“Tudo que toco é verdade e emoção”

Existem duas categorias de artistas que se parecem muito: músicos e jogadores de futebol. Algumas semelhanças? Diante da falta de condições de conseguir ascensão pelos, a música e o esporte encurtam o caminho. Dessa forma muitos que se dão bem vem de origem humilde. Por virem de origem humilde, muitos não tem boa estrutura familiar, se deslumbram com as possibilidades que o dinheiro compra. Por não saberem lidar com o dinheiro, a fama e tudo que vem junto, facilmente são enganados. Ou se enganam ou se deixam enganar. Muitos não suportam o fardo que a mudança de vida provoca e sucumbem. Sucumbir pode ser entendido de diversas maneiras, a mais trágica é a morte, muitas vezes pelas próprias mãos. Mas isso não é exclusivo de pobres, pessoas ditas estruturadas financeiramente também estão sujeitas a chegar ao fundo do poço.
Uma figura que se foi recentemente é um bom exemplo disso: Michael Jackson. No momento não se pode afirmar como ele se foi, não se sabe nem se já foi enterrado. O que todos sabem é que acumulou dívidas, processos e no fim sua obra não brilhava como no início. Uma figura que morreu no auge foi Jimi Hendrix. Um dos que não suportaram o fardo do sucesso e todas as consequências que vieram junto, tal qual Kurt Cobain. Com apenas 27 anos Jimi morreu vítima de sufocamento pela ingestão do próprio vômito, provocado pelo uso de 9 comprimidos. Numa banheira, sem ninguém para ajudar, o gênio da guitarra morreu jovem e não pôde fazer tudo que queria.
Desde cedo Jimi aprendeu o que era a miséria, a violência e o descaso. Só veio conhecer o pai aos 3 anos, quando ele retornou do serviço militar. Lucille, a mãe alcoólatra, após o divórcio com Al hendrix, pai de Jimi, foi embora para nunca mais voltar. Se envolveu com vários homens, teve muitos problemas com bebida e terminou morrendo de tuberculose na completa miséria. Sem a figura materna, Jimi apanhava e era humilhado pelo pai. Mas tinha forças para proteger o irmão Leon.
Jimi abandonou a escola e passou a ajudar o pai como jardineiro. Ganhou do pai, depois de muita insistência, uma guitarra. Aprendeu a tocar e passou a se apresentar com algumas bandas de Seattle. Sem perspectivas resolveu se alistar no exército. Seria Pára-quedista. Era bom de mira e de saltos, mas após fraturar o tornozelo pediu para ser dispensado. Foi atendido e voltou a tocar em busca de dinheiro, dessa vez com o amigo Billy Cox, que era baixista e tambem foi dispensado do exército. Rodou por vários estados americanos tocando e se aperfeiçoando. Sempre observando e aprendendo. Em 1965 cometeu um erro que o perseguiria por toda a vida: assinou um contrato com Ed Chalpin, um contrato em troca de um dólar e alguns centavos por disco vendido. Mesmo após sua morte Ed assombrou o clã Hendrix.
O trunfo de Jimi estava em pegar a tristeza do Blues e revertê-la em riffs poderosos, que muitos outros guitarristas mais conservadores não entendiam. Com todos os músicos que Jimi tocava, sempre procurava aprender algo. Conversar com eles e os observar. Nunca foi arrogante e sempre se dispôs a tocar com qualquer um nos bares que frequentava. Nessa época de aprendiz, Jimi contou com a ajuda de músicos como o saxofonista Lonnie Young Blood. Entre as inúmeras mulheres que Jimi conheceu, Linda Keith deve ter sido a mais importante, foi ela que apresentou o músico a Chas Chandler, então baixista do The Animals. Chas sabia de suas limitações como baixista e resolveu sair da banda para trabalhar como empresário. Foi ele que levou Jimi para Londres e proporcionou a ele uma vida digna financeiramente e de sucesso musical.
Chandler sem possuir experiência necessária procurou apoio de Michael Jeffery, então agente dos Animals. Jeffery seria a segunda perna do tripé que levou Hendrix ao fundo do poço. A terceira perna foi o pai de Jimi, que nunca lhe deu apoio, mesmo depois do sucesso ter sido alcançado. Na época de vacas magras Al Hendrix humilhou Jimi, na época de quantias vultuosas lhe cobrou dinheiro. Jimi sempre que ia visitar a família em Seattle voltava desiludido com o pai. Alheio a isso Jimi conquistava a admiração de gente que já era grande quando ele surgiu: Beatles, Stones, Who, Eric Burdon, Jeff Beck, Eric Clapton… Foram muitas as vezes que Jimi incendiou bares britânicos e americanos em jams sessions.
