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Meire Gomes

Meire Gomes - meire.meire@gmail.com

Meire

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A senhora acha que dar palmada faz mal?

sábado, 24/maio/2008

Escrevi o artigo abaixo baseada em convicções pessoais, não necessariamente amparada pelo impulso científico costumeiro e sem pretensão de que sirva de guia para mães e pais. A pergunta que me foi enviada por e-mail por uma mãe é a mesma habitualmente feita em fóruns de discussão sobre o tema: palmadas podem prejudicar as crianças? Essa questão envolve múltiplos desdobramentos, provavelmente não existe confiabilidade no impacto populacional e nada mais parece que um de entrave acadêmico para o desfecho de uma questão para muitos - nos quais me incluo - absolutamente resolvida.

A pergunta que devemos fazer a nós mesmos é: alguém tem direito de bater em uma criança ? Se ninguém tem esse direito, a questão finda sem rodeios. Se alguém tem esse direito, quem é essa pessoa e como legislar a respeito da matéria seriam as questões seguintes. Ainda que a ‘hipótese’ de que palmadas não tragam danos emocionais à criança seja considerada, isso não retira o direito do pequeno de ser ouvido e ter sua integridade física e moral preservadas nem muito menos outorga às pessoas o direito de agredi-lo. Assim penso, e pelas crianças assim advogo; muito embora permaneça aberta e escancarada a quebrar paradigmas diversos e rever minhas posições em outras questões polêmicas como a legalização do aborto, eutanásia, pena de morte, drogas e regulamentação da prostituição, na questão ‘Palmadas’ a minha postura é, como diria Rogério Magri *, imexível.

Em julho de 2006 a primeira versão desse ensaio foi postada no Natalpress.com e em 2007 tive o prazer de vê-lo publicado - entre outros artigos meus - no livro ‘Pediatria Radical’, da Editora Senac do Distrito Federal. Resolvi revisá-lo novamente no mês das mães, mas em homenagem à menina Isabela, ao menino M, à menina S, ao menino B e a todos os meninos e meninas que ainda são agredidos física, sexual e moralmente por quem deveria protegê-los.

DAR PALMADAS OU NÃO DAR PALMADAS ?

“É dever de todos velar pela dignidade da criança e do adolescente,
pondo-os a salvo de qualquer tratamento desumano, violento,
aterrorizante, vexatório ou constrangedor.”

Lei 8049/1990, Título II, Capítulo II, Art. 18

Fazendo um breve passeio histórico, descobrimos que segundo o Talmud ( livro sagrado escrito pelos antigos hebreus) o pai tinha direito sobre a vida e morte de seus filhos, até a criação de um conselho de anciãos para julgar cada caso individualmente. Após a influência egípcia e babilônica, os hebreus passaram a punir o infanticídio com pena de morte. Entre outros povos, como os fenícios e filisteus e mais recentemente entre tribos da África Central, crianças eram sacrificadas em rituais de purificação. Na civilização greco-romana o pai poderia sacrificar o filho recém-nascido caso julgasse que o bebê fosse um problema para a família. Os bebês assassinados com mais freqüência eram as meninas, os prematuros e as crianças com sinais de alguma deficiência física. Curiosamente, essa mesma civilização fez surgir as primeiras noções de puericultura, como as medidas de higiene e o estímulo ao aleitamento materno. Hoje isso nos parece absurdo, porém, à época, era visto como algo moralmente aceitável.

Em nosso país, sofrimentos físicos foram imputados aos escravos até há pouco mais de 100 anos, período em que vozes ativas surgiram ao seu favor, ainda que o fato fosse considerado normal por parte da sociedade da época.

Mulheres de alguns países do Islã são meros objetos de seus maridos e estão à mercê de decisões arbitrárias e penas hediondas como a morte por apedrejamento, apoiadas pela Sharia. O mundo acha injusto? Sim, mas no passado e para alguns países isso ainda é justo.

