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Lucas Mafaldo

Lucas Mafaldo - lucasmafaldo@digizap.com.br

Cultura e debates

Tradutor (inglês) e escritor; mestrando em filosofia pela UFRN; diretor do Aristoi, site e editora sobre educação. Reúne seus textos no site www.lucasmafaldo.com.

Completando o silogismo

segunda-feira, 25/fevereiro/2008

Dizem que St. Alberto Magno, o grande filósofo medieval, costumava repetir que não é que as pessoas não saibam completar o silogismo – é que elas não acreditam no resultado.

Venho propor um pequeno experimento filosófico: completarei um pequeno silogismo que certamente estará presente nas próximas eleições, e deixo ao leitor escolher se acredita no silogismo ou se prefere a retórica dos políticos. Aproveitem: não é todo dia que se tem a oportunidade de testar a teoria de um santo.

“Silogismo” é a maneira chique de chamar um encadeamento lógico, do tipo “se isto é assim, então aquilo é assado”. Bom, mas eis o raciocínio que proponho:

O leitor já sabe que as coisas materiais desse mundo têm um custo. Quando um garoto pede para a mãe um novo videogame, o moleque pode até ganhar o brinquedo de graça, mas a mãe terá que bancar a brincadeira.

Eis nosso primeiro pressuposto: tudo tem um custo.

E de onde a mãe vai conseguir o dinheiro? O leitor concordará comigo que só existem duas alternativas: ou alguém lhe dá de graça ou ele precisa trabalhar para ganhá-lo.

Eis nosso segundo pressuposto: para ter dinheiro, ou você trabalha ou você o recebe de outra pessoa.

Agora, vamos estender nosso raciocínio para a política. Estamos sempre ouvindo os políticos dizendo o que farão por nós – criarão empregos, melhorarão os hospitais, ajeitarão as estradas, blábláblá… -, mas nunca ouvimos falar de onde eles tirarão dinheiro para isso. No entanto, sabemos do nosso primeiro pressuposto que tudo tem um custo; cabe, portanto, a pergunta: quem paga pelas promessas dos políticos?

Sabemos também, pelo nosso segundo pressuposto, que só há duas maneiras de ganhar dinheiro: ou alguém lhe dá ou você trabalha para ganhá-lo. Sabemos que o governo não exerce serviço algum que lhe gere dinheiro – pelo contrário, o pouco que fazem consome dinheiro. O que nos deixa com a segunda opção: o dinheiro que pagará as promessas dos políticos não será ganho por eles, e sim, lhes será dado por alguém.

Bom, mas aqui temos um problema: quem é doido o suficiente para dar dinheiro ao governo? Voluntariamente? Ninguém, é claro. No entanto, somos todos obrigados a fazê-lo através dos impostos.

Com isso, podemos concluir o nosso silogismo:
- O governo diz que fará algo por nós;
- Tudo que o governo faz é com nosso próprio dinheiro;
- Logo, o que os políticos estão realmente dizendo é que eles devem decidir como o nosso próprio dinheiro será gasto.

Eis o silogismo, prezado leitor. Se acreditares nele, ao ouvir os discursos das próximas eleições, farás como eu e, ao fim de cada promessa de campanha, irás completar mentalmente o silogismo que vimos acima. Depois disto, você saberá que podemos completar todo discurso politico com a seguinte frase: “… e é por este elevado motivo que preciso urgentemente enfiar a mão nos seus bolsos!”.

Nessa hora, querido amigo, olhe ao seu lado e veja a multidão de aplausos confirmando a teoria do grande Alberto.

17 comentários

  • Gabi du Gato : -

    nunca parei pra pensar assim

    deu raiva!

  • Bianca Rangel : -

    ou seja, estaremos escolhendo quem e como vao gastar nosso dinheiro! Questao de extrema valia para nós! Parabens pela coluna!

  • tito torres : -

    É o escamoteado contrato social. Abrimos mão de nosso bolso para que os nossos eleitos possam administrar financeiramente o Estado a fim de promover o nosso bem estar economico e social. Portanto de olho neles antes durante e após mandato. Desta forma o silogismo poderá ser completado, ao menos que ….deixa pra lá,
    Melhor acreditar no resultado.

  • Fábio de Cristo : -

    Bom trabalho, Lucas!
    Sucesso pra vc e pra sua coluna digi.
    um abração.

  • Gustavo : -

    O grave é que eles enfiam as mãos nos nossos bolsos de todo modo. O silogismo correto é:

    o político “R” ou “M” está ligado a grupos economicos…

    politico ligado a grandes grupos economicos, salvo se for muito preparado, não governa para o povo…

    o político em questão não merece o meu voto.

