Confesso que morri
Para M.
.
.
.
O diagnóstico precoce da Anorexia Nervosa (AN) é uma urgência médica. A taxa de mortalidade é a mais alta de todos os transtornos psicológicos: é uma forma de suicídio lenta e assustadora. O perfil esquálido couro e osso da pessoa com anorexia terminal não é o encontrado na maior parte das pessoas com AN, tampouco é um distúrbio encontrado apenas em modelos profissionais. Uma profissão específica não explica satisfatoriamente a doença, muito menos é a busca da beleza a todo custo a sua causa primária. São estereótipos assim que engrossam a base dos preconceitos que dificultam que pessoas altamente susceptíveis e já adoecidas tenham o transtorno percebido por sua família e recebam ajuda profissional.
Descreve-se que a Anorexia Nervosa é mais comum em pessoas que sofreram abuso sexual, estupro e outras formas de violência física, bullying e outras formas de violência psicológica, fatores estressores diversos e como sintoma de algum transtorno psiquiátrico, tais como o transtorno bipolar e o transtorno obsessivo-compulsivo. É possível que tais fatores aliados a predisposição genética e outras influências do meio, expliquem satisfatoriamente a origem da anorexia nervosa na maior parte dos casos.
Anorexia significa literalmente ausência de apetite, e pode estar presente em diversas condições, como na gripe, no câncer, durante um episódio depressivo, durante o sofrimento do luto ou da vivência de uma separação conjugal. A anorexia nervosa como entidade clínica, é diagnosticada após a exclusão de outras causas prováveis para a inapetência e está relacionada a uma perda da capacidade de enxergar o próprio corpo como ele é: a pessoa se vê com partes do corpo deformadas ou com obesidade mórbida. A inapetência ocorre portanto, devido a alteração do esquema corporal que promove uma fobia específica: a de engordar. E toda fobia é, por definição, um medo infundado. A anorexia nervosa é uma forma de pânico que gera sofrimento psicológico intenso.
As adolescentes que mostram orgulho de serem chamadas de anoréxicas, criando blogs e comunidades no Orkut para promoverem a AN, seguem um modismo, esse sim impulsionado pela ditadura da beleza e exigência da magreza nas passarelas. Quem tem anorexia nervosa de verdade sofre intensamente e tem vergonha de falar sobre o assunto, tem a auto-estima baixa, se vê inferiorizada pelos outros e tenta “arrumar” seu esquema corporal controlando a alimentação.
A anorexia nervosa não é um transtorno novo. Quantas santas da Igreja Católica jejuavam para expiar seus grandes “pecados” até se tornarem tão emagrecidas ao ponto de morrer ? Quantas pessoas morriam “por amor” ? Ninguém morre por amor. Amor não mata, a falta de amor que mata, sobretudo a falta de amor por si mesmo.
Crianças ou adolescentes que sofrem algum tipo de violência ou outra experiência estressora, sobretudo aqueles que não foram defendidos por quem deveria defendê-los, crescem com a impressão de que não tem valor para os outros, de que são meros objetos que podem ser usados e descartados. Esse sentimento é o que chamamos de baixa auto-estima. Elas não se sentem amadas ou aceitas por quem amam por terem sido marcadas por um carimbo de negligência. Tal carimbo somado a outros fatores – pois nenhum isoladamente merece o crédito pela explicação -, pode desembocar em transtornos emocionais futuros. Dependendo do caráter dessa pessoa, de sua resiliência, do meio em que vive, de outras marcas de sua vida e de suas predisposições genéticas como um todo, ela pode não desenvolver transtorno algum, como pode chegar ao suicídio de fato ou se tornar perpetradora de bullying e até pedófila. E nesse espectro, do nada ao suicídio e transtornos bizarros de comportamento, muitas vão desenvolver anorexia nervosa.
O que menos as pessoas com anorexia precisam é de alguém que as trate como uma pessoa fútil que só pensa na beleza; além disso ser algo cruel, só demonstra insensibilidade e desconhecimento da matéria. Para entendê-las parcialmente, basta tentar se imaginar dentro do corpo de uma pessoa que você abomina de alguma forma: você faria ou não faria o que julgasse correto e eficaz para sair daquele corpo e voltar a ser você mesmo, desde que isso não prejudicasse outras pessoas? A anorexia nervosa, como boa parte dos transtornos neuróticos, é mais comum em mulheres. Costuma aparecer durante a adolescência, mas pode aparecer até na menopausa.
