame físico, socos e chutes.

A notícia  que a princípio chocou o Brasil – que compreensivelmente julgou que tudo ocorreu como um dos lados pronunciou porque a história é compatível com atos de xenofobia mundo afora e haviam sinais físicos sugestivos -, agora divide o nosso país entre aqueles que já condenaram a mulher e naqueles que estão esperando o desenrolar dos fatos.

A Revista Época online, em reportagem datada de 16/02/2009 trouxe a informação de que dias antes do suposto ataque, Paula teria copiado uma imagem de ultrassom no Google e enviado a diversos amigos para comunicar a gravidez de gêmeos. Ainda segundo a Revista, Paula ja tinha fama de inventar histórias e chamar a atenção para si, como a de um casamento com um francês e da sua suposta morte trágica num vôo da TAM, episódios que de fato nunca ocorreram. A constatação de que ela não estaria gestante no momento do ataque acendeu a dúvida na Suiça: ela foi atacada mesmo? 

Então se consideramos o que as evidências atuais apontam, – que ela não estava grávida, tampouco foi atacada -,  merece ser presa? A resposta não é simples. Que algo deve ser decidido é fato, porque uma alegação que envolva terceiros, e nesse caso envolve inclusive relações diplomáticas entre dois países,  sempre poderá ter algum tipo de consequencia funesta, e isso deve ser coibido.

Um jornal Suiço levantou a hipótese de que ela teria forjado o ataque para receber indenização governamental. Eu prefiro deixar essa  hipótese de lado por ora, não só em virtude do suposto passado dela de inventar histórias dramáticas para atrair a atenção dos outros, como pelo fato dela ser empregada num país rico e ter família de posses, além de não terem sido demonstradas dívidas que ela supostamente teria a pagar. O fato de várias pessoas terem constatado a criação de histórias fantasiosas por parte de Paula, sinaliza um problema prévio ao episódio na estação de trem. Os mentirosos patológicos criam situações em sua vida que precisam ser partilhadas com muita gente, para que assim, pareçam ou se tornem ‘reais’. Eles tendem a abrir a sua vida para muitas pessoas, porque precisam receber a múltipla atenção que produz conforto para suas angústias. Mulheres que inventam uma gravidez, seja para induzir que um homem permaneça ao seu lado ou por outros motivos de baixa autoestima, são ocorrências razoavelmente frequentes e não causa tanta estranhez. Mas o que se passa pela mente de alguém que se automutila? Esse é o ponto.

Abstraio, considerando o fato dela ter confirmado a farsa, e suponho que depois de se mutilar ela tenha se aliviado emocionalmente. Assim,  voltou-se  à realidade do que fez e como é comum em pessoas com transtorno de personalidade, tenha justificado a não gravidez e as lesões imputando a  culpa a  terceiros. Nada impede das siglas terem sido riscadas por ela por último, quando o ato de se mutilar já tenha produzido a calma que ela procurava. Não precisa ter havido uma premeditação, ela pode ter se mutilado num momento de sofrimento real e alegado a xenofobia depois. As histórias das pessoas com transtorno de personalidade podem ser muito convincentes, tão convincentes ao ponto delas mesmas passarem a acreditar no que criaram.

A automutilação pode ser tão grave ao ponto de uma pessoa arrancar o próprio olho, e está presente em transtornos psiquiátricos como a esquizofrenia, mas pode estar presentre na Depressão, ou ser parte de um surto psicótico. Pessoas que estão em outros países e longe de suas famílias podem ser mais susceptíveis à depressão, como o  banzo sofrido pelos escravos trazidos da África para Brasil Colônia que os matava de tristeza.

O tipo de personalidade que pode estar presente na pessoa  que cria situações fantásticas para chamar a atenção para si é chamado de Transtorno de Personalidade Borderline, e essas pessoas apresentam um sério problema no controle das emoções. Elas tem pensamento polarizado, e tendem a se colocar num polo do bem e colocar as outras pessoas no polo do mal. Tais pessoas podem precisar de ajuda profissional, mas raramente admitem a necessidade de tratamento quando não convenientemente apoiadas e orientadas pela família. O transtorno é mais comum em mulheres e, segundo Kaplan, ocorre em 2% da população e pode em alguns casos estar relacionado a violência sexual sofrida na infância. Em outras esferas, como no trabalho e nos estudos, a pessoa pode funcionar muito bem.