Aos poucos a sociedade evolui contra qualquer forma de abuso físico e a legislação brasileira prevê o direito a inviolabilidade física, psíquica e moral da criança e do adolescente. Abusos físicos contra a criança perpetrados por pais já deveriam ser inaceitáveis por toda a sociedade, mas ainda é um assunto controverso. Muitos pais se consideram no direito de punir fisicamente seus filhos como medida de repreensão ou de educação. Abro os questionamentos para um brain storm:

- Os pais podem bater na criança a partir de que idade ?
- Podem bater em bebês ?
- Podem dar palmadas no rosto ou não podem ?
- Até que idade os pais podem bater na criança? Em adolescente podem?
- Podem bater em público ou só em casa?
- Os avós, os tios e as babás também podem bater ?
- Qual o limite lícito de força para as pancadas ou palmadas?
- O professor pode bater?
- Podem jogar contra a parede?
- Podem bater com objetos?
- Podem empurrar ? Podem beliscar?
- Quantas palmadas seriam lícitas?
- Quantas vezes por dia podem bater?

Depois de mais de uma década lidando com saúde infantil, sinto-me confortável em responder a pergunta que gerou esse artigo:

- Doutora, a senhora acha que dar palmada faz mal?

Eu não acho. Eu sinto. A resposta só pode ser poética, musical, passional, não científica. Para mim não é controverso, é uma evolução. No passado os abusos eram normais e sua condenação veio a partir de pessoas que elevaram sua voz em nome das crianças, que são indefesas e reféns dos adultos. O filhote humano é o que nasce mais dependente e que precisa de proteção por mais tempo dentre todas as espécies animais. Somos seres frágeis com um grande cérebro, que recebe marcas desde tenra idade.

Coloco-me entre os que são contra palmadas e toda espécie de arbitrariedade contra os direitos humanos, tenha o homem qualquer idade, sexo, etnia, orientação sexual, condição sócio-econômica e que tais. A criança não é propriedade dos pais, não é objeto, nem merece receber qualquer tipo de violência sob quaisquer alegações ou justificativas, não importa se a palmada deixe marca emocional ou não. Antes que os apologistas me perguntem: você é mãe?, respondo: A mesma opinião é partilhada por muitos pais, da mesma forma que pessoas que são ou não são pais acham as palmadas lícitas. Não é o fato de ser ou não pai ou mãe que determina a opinião de serem aceitáveis ou não as palmadas. Esse é um argumento espantalho.

Nossas convicções não aparecem ao acaso, são geradas a partir de experiência de vida e de nosso pensamento crítico. Conforme evidências, pessoas que não sofreram palmadas ou outros abusos de seus pais têm menos chance de agredirem fisicamente seus filhos. Após algumas gerações de filhos sem palmadas, alguém vai escrever um artigo histórico relatando até quando foi aceito bater em crianças, e espero que este tempo esteja chegando. Nem trabalhadores, nem mulheres, nem crianças merecem ser submetidos a abusos físicos com finalidade educativa ou punitiva.

O mundo precisa de amor, isso é urgente. Não estamos mais na savana, desenvolvemos mecanismos emocionais complexos, nosso cérebro evoluiu muito e tem capacidade elevada de estabelecer relações interpessoais. Mais do que nunca precisamos difundir o altruísmo, a capacidade de diálogo e de negociação pacífica, e isso começa com os laços genéticos mais fortes: em casa. A vida corre cada vez mais rápido, a pressa determinada pelas demandas da vida moderna está eliminando a cumplicidade entre pais e filhos.

Nas escolas não se usam mais palmatórias. Há meios de se formar um indivíduo, na verdade devem existir vários, sem que agressões físicas sejam requeridas. Restam aos pais, dentro de suas convicções, escolherem através de tentativas, erros e acertos, o melhor “método” de participarem da formação de seus filhos.

.:.

* Correção feita pelo leitor Esdras :)))  Eu havia trocado as bolas, dando o crédito do vocábulo ‘imexível’ ao Lazaroni. Obrigada Esdras!