Paralelo a tudo isso vieram os traficantes, as groupies, os amigos que só apareciam para pedir dinheiro, fornecer e consumir drogas, parasitas. Algumas pessoas tentaram ajudá-lo, mas em meio ao turbilhão em que se encontrava, a auto-ajuda não veio. Woodstock, Fillmore, Ilha de Wight, alguns dos festivais que marcaram a vida de Jimi. No fim da vida, angustiado pelas constantes batalhas judiciais (incluindo uma por posse de heroína no Canadá), pela humilhação constante do pai, pelas drogas e por parasitas ao redor, Jimi ingeriu 9 comprimidos, o número que ele acreditava representá-lo na numerologia. Número que acreditava ser muito poderoso, pro bem ou não.
Jimi Hendrix – The Man, the Magic, the Truth [A dramática história de uma lenda do rock, no Brasil] conta tudo isso e muito mais. Esquadrinha a vida do guitarrista com minuciosidade pela escritora Sharon Lawrence. Ela de jornalista se tornou amiga de Jimi, amiga em que ele confiava cegamente em qualquer momento da vida, fosse ele bom ou ruim. Como prova sempre ligava para ela para lhe pedir opiniões, convidar para gravações, shows, para almoços ou jantares. Muito do que consta na obra escrita por Sharon foi gravado em muitos encontros entre ela e Jimi. O livro não se resume aos dias de vida do astro. Vai até os dias atuais e mostra que as batalhas judiciais ainda prosseguem. Após o antigo empresário-carrasco de Jimi, Michael Jeffery, morrer em um desastre de avião, onde o corpo foi despedaçado, o direito sobre as obras de Hendrix caíram nas mãos de outros agentes que deturparam sua obra, fazendo inclusive gravações adicionais como se fossem originais. Por fim, através da justiça, os direitos sobre o legado de Jimi caiu nas mãos do pai dele, Al.
O que se viu então foi muito parecido com o que o pai de Michael Jackson também fez, se aproveitar da imagem do filho. Ganhou muito dinheiro com direitos autorais e vendeu a música e imagem de Jimi para toda e qualquer propaganda, ato que segundo Sharon Lawrence Jimi não concordaria. Com a criação da Experience Hendrix, que licencia todos os produtos relacionados ao astro, e com a impossibilidade de Al Hendrix tocar a empresa, tudo caiu nas mãos de Janie Hendrix, irmã adotiva de Jimi. Que terminou por tirar a herança de Leon, irmão legítimo de Jimi. Jeanie também enriqueceu com a empresa. Diante disso mais um processo apareceu na justiça, dessa vez de Leon contra Janie. A justiça não deu causa total a nenhum dos dois, ambos perderam.
O livro de Sharon Lawrence é carregado de sentimento. Muito pela amizade que ela desenvolveu com o músico e que provocava ciúmes em muitos ao redor do astro. Lawrence chegou a ter a vida ameaçada. Do dia em que a escritora conheceu por acaso Jimi, até sua morte, uma amizade profunda cheia de cumplicidade existiu entre eles. No livro Sharon ouve os dois lados da história. O dos que apoiaram Jimi, e o dos que ajudaram a destruí-lo. E ainda mostra dois personagens que ajudaram Hendrix a se tornar o que é: Mitch Mitchel e Noel Redding. Respectivamente baterista e baixista do The Jimi Hendrix Experience. Ambos tão jovens quanto Hendrix também se deslumbraram com a fama. Com a dissolução do trio tentaram outros projetos sem o mesmo sucesso. A família de Jimi, na figura de Al e Janie, também não pagou aos músicos as quantias corretas dos discos vendidos, mais uma vez processos se arrastaram na justiça.
Ao fim da saga que durou apenas três anos, de músico de apoio de bandas desconhecidas para maior guitarrista do mundo, a imagem que fica é de um garoto que ainda tinha muito o que mostrar, muito o que revolucionar. Tímido, de fala mansa, mas que quando subia no palco parecia possuído. Uma figura lendária que quando questionada sobre sua genialidade costumava responder: “Tecnicamente não sou um guitarrista. Tudo que toco é verdade e emoção”. A importância de Jimi Hendrix pode ser resumida na frase que proferiu Eric Clapton ao saber de sua morte prematura: “Era melhor que tivesse sido eu”.
A primeira edição norte-americana foi publicada em 2005 por HarperCollinsPublishers. Aqui no Brasil saiu em 2008 pela Jorge Zahar Editor Ltda que disponibilizou o primeiro capítulo em arquivo pdf.
Texto publicado originalmente no’O Inimigo.
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Tadinho…era bem AAs que ele tava tomando na banheira.