Como se diagnostica a Personalidade Borderline?

Após uma avaliação psiquiátrica, se o médico encontrar sinais que sugiram um certo padrão de  instabilidade nos relacionamentos interpessoais e na qualidade do afeto, além de uma distorção na imagem  que a pessoa faz de si mesma e dos outros ao ponto de prejudicar a sua vida e trazer sofrimento, ele procura estudar se o paciente preenche pelo menos 5 critérios do DSM IV, os quais trago ‘traduzidos’ para vocês abaixo. Infelizmente, o tratamento não é fácil. O depoimento das pessoas que convivem com o paciente é importante, e de fato são as pessoas mais próximas que precisam estimular o paciente a buscar tratamento. Vamos aos critérios:.

.

.

 

(1) Esforços ‘frenéticos’ para evitar ser abandonado (a) por um parceiro (a), mesmo que a situação seja real ou imaginária;

(2) Exista um padrão de relacionamentos intensos e instáveis, como o das pessoas que quando não são 8 são 80, que amam demais ou odeiam demais, e que frequentemente se envolvem em algum tipo de querela, fofoca ou intrigas, alternando sentimentos de idealizar ou desvalorizar os outros;

(3) Perturbação na sua própria identidade;

(4) Impulsividade em pelo menos 2 áreas de sua vida e que potencialmente prejudiquem a si mesmo, como gastos excessivos, sexo, abuso de substâncias (álcool, cigarro e outras), direção imprudente, excesso de apetite, pseudologia fantástica (mania de criar histórias fantásticas sobre sua vida para outras pessoas), e muitos outros distúrbios no controle dos impulsos;

(5) Recorrência de comportamentos suicidas, como ameaças de suicídio (muitas vezes para chamar a atenção) ou ocorrência de automutilação (uma lesão feita em si mesmo sem intenção de chegar à morte);

(6) Presença de reatividade no humor (‘Fulano é de lua’), com episódios de irritabilidade, ansiedade e ‘altos e baixos’. Constantemente são pessoas que explodem depois fingem que está tudo bem;

(7) Sentimentos crônicos de ‘vazio’;

(8) Dificuldade de controlar a raiva, ou raiva inadequada e intensa;

(9) Ideação paranóide (a pessoa acha que há um complô contra ela ou que está sendo perseguida), transitória e relacionada ao estresse ou a sintomas dissociativos. A Dissociação ainda não é totalmente compreendida – como muita coisa em psiquiatria – e não tem um conceito totalmente satisfatório. A OMS define como ‘perda parcial ou completa da integração normal entre memória, consciência de indentidade, sensação imediata e controle dos movimentos’. Traduzindo em miúdos, é mais ou menos o que ocorre nos ataques histéricos e ‘crises nervosas’, em que as pessoas podem ficar num estado parecido com um ataque epiléptico, entre acordadas e desmaiadas, virando os olhos e se debatendo. Isso pode ser visto por exemplo em Igrejas, onde as pessoas são tratadas como se estivessem possuídas pelo demônio. Podem haver diversas formas de dissociação, de leves como sensação de dormência no corpo a mais severas, como a sensação de estar saindo do próprio corpo e não saber temporariamente quem é. Mas  nem todas  as dissociações são resultado de uma doença psiquiátrica, podem ser um meio de defesa, como por exemplo o ‘branco’ na memória que uma pessoa tem depois de um acidente ou episódio violento pelo qual passa. O que é normal e o que é doença, só um bom psiquiatra poderá definir.

 

 

Antes de julgarmos a Paula como uma aproveitadora criminosa, é preciso que se descarte os transtornos psicoafetivos possíveis – o transtorno de personalidade é só uma das possibilidades -  e que sua pena seja proporcional ao considerar o estado emocional no qual se encontrava. Eu confio no julgamento da Suiça. Muitos comentários em diversos fóruns demonstram o número de pessoas que apontam a Paula como uma vergonha para o nosso país, quando ela pode, nesse momento, ser mais apenas uma das tantas mulheres que precisam de nossa ajuda e defesa. 

 

 

Os comentários foram desabilitados para esta coluna.

Veja mais artigos de Meire Gomes