LEITURA RECOMENDADA:

(1) Estatuto da Criança e do Adolescente – Senado Federal

(2) “Análise da Violência contra a Criança e o Adolescente segundo o ciclo
de vida no Brasil - Conceitos, Dados e Proposições”, de Helena
Oliveira da Silva e Jailson de Souza e Silva, uma publicação da Unicef
e Global Editora, 2005

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35 comentários

  • koi : -

    Palavras sabia, Meire.
    Muito bem escrito o “ensaio”.

    Continuamos lendo, sempre que publicado algo.

    Arabella, Christopher, Lucca e Theo.

  • Esdras : -

    Como sempre, linda, você foi perfeita… Apenas um detalhe, o nome do ex-técnico da seleção brasileira que você citou é Sebastião Lazaroni e não Lazarone, e acho que você quis parodiar o ex-ministro neologista de Collor, o hilário Rogério Magri (que além do neologismo “imexível”, também imortalizou a expressão “Animal também é gente”, ao justificar o uso de viatura oficial para transportar sua cadela de estimação ao veterinário… De resto, bater é digno e típico do neolítico!!! hoje podemos lesar mais com cliques de um mouse!! bjs!

  • Carol Kyze : -

    Lindo texto, Meire, vindo de você não poderia ser diferente.
    Beijos!! ;)

  • Meire Gomes : -

    Esdras, obrigada pela correção, a memória nos prega peças. Eu estava certa que o Lazaroni era o autor da pérola. Foi ele quem falou o clássico ‘vocês vão ter que me engolir?’. Assumo minha total ignorância em assuntos futebolísticos, hehehe.
    Arabella, você e o Christopher são um exemplo de pais.
    Carol, parabéns pelo seu aniversário :D

    Um bom restinho de final de semana a todos!

  • Esdras : -

    Oi Meire… não dá pra saber tudo, né mesmo?? rs… o “vocês vão ter que me engolir” é bordão do finado Jorge Lobo Zagallo… o mais famoso e sortudo técnico da seleção, que foi penta campeão (2 como jogador em 58 e 62, e depois como técnico de 70, quando pegou o barco pronto quando o João Saldanha saiu ao bater de frente com o generalíssimo Médici (o homem não tinha medo da morte!!), e depois como membro da comissão técnica de 94 e 98… Se precisar de assessoria técnica para assuntos extraordinários, estou a seu dispor!! rs :)

  • Daniel Duarte (Daniboy) : -

    faz dodoi.
    :~(

  • José Maciel Neto : -

    Querida Meire,

    Que texto MARAVILHOSO!!!!
    Somente uma pessoa com tanta sensibilidade para expor de forma tão clara toda a violência que atos vís podem causar numa criança, quer seja fisicamente ou psicologicamente. Particularmente, concordo com você que uma boa conversa, juntamente com amor, carinho, abraços, beijos e muito afeto são capazes de educar muito mais que palmadas. Também acho que numa família onde as pessoas se respeitem e onde as diferenças sejam discutidas abertamente não há lugar para a violência - esta nunca seria uma alternativa!!!

    Abraços,

    Maciel Neto

  • e.ferr : -

    amo chicotes

  • aparecidaaranha : -

    Parabéns pelo texto! Esse eu vou encaminhar pra mil pessoas, é perfeito!

    Só muito, muito amor e a presença constante dos pais, dando referências e limites quando necessários, podem orientar as crianças, sem que seja preciso machucá-las, ferí-las.

    Bjs, Dra, vc é dez!