Trago um fragmento da confissão de uma mulher chamada M, a quem não só dedico esse pequeno artigo, como agradeço a inspiração para escrevê-lo.
“Aos quatro anos de idade tive uma infecção grave e fui internada às pressas. Por incrível que pareça tenho memórias vívidas da época, não sei se por ter ouvido a história muitas vezes ou por realmente me lembrar. O fato é que esse episódio fez com que meu pai gastasse o que não tinha, fiquei em UTI muitos dias e fui atendida por diversos médicos. Eles venderam a casa e nos mudamos para outro bairro em Vitória (ES), para uma casa menor, porém na vizinhança do restante da família. Minha irmã nasceu quando eu tinha 5 anos, então passei a frequentar muito a casa dos primos, onde havia mais espaço, atenção e companhia. E aos 6 anos fui estuprada por um primo adolescente, depois dele ter aumentado o volume da música para ninguém ouvir os meus gritos. Lembro das cores, dos cheiros, da música, da correria, do quanto doeu e de como eu pedia ajuda. Fui para o hospital sangrando, e ao voltar para casa simplesmente nada parecia ter acontecido. Ninguém me pediu desculpas, ele não foi punido… Confesso que morri… E eu fui levada para Salvador, para morar com uma irmã da minha avó, novamente sem explicação nenhuma. Meus pais vinham me visitar duas vezes por ano, até que o pai ficou desempregado e eles se mudaram para Salvador. Hoje, voltando no tempo, só consigo pensar que eles acreditavam que eu fosse esquecer, eles devem ter sofrido muito. Olhando friamente eu consigo entender, perdoei, mas ainda sangro.
Sempre fui considerada bonita, mas nunca me preocupei muito com isso. Em algum ponto da minha vida a anorexia entrou, talvez por volta dos 15 anos. Naquela época não se falava nisso, e como sempre fui magra, nada realmente parecia estranho, e eu seguia achando que o corpo não era meu. A via crucis foi impulsionada por dietas experimentais quando comecei a cursar Nutrição. Foi um álibi involuntário e perfeito, quem desconfiaria de transtorno alimentar se eu era a “doutora” no assunto? Eu retirei o açúcar da dieta, depois segui retirando outros itens. Não demorou muito tempo, eu entrei na dieta macrobiótica, que era moda na época, só que adaptei a dieta para minha sobrevivência mínima. Só fui entender que tinha anorexia nervosa há 5 anos, quando procurei ajuda médica devido a queda de cabelos e baixa tolerância a exercícios físicos. Eu tentei sair do meu próprio corpo e me ver como outra pessoa para entender que eu realmente precisava de ajuda. Só comecei a melhorar depois que tive coragem de falar abertamente sobre o abuso sexual e admitir a anorexia. Eventualmente ainda vejo deformidade no corpo, isso vai e vem, e preciso dos olhos dos amigos para conferir o que está acontecendo de fato. Aprendi a confiar. Recuperei-me nutricionalmente, mas resta um grande medo de desenvolver Bulimia …”
O transtorno de percepção da imagem corporal pode ser localizado. Há pessoas que enxergam deformidades específicas na face, nos braços ou no abdome, ou se enxergam obesas só da cintura para baixo ou para cima.
Os pais precisam estar atentos aos hábitos alimentares dos filhos, pois justamente na fase em que estão mais independentes, os sinais começam a ocorrer com mais frequencia e a negligência é comum. Os pais tendem a se preocupar fortemente só com a alimentação das crianças, até mais do que deveriam, porque crianças pequenas apresentam um mecanismo muito eficiente de controle do apetite.
Há vários graus de AN, e duas formas de comportamento: a restritiva, caracterizada pelo controle excessivo da quantidade e qualidade dos alimentos ingeridos, com adoção de dietas bizarras e metas absurdas, associada muitas vezes à prática exagerada de atividade física; e a forma bulímica, na qual as pacientes ao comerem um pouco mais do que estabeleceram como “correto” provocam vômitos. É comum o uso de laxantes, medicações para inibir o apetite e até diuréticos.
