Depressão

por Meire Gomes
A Depressão é um problema com múltiplas causas e talvez seja das doenças potencialmente incapacitantes a mais complexa e de evolução mais imprevisível. Ela é impalpável e sua mensuração é fortemente subjetiva: como podemos medir um sofrimento?
Uma depressão grave pode se dissolver em poucas semanas enquanto um quadro leve a moderado pode prolongar-se ao ponto de esgotar a pessoa emocionalmente com o passar dos anos. Se a depressão ocorre em reação a um fato pontual – como uma separação conjugal ou a morte de alguém querido -, ela pode passar em algumas semanas, mas a pessoa pode ficar depressiva por meses e até nunca mais sair do quadro, tornando-se doente crônica com episódios recorrentes mesmo que o fato gerador há muito tenha perdido sua importância.
O fato é que a Depressão, independente de ter uma causa bem definida ou não, é um problema de saúde pública. Ela começa cada vez mais cedo, acomete as pessoas em todas as faixas de idade, está espalhada pela música, pelo cinema e pelas artes plásticas, não escolhe etnia, credo, sexo nem condição sócio-econômica e pode ser devastadora, sobretudo quando a pessoa explode por dentro num esforço de deixar transparecer que está tudo bem em vez de buscar tratamento. Algumas pessoas tornam-se agressivas, são fatalistas ou vivem de mau humor e por esses motivos se isolam ou são excluídas de seu grupo, enquanto muitas outras mergulham na doença e se deixam levar pela sua voracidade. A depressão não é uma doença, é um espectro; é como uma aranha venenosa, tem várias pernas e pode matar. Mas há tratamento.
A ocorrência da depressão, como a de basicamente toda doença, parece ter uma certa predisposição individual. Há pessoas que a despeito de toda carga emocional a qual são expostas permanecem mentalmente saudáveis e produtivas, enquanto muitas tornam-se depressivas por motivos que para outras seriam banais ou contornáveis. As nossas personalidades diferem muito, algumas pessoas possuem a natureza ansiosa, outras têm baixa tolerância às frustrações e muitas são pouco resilientes*.
Muitas pessoas com depressão são de fato pessoas com transtorno bipolar ou com transtorno de personalidade. Excluindo-se as depressões que apresentam um forte componente não-ambiental, os demais quadros podem variar muito de acordo com o meio no qual a pessoa vive, o apoio da família, a sua situação econômica, a estabilidade das relações amorosas e as relações com o seu trabalho. As pessoas em situação de abandono ou penúria econômica parecem estar mais predispostas à doença que pessoas em c0ndições ambientais mais confortáveis.
É preciso haver atenção para o diagnóstico e tratamento precoces: muitas pessoas resistem à consulta com um psicólogo ou psiquiatra pelo estigma que isso representa e prolongam assim o seu sofrimento e o sofrimento de quem as cerca.
Quais são os sintomas da Depressão?
Para começar, a depressão não é sinônimo de tristeza. A tristeza é um sentimento que faz parte das reações humanas, mas não deve nos paralisar nem afetar várias esferas da nossa vida a todo tempo. Precisamos entender que os problemas acontecem para todos, entes queridos morrem, pessoas se separam, temos problemas financeiros, problemas domésticos e no trabalho ou conflitos com aqueles que amamos. Você pode estar triste, mas deve manter sua autoestima, não se culpar por coisas que não são sua responsabilidade e ser capaz de enfrentar o problema de frente para a retomadas da sua vida. Para uma pessoa com estado de saúde mental normal, a tristeza passa. A vida é um vai e vem de sofrimentos e alegrias e precisamos aprender a tolerar as frustrações. Sem isso, uma das pernas da depressão um dia nos chuta mais facilmente pro fundo do poço. Parar um pouco e pensar na sua vida, respirar fundo e encher-se de coragem para enfrentar as dificuldades é única forma de se proteger: e ninguém pode fazer isso por você.
A pessoa depressiva apresenta um rebaixamento do seu estado de humor, tem menos disposição, cansa-se fácil e tem a capacidade de concentração diminuída. Pode ter transtornos no sono e na qualidade do apetite e ter o desejo sexual reduzido ou até abolido. O sentimento de ser alguém inútil e um desprezo por si mesmo são condições comuns, podendo levar a pessoa até ao suicídio.
A Depressão pode ter episódios leves, moderados ou graves. Nos episódios leves, a pessoa sofre e tende a se punir por muitas coisas, mas tanto permanece capaz de desempenhar suas atividades como deve permanecer em atividade. Nos quadros moderados a pessoa pode ter redução de seu desempenho até nas atividades de casa, mas muitas permanecem com um intenso sofrimento sem demonstrar aos outros, e as crises de choro e insônia são comuns. Tanto na depressão leve quanto na moderada a pessoa pode pensar em se matar, sair correndo, jogar tudo pro alto ’sumir’, dependendo do tempo que seus sintomas a afligem e de muitos outros fatores, mas isso não é um pensamento recorrente ou que caracterize fortemente esses quadros. Essas pessoas precisam ser estimuladas a um tratamento urgente, podem ser afastadas do trabalho por um curto período e devem voltar a ser produtivas o mais rápido possível. Profissionais que estimulam essas pessoas à retomada de sua vida devem ser valorizados. Uma grande falha do profissional é superproteger a pessoa depressiva, tornando-a mais inválida do que a doença conseguiu tornar. É preciso individualizar os limites de cada pessoa e extrair o seu potencial.
Na depressão grave, tanto o sentimento de ser alguém inútil e que não serve mais para nada quanto a ideação suicida são marcantes. O corpo da pessoa fica ‘fraco’, ela tem dores, pode sentir-se doente e com vários sintomas, como engasgos, dormências pelo corpo e sensação de que vai morrer. A angústia é muito forte e o estado de humor muito rebaixado, ao ponto da pessoa perder o interesse por tudo, isolar-se, ficar ‘largada’ em um cômodo da casa. A apatia é tanta que essas pessoas não tem forças nem para chorar, desejam se matar mas nem isso conseguem fazer. Quando o quadro piora mais ainda, podem passar a apresentar sintomas psicóticos, como alucinações, surtos de agressividade e atos insanos, tipo sair andando a esmo, arrancar as roupas em público, tocar fogo na casa e perpetrar atos violentos contra si e contra outras pessoas, inclusive seus filhos pequenos.
Da mesma forma que os diabéticos e hipertensos, é possível que os pacientes depressivos precisem usar remédios pro resto de suas vidas, mas muitos podem ter controle por muito tempo sem medicamentos. Cada caso é um caso.
Se você tem sintomas depressivos não cometa o erro gravíssimo de ter medo ou vergonha de procurar um psicólogo e um psiquiatra, porque o prejuízo dessa doença não é só seu, se estende aos seus filhos, seu cônjuge, seus pais, irmãos, amigos. E é um prejuízo de toda a sociedade, que arca com as despesas da invalidez que a doença pode provocar, excluindo da vida produtiva tantas e tantas pessoas que poderiam estar contribuindo para o crescimento do nosso país.
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Foto: ’Mulher Chorando’ -1937, por Pablo Picasso.
* Michelle Brito explica o que é Resiliência aqui.
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