  • Eduardo Velasco : -

    A pergunta começou com palmadas, passou para surrar, bater, espancar, entrou psicólogo no meio, mandaram ler o famoso livrinho com a lei e tudo, encaminharam-me para leitura obrigatória de teorias psicológicas. Entrou até a Isabela no meio! Passaram por coisas como se tio pode, cunhada não, bater no rosto, etc. Botaram todos os gatos do mundo num saco chamada “palmadas”, enfiaram uma meia dúzia de marimbondos dentro e a questão bem simples, singela (se eu posso dar umas PALMADAS) virou uma monstruosidade, Posso ou não dar umas palmadas no sentido tradicional e óbvio do termo, sem a multidão de ilações feitas? Sim, no bum-bum do meu filho e calibradas para doer um pouco? Atenção: antes que tomem a palavra palmadas e doer e enfiem nela o universo de idéias que li e não além disso aí que eu escrevi, erraram. Estou pensando em palmadas no sentido tradicional, sem os desenhos imaginários de pancadaria, etc. Assim, para dar um exemplo: meu filho Timóteo, 6 anos, (bons tempos!) jogou o leite no sofá de propósito. “Timóteo, não faça isso!” (sem o uso do chamado método decibel, se me entendem). E completei: “limpe o que vc fez.” Resposta: “NÃO!!!” Dei-lhe duas boas palmadas, bem calculadas, no lugar certo e doeu na medida. Nunca mais jogou leite no sofá. Agora, projetar isso aí em tudo o que eu li acima me parece corroer o bom sentido da disciplina (via método, palmadas). A propósito, quem não está pronto para levar umas palmadas (no sentido que dei à palavra!) é melhor não enfrentar as “pancadas” que a vida nos dá. Em tempo. Timóteo é pai e deu as mesmas palmadas que levou no filho Christian quando este disse que queria porque queria o tal ovo de páscoa! Vocês já viram isso em supermercado?

  • Fabio : -

    Quero meu minuto de volta.

    Belo comentario Eduardo…

  • Meire : -

    Provavelmente o filho do Christian também vai levar palmadas, e talvez o neto também. Já na minha família é diferente; isso não significa que uma família seja melhor do que a outra, é apenas uma discordância de limites em UM quesito da relação pais-filho. Eu não acho que um pai tenha direito de dar palmada no seu filho, você acha que tem, desde que seja uma dor na medida certa. Curioso uma pessoa saber qual a medida da dor que uma outra pessoa “precisa” para ser educada ou punida.

    Será que era intenção da mãe do garoto M quebrar seu braço? Penso que não. Ela não soube a medida da dor na hora, calculou mal a palmada.

    Por esse raciocínio (”dor na medida certa” como meio de educação ou punição) o marido poderia bater na mulher e vice-versa, bem como o patrão poderia bater no empregado e no entanto isso não é aceito. Não acho que a criança seja menos importante que um adulto, nem que seja incapaz de entender algo sem levar uma palmada.

    As crianças são muito mais do que os adultos pensam, IMHO.

  • Esdras : -

    Uma reflexão a respeito do que o Fábio escreveu… Não querendo defender qualquer palmada ou agressão, mas na pele de quem é pai e para que não “apedrejemos” moralmente os genitores, que seguindo seus ditames internos, aliados a conselhos sábios como o do prof. Içami Tiba (que não defende palmadas, mas as entende no sentido de “limitador físico” quando nossos filhos realmente testam nossos limites até o extremo, porque isso faz parte da natureza humana). Meu avô espancava os 6 filhos mesmo que em algumas situações eles nem soubessem bem porque estavam apanhando… Meu pai sapecou-me tapas esporádicos e mesmo uma ou outra “lapada” de cinto… Mas em proporção infinitamente menor do que recebeu. Eu mesmo já dei sim alguns tapinhas quando tudo mais falhou e, como sabemos, ameaçar e não cumprir é tremendamente desmoralizante. Meire, você está certa na essência… Mas por mais longe que estejamos da savana, uma parte da savana vive dentro de nós, pronta para mostrar garras e dentes, e não será apenas uma rápida evolução de 2 ou 3 gerações que fará que nossos impulsos primais sejam abolidos, por mais que nosso superego funcione bem. Devemos evitar ao máximo de nossas forças a punição física, e confesso que sempre me senti mal depois de um tapa aplicado, mesmo quase indolor e por mais esporádico que fosse, mas sei também que não sou nenhum monstro, mas humano, e assim como hoje sei que meu pai fez o melhor que pode, e o amo por sua evolução, espero depois ser avaliado por uma somatória positiva, afinal, a maior obra que deixamos na terra, principalmente para os não religiosos, é atingir a “imortalidade” através de nosso DNA, passado a nossos filhos, que como seus portadores merecem o melhor de nossos esforços.