As pacientes com anorexia verdadeira usam todos os meios para camuflar o problema, simulando uma não-anorexia, com justificativas racionais para o comportamento. Elas afirmam que comem bem. É importante lembrar que muitas garotas com anorexia apresentam interrupção da menstruação e queda de cabelos, no entanto tais queixas raramente levam os médicos a desconfiarem de má nutrição, pois os ovários policísticos são achados comuns e acabam levando o crédito dos sintomas ao se fechar o diagnóstico de síndrome de ovários policísticos. Isso acaba contribuindo para a perpetuação do problema, fornecendo à menina outra justificativa para manter sua dieta.Desconfiem de anorexia quando uma menina magra tem ovários policísticos !
Procurando deixar claro que o diagnóstico de Anorexia Nervosa deve ocorrer antes que uma desnutrição grave se instale, lembro que a Classificação Internacional de Doenças traz o código de Anorexia Nervosa Atípica, onde potencialmente está boa parte desses pacientes.
.:. Como desconfiar que a Anorexia Nervosa está acometendo alguém do meu círculo familiar ou de amizade?
- O quadro se inicia frequentemente com recusa a ingerir açúcares e gorduras, ou com uma dieta muito rigorosa, pouco variada e com baixo teor calórico, mantida mesmo quando a pessoa está com peso considerado adequado ou quando já emagreceu mais do que deveria.
- A pessoa passa a evitar programas com amigos que envolvam refeições, ou alegar que já comeu em casa ou que não está se sentindo bem para comer, ou que as opções do cardápio não agradam.
- Costumam receber alimentos de seus pais e encondê-los ou jogar no lixo, afirmando que comeram.
- Espalham a comida no prato em pedaços muito pequenos, comem vagarosamente até todos saírem da mesa, deixando um espaço no meio do prato para dar a impressão de que comeram.
- A falta de menstruação por 3 meses já é um sinal de alerta. Outros sintomas, como quedas de cabelo, envelhecimento precoce e ressecamento da pele, podem ocorrer sem um quadro de desnutrição franco “a olho nu”.
.:. A Anorexia Nervosa pode ser de família ???
Foi demonstrado que existe maior concordância de Anorexia Nervosa entre irmãs e entre gêmeos, sobretudo em famílias onde existe maior índice de depressão e abuso de bebidas alcoólicas.
.:. Anorexia Nervosa tem cura ???
É descrito que 40% das pessoas ficam recuperadas, cerca de 30% melhoram e 30% ficam com o quadro cronificado. A mortalidade pode ir até 30%.
.:. E como tratar ???
Depende muito do grau de perda de peso, do sofrimento psíquico, da presença de outras doenças associadas à desnutrição. É necessário avaliação médica inicial e suporte com psicólogos, sobretudo com Terapia Cognitivo Comportamental. A psicanálise não tem demonstrado resultados favoráveis.
Infelizmente não há um medicamento com eficácia comprovada, porém dependendo de cada paciente, pode ser usado antidepressivo ou outros medicamentos, como ansiolíticos ou estabilizadores de humor. Em alguns casos, podem ser usado estimulantes de apetite.
Muitas pacientes podem se recuperar espontaneamente, com autoconhecimento e “papoterapia” (terapia espontânea, feita através de suporte familiar e amigos, conhecida como “Intervention” nos EUA), mas não temos meios de estabelecer o quanto o tratamento não especializado é útil em termos populacionais.
Caso você se suspeite que alguém está passando por algo do tipo, estenda a mão até fazer com que a pessoa alcance-a, e estimule a busca por atendimento médico e psicológico.
.
.
.
Para saber mais:
Critérios Diagnósticos para os transtornos alimentares: Conceitos em Evolução
Terapia Cognitivo Comportamental dos transtornos alimentares
Abuso Sexual na Infância, por Meire Gomes (Publicado no livro Pediatria Radical, Ed. Senac – Brasília)
Livro: Mentes Insaciáveis, da Dra Ana Beatriz B Silva (Ediouro)
Veja mais artigos de Meire Gomes
- Eutanásia: um ‘prolegômeno’ para uma pequena pergunta. - 13 de julho de 2008
- A senhora acha que dar palmada faz mal? - 24 de maio de 2008
- Acerca da Fé – Uma peça em 12 atos - 24 de fevereiro de 2009
- Paralisia Cerebral (PC) - 1 de agosto de 2009
- As meninas do Rio - 30 de março de 2008