  • Marcelo Menezes : -

    Grande Mafaldo, parabens pelo texto, e vida longa ao tortuoso silogismo que sao os nossos destinos pelas escolhas da vida. Grande abraço

  • Felipe Lopes : -

    Parabens pela coluna Lucas.
    Sucesso!
    Abraco.
    Felipe Lopes - RJ

  • Mauricy : -

    Oi Lucas!
    Parabéns pelo seu artigo.
    Muito claro e bem explicado. Mostra o engodo que caimos a cada eleição. E o pior é que depois os politicos falam: eu fiz isso, eu fiz aquilo. Mas não dizem que fizeram as obras, com o nosso dinheiro e de maneira geral por um custo muito superior ao que fariamos.
    abraços
    Mauricy

  • Adalberto de Queiroz : -

    Caro Lucas,
    Que bom sua arena ter-se ampliado.
    Acho muito importante o trabalho que você tem feito contra a corrente vermelha e de manipulação esquerdista que se vê no Brasil. Eu, que já me curei dessa doença juvenil, sei o quanto é importante alguém no Brasil de hoje fazendo o que você faz.
    Receba meu incentivo e apoio.
    Abraço fraterno do
    Adalberto.

  • Eudes Rocha : -

    Raciocínio simples e conciso! Parabéns Lucas.

    Veio à mente agora mais um ponto a salientar nesse raciocínio. Quando você diz “quem é doido o suficiente para dar dinheiro ao governo? Voluntariamente? Ninguém, é claro. No entanto, somos todos obrigados a fazê-lo através dos impostos”, você está mais do que certo, com a ressalva de que existe alguns que realmente dão dinheiro ao governo, mais precisamente aos candidatos, e não ao governo em si: os grandes grupos que financiam os milhões da propaganda política. Mas, como você disse, realmente não é dinheiro dado, e sim emprestado. No final das contas, o grande grupo que financiou a propaganda vai tirar grandes vantagens por trás do candidato eleito. E esse é um dos pontos principais de onde começam a surgir as falcatruas que se vê vez por outra nos meios de comunicação.

  • Nicolau : -

    Sem querer ser chato mas… o que há de novidade nisso? Todo mundo sabe que o dinheiro gasto pelo governo (no qual escolhemos por voto) vem dos nossos impostos…

  • Conrado : -

    Amigão, se você não percebeu a função do Lucas é falar sobre filosofia de forma fácil, com exemplos de fatos cotidianos. Todo mundo pode até saber sobre isso, mas a idéia dele aí foi falar sobre o silogismo. Filosofia não é uma coisa pra qualquer cabeça, se ele não começar “treinando” a dos leitores dessa forma e escrevesse algo mais aprofundado todo mundo ia chamar a coluna do cara de chata e blábláblá. Mas enfim… acho que encontrei algo aqui que você vai achar mais legal de ler: http://pt.wikipedia.org/wiki/Silogismo

  • Lucas Mafaldo : -

    Prezados,

    Agradeço por todos os comentários e os ótimos votos. Que bom que gostaram da primeira coluna.

    Vou me esforçar para que as próximas sejam ainda melhores.

    Até a próxima e um grande abraço,
    Lucas

  • Bruno Rebouças : -

    Grande Lucas. Fico muito feliz em saber que você está passando para dezenas de pessoas seus conhecimentos. Me sinto lisojeado por ter convidado quase diariamente com você, por mais ou menos dois anos. Fico meio chateado, pois a Digizap ‘roubou’ uma idéia minha para um site que estou concluindo com amigos, mas você se divide em dois? rsrs.
    Fico mais feliz ainda, pelo simples fato de ver que de tanto insistir seus textos diminuíram, de dez laudas para uma. rs.

    Do mais parabéns e vejo que a cada texto você se torna mais claro e objetivo em seus textos. Transforme-se em jornalista, você fará sucesso.

    Abraço, Bruno.

  • geraldo : -

    Grande Lucas,

    Fiquei feliz por mais essa janela que se abre pra mais gente se beneficiar da sua clareza e simplicidade no tratar temas da maior relevancia mas nem sempre de facil exposição.
    Desejo-lhe sucesso na nova empreitada e já antevejo o proveito que os novos leitores poderão tirar de suas analises didaticas e eficazes.
    Parabéns e um abraço.
    Geraldo Correa Filho, SJDR, MG.

  • Cilzete : -

    Parabéns :
    Esclarecer com detalhes nunca é pouco , sei bem que a mente Brasileira é bastante esquecida só basta passar 4 anos que já nem sei mais o que passei então ,legal relembrar .

  • Wilton : -

    Assim, eu sou fraco filosoficamente falando, estou estudando o assunto, devagar e sem pressa para poder falar, mesmo assim, pelo que li do texto ele me PARECE MUITO COERENTE.

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