  • Esdras : -

    errata: onde está escrito Fábio, leia-se Eduardo!!! rs

  • Meire : -

    Esdras,
    A mãe do menino que citei acima não tinha intenção de machucá-lo. Não acredito na ma fé dos pais e mães na maioria das vezes, e não me dirigi em momento algum a ninguém como ‘monstros’; deixei bem claro que é apenas a minha opinião. Eu não concordo com palmadas, e muitos concordam, todos temos nossos argumentos e motivações.
    Violência não é ensinada, é um comportamento instintivo, adaptativo. Uma criança de 10 meses é capaz de dar um tapa forte no rosto da mãe sem ninguém ter ensinado isso, ela deve ser ensinada a não bater. Bater ela sabe. O comportamento ‘violento’ vem sendo modulado ao longo dos tempos por meio de imitação, e isso só ocorre porque algumas pessoas vão sendo do contra, o homem também é um animal moral. Se ninguém fosse contra palmadas ainda teríamos palmatórias nas escolas, e isso não deixou de ocorrer há tanto tempo assim.
    Vemos isso com avós. Muitos bateram em seus filhos mas não admitem que os filhos batam nos seus netos. Não bater não faz parte do nosso pool genético, não depende de milênios para mudar. É algo comportamental a priori, a legislar, praticamente como usar cinto de segurança. Depois das multas, todo mundo usa.
    Se antes era aceito uma dada agressão, hoje não é. Hoje muitas pessoas não aceitam que seus filhos levem palmadas (como os pais e mães que postaram acima), e talvez amanhã muitos outros também não aceitem (ou não, não podemos prever com certeza).
    Se gosta do assunto Evolução, um livro excelente é ‘O animal moral”, de Robert Wright. Prima por deixar bem claro que a evolução não tem um propósito.

  • Meire : -

    Esdras,
    Você citou algo bem interessante, o teste de limites. O homem precisa demarcar seu ‘território’ e quando a criança se percebe alguém e não uma parte da mãe ou do pai, assume - generalizando - um comportamento desafiador. Eles testam mesmo os limites dos pais. Isso faz parte do desenvolvimento do sujeito. Se os pais conseguem superar o desafio, não batem. Obrigada pela sua intervenção.
    Abraço !

  • Hayanne : -

    esdras na ssua propia familila da pra ver que acontece mudançass nas gerações voce nao bate nos seus flhos como seu avo batia parabesn

  • Esdras : -

    Meire,

    Desculpe minha curiosidade, mas você tem filhos? Se tem, passou alguma vez situações “limite” com eles, não? Quando estão no auge de situações desafiantes, delimitantes ou em ambientes onde acham que podem manipular os pais (cenas em locais públicos, na frente de avós superprotetores, etc…) Você tem que contar até 20 ou 30 senão o troglodita emerge com tudo! Principalmente se for num dia onde você esqueceu de pagar a fatura do cartão, e chega em casa descobrindo que a empregada queimou o jantar… Posso estar forçando a barra, mas minha teoria é que acertamos no atacado, errando muito no varejo, sabia?? Também acho que chegará o dia em que será curiosidade histórica a época em que ainda batíamos em nossos filhos, mas temo que será um tanto mais tarde do que gostaríamos, pois agora mesmo folheio a newsweek desta semana onde a capa é sobre a crise mundial de alimentos, com explosões de revoltosas multidões famintas na Ásia, África e partes da América e Oriente Médio, nos esfregam a violência maior das desigualdades absurdas, da pobreza absoluta e da ausência total de qualquer direito básico entre nossos irmãos, com crianças morrendo como moscas, sob nossa indiferença e impassividade… Mundo cão! (com todo respeito aos cães!) Abraço!

  • Esdras : -

    Hayanne,
    Eu vejo isso como uma evolução natural, mas sei que os desafios sempre vão estar presentes… Faço de tudo pra não usar recursos físicos, e espero que meus filhos usem ainda menos. Mesmo não sendo nada perfeito, tento ser o melhor que posso. É nossa obrigação, não?? Os psicólogos dizem que funciona mais o reforço positivo, ou seja, elogiar uma ação boa, do que punir uma ruim, principalmente com violência… Na teoria é lindo, mas temos que suar pra colocar em prática… Abraço!

  • Meire : -

    Esdras,

    Pode perguntar a vontade :)
    Primeiro, eu fui uma filha trogloditinha capeta destroyer,testei absurdamente todos os limites dos meus pais e não levei palmadas. E tenho muitos, mas muitos pacientes que são piores do que eu era e também nunca levaram palmadas de seus pais.
    Eu perdi minha menina, hoje ela teria 11 anos. Se ela fosse capetinha, eu faria como minha mãe fez comigo. Iria respirar ar puro na janela.
    Não nego - até por falta de elementos - que uma palmadinha eventual não traga problemas emocionais para a criança. Mas isso não é importante para outorgar a outra pessoa o direito de bater nela. A criança deve ter o mesmo direito adquirido por outras minorias. Mas isso é uma questão de tempo. Você não fez com seus filhos como seu avô fez com seu pai, isso é ótimo.

    Abraço grande!

  • Eduardo Velasco : -

    Peço esclarecimentos (à banca). Eu li: “…Não nego - até por falta de elementos - que uma palmadinha eventual não traga problemas emocionais para a criança….” E, antes : “…Eu não concordo com palmadas.” Salve melhor juízo, ambas declarações foram feitas pela mesma pessoa. Eu pensei que Meire era 100% contra qualquer tipo daquilo que eu vou chamar (para o meu próprio consumo) de: ‘movimento-físico-de-natureza-tal-com-vistas-a-estancar-um-ato-comportamental impróprio’ (para ser politicamente correto). Mas, novamente, salvo melhor juízo, Meire abre exceção? (”…palmadinha eventual…”. Então, vivas!

  • Virgília : -

    Meire

    Tenho lido sempre seus comentário e voçê está de parabens.
    Se cada um de nós ao inves de bater conversar a violência já começaria a diminuir de casa, vamos pensar nisso?

    Um grande abraço

    Virgília

  • Valdenice : -

    Repudio qualquer tipo de violência contra qualquer ser humano, principalmente, contra as crianças indefesas que buscam nos adultos, nos seus pais, um porto seguro. Existem vários meios de impor limites a uma criança e o adulto suficientemente inteligente precisa aprendê-los e adotá-los. Muitos adultos descontam suas frustrações em pessoas que não têm culpa e nestes momentos de raiva e rancor machucam crianças.

  • Meire : -

    Eduardo Velasco,

    Talvez você não tenha sido atento o suficiente ou eu não tenha sido clara. Quando iniciei o texto eu citei que a pergunta que as pessoas se fazem é ‘palmadas fazem mal?’ e que essa questão é meramente acadêmica. Uma resposta satisfatória não resolve o problema, provavelmente não tenha impacto populacional e que a pergunta a se fazer é outra: alguém tem direito de bater em uma criança?
    Independente de uma palmada gerar ou não um trauma emocional na criança - isso fica claro no meu texto - isso não muda em absolutamente nada o que penso em relação ao direito de um pai, um avô, uma professora ou uma babá dar palmadas em uma criança.
    Em suma, eu não concordo com palmadas porque acho que nem criança nem ninguém precisa sentir dor ou ser agredida de qualquer forma para ser educada ou punida, independente das palmadas gerarem ou não consequencias futuras.

  • Eduardo Viana : -

    É isso Dra. Meire,

    Este também é um assunto muito polêmico. Seus pensamentos e convicções, penso eu, são bastante interessantes. Entretanto, em que pese tantas notícias de violências contra crianças, também penso que a sociedade tem melhorado nas tratativas de pais-filhos. Parece um certo parodoxo, tantas notícias de violência contra crianças e uma certa evolução nas relações atuais do pais com seus filhos, sobretudo, se compararmos com as histórias de nossos pais e avós.
    Ainda escuto algumas pessoas mais velhas dizer: apanhei muito de meu pai e não deixei de amá-lo. Pessoas idosas que choram ao se lembrar de seus pais que se foram há muito tempo.
    Assim, concordo de que o mais importante é ter que suar para colocar em prática o exercício do diálogo e do exemplo. Torço por isso.

    Eduardo Viana

  • Meire Gomes : -

    [Perdão, Velasco, eu postei antes de terminar]
    Em fóruns de discussão é comum que pessoas selecionem argumentos e repudiem totalmente argumentos contrários às suas opiniões. Seria desonestidade intelectual completa um profissional de saúde usar sua ‘autoridade’ e dizer, por exemplo, que é cientificamente comprovado que palmadas raras causem danos psicoafetivos em crianças. Se reler o texto vai ver que não me amparei nisso para defender meu ponto de vista. Eu disse que a minha resposta à pergunta da mãe só poderia ser passional, não científica. E a motivação argumentação é totalmente baseada no direito da criança e no estímulo ao diálogo e à negociação pacífica. E quem dá palmadas sem pensar direito no que está fazendo, ao ler o controverso é convidado à reflexão e à revisão de seus atos rotineiros. É para isso que servem as discussões em grupo, várias cabeças pensam melhor que uma.

    Abraço!

  • Meire Gomes : -

    Eduardo Viana,
    Usamos o termo evidência-anedota quando estudamos casos individuais e os estendemos à população geral. Da mesma forma que muitos filhos que foram criados ‘em baixo do chicote’ amam verdadeiramente seus pais (não só temem) muitos guardam mágoas profundas. Esse é o ponto que faz essa questão ser irrelevante para a discussão em tela. É difícil ter uma resposta definitiva para os danos/não danos de palmadas: para cada caso feliz encontraremos casos negativos porque as consequencias de atos não são estudados isoladamente. Tudo muda com o perfil de resiliência de cada pessoa, com outras variáveis. Por isso a questão deve pender para o direito, tão somente para o direito. Enquanto a sociedade perde tempo definindo se palmada faz ou não faz mal, a definiçao do direito da criança de não ser punida ou educada pela dor vai sendo deixada em segundo plano. Foi esse meu foco.
    Obrigada pela visita !

  • Clemente Neto : -

    Prezada Meire :
    Te conheço desde março 88 quando entramos na universidade no curso médico , sempre ouvi e vi suas posições frente a situações polêmicas , achei brilhante sua posição de defesa frente a violência contra as crianças. Se alguém defende palmada como medida educativa , isto denota como estes pais demonstram a falta de civilidade e educação para criar seus filhos . Continue assim , a defender e apresentar opiniões civilizadas a esta sociedade tão despreparada a lidar com uma questão elementar na vida , o afeto.

  • Eduardo Velasco : -

    Prezada Meire,

    Acho que entendi um pouco melhor o seu ponto de vista. Reli seu artigo e deixei-me levar pelo título. Muito embora eu devesse ter observado melhor que a questão, bem lembrada e pertinente, fosse sobre o DIREITO DE — “alguém tem direito de bater em uma criança?” — e com a ênfase: “… por isso a questão deve pender para o direito, tão somente para o direito”, o que só agora me faz relembrar de que a Lei 8049/1990 foi logo colocada abaixo do título. Eu notara, também, que muitos (não todos) daqueles que postaram as respostas me pareciam inclinar para o dia a dia da disciplina, e, no meu caso, a questão das palmadas. Me ative a esta palavra, e tão somente a ela. Concedo então a você o benefício de ter-me lembrado de que seu artigo não era para ser lido por aí, o que agradeço. Como nosso DIREITO (estou tomando a palavra strictu sensu)ainda não classificou “palmadas” dos pais aos filhos menores (como eu a defini, perante seus leitores, para me fazer entender) como ofensa (sentido legal do termo), vou aguardar e torcer para que o Estado (lei) me diga até onde e o que eu posso ou não fazer, de modo que a liberdade dele (em legislar) não atinja o direito meu (de pai). Foi uma visita cordial!

  • Meire : -

    Eduardo Velasco,
    É sempre bom destrinchar argumentos, quem escreve procura muito mais ser compreendido do que mostrar uma opinião aceita por todos. Foi um ótimo debate.

    Neto e todos os médicos pais e pais não-médicos :D que postaram,
    Há um projeto antipalmadas tramitando, mas não sei em que pé está.Parece que a criança vai ser a última minoria a ser defendida desse tipo de disciplina/punição, mas nunca é tarde.

    Bom dia a todos.

  • A Pedra_* : -

    Estava lendo os comentários,belos por sinal.
    Mas ai me vem uma pergunta: e o que fazer quando a criança tem 73 anos e cada dia regride mais e mais? é uma situação dessa que lá na minha casa convivemos.Dai meus amigos,Chinelos,palmadas nada,nadinha resolve.Nem a paciência. Por que O alzhamer, é pior que criança mal criada. Então ai é que entra a verdadeira paciência é o verdadeiro amor.
    Belo texto

  • Eduardo Velasco : -

    “…Há um projeto antipalmadas tramitando, mas não sei em que pé está.” Trata-se de Projeto de Lei 2.654/2003 de MARIA DO ROSÁRIO (deputada federal, PT/RS). Foi aprovado na Comissão de Constituição e Justiça. Não está na agenda do Senado Federal para votação, no momento.

  • Paulo Maia : -

    Prezada Dra. Meire,
    Como Juiz de Direito já me deparei com essa questão colocada por pais diversas vezes em audiêcias que presidi. Fiquei muitíssimo satisfeito em ler seu artigo porque é exatamente o que penso, assim como a imensa maioria dos Juízes que atuam na área da Infância e Juventude. Os pais que batem em seus filhos, palmadinhas que sejam, são eles sim incapazes de impor limites aos seus filhos por meio de outra técnicas civilizadas. A evolução do Direito na humanidade fez com que, por exemplo, as penas deixassem de ser aplicadas privativamente pelas pessoas (alguém me furtou, eu descubro quem foi e vou lá resolver - o tal “fazer justiça com as próprias mãos”) e passassem a ser aplicadas pelo Estado (leia-se Poder Judiciário), e por isso, mesmo os criminosos confessos dos crimes mais horrendos são submetidos a um julgamento após ampla defesa em um processo criminal. E isto vale para todos, pois vivemos num Estado Democrático de Direito, regido por leis e não por meras vontades de quem se acha com direito de agir da maneira que pode. Da mesma forma, acredito eu, a educação evoluiu para que mesmo os “pestinhas” possam ser limitados através de técnicas psicológicas várias (será que ninguém assiste a “Super Nanny”?), ao invés de agressões contra um indefeso. Em suma, nas minhas decisões e da imensa maioria dos Juízes que trabalham na área, o agressor da criança (ainda que com palmadas) é o grande culpado pela sua própria incapacidade de impor os limites de forma civilizada, pra mim, pessoalmente equipara-se a um “homem das cavernas”, pré histórico na sua forma agressora de educar. Parabéns, mais uma vez, Dra. Meire, seu artigo, com certeza, será mu ponto de partida nas minhas próximas audiências e palestras. Em tempo, nunca apanhei de meus pais, da mesma forma, nuca bati em minha filha Sofia.

  • Silvia Cury : -

    Meire, parabéns por suas convicções pessoais. O debate acima foi bastante interessante. Acho o bom senso fundamental para quem cria os filhos. E palmadinhas, no começo para dar um certo limite, serão tapas mais fortes depois; e mais tarde gritos (sem susurros) acompanhados de “lutas livres”! As crianças crescem e então optam pela rua e o tal do limite nunca mais.
    Se um ET cientista viesse ‘a Terra e nos visse dando palmadas em nossos filhos, eles achariam estranho baterem no próprio DNA!
    Beijão pro cê.

  • Ricardo : -

    Olá doutora.
    Há tempos estou lhe devendo um comentários pelos excelentes artigos.
    Escolhi esse pq, como filho de “bons cearenses”, tomei muita bordoada qdo criança… e até mesmo com 13 ou 14 anos, qdo já tinha 1,90 mt e minha mãe só 1,50 mt, acredite.
    Não sei se foi certo ou errado, não quero fazer julgamento, mas o fato é que, no meu caso, o resultado foi positivo.
    Um abraço e sucesso.
    RICARDO
    ricardoazevedo61@gmail.com

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