Quem precisa de um rei?
Muitos fenômenos em vários estilos da música no Brasil já surgiram e se perpetuaram no imaginário popular desde a época do rádio até os dias de hoje, onde surgem ídolos medíocres que desaparecem em meses. Muitos nomes e movimentos podem ser citados, desde o pessoal do samba, passando pela bossa nova, pela Jovem Guarda, Tropicalismo, BRock e os de hoje, cada dia mais voláteis. Mas nada supera, e nem irá superar, o rei. Ninguém irá marcar a música brasileira como Roberto Carlos e atravessar quatro décadas fazendo sucesso e em tempos de pirataria continuar vendendo discos.
A carreira de Roberto foi marcada por tragédias. Amputação da perna aos 6 anos de idade, glaucoma do filho Dudu Braga, morte de duas esposas, acidente de automóvel com vítima fatal e outros. Mas também foi marcada por perseverança, sorte, humildade, genialidade e manias estranhas. Manias que mostram um artista contraditório que começou a dar importância a elas quando começou a ganhar dinheiro, transformando-se em TOC (Transtorno Obsessivo Compulsivo). Alguns exemplos a seguir. Na época das vacas magras o rei não implicava com a cor marrom e com o mês de agosto, por exemplo. Estreou o programa Jovem Guarda neste mês. E não deixou de comprar roupas de cor marrom quando ganhou seu primeiro grande salário. Também não implicou, já depois de ter se transformado em grande cantor e compositor, com o maestro de Frank Sinatra que veio encontrar Roberto todo de marrom. Mas quando um pedreiro foi trabalhar com a roupa da mesma cor em seu estúdio teve que voltar para trocar. Se o Jovem Guarda começou em agosto, o rei queria cancelar uma temporada no Canecão por só ter datas neste mês. Como ele já era o artista consagrado, a casa mudou toda a escalação de eventos para atender Roberto. Outro misticismo de Roberto é com o número 13. Ele não marca nada nesse dia. Coincidência ele ter recebido duma freira, sua ex-professora na infância, o medalhão do Sagrado Coração de Jesus que ele usa há mais de 30 anos. E numa sexta-feira 13. Ele ia recusar? Tão católico como é? Se fosse Jason entregando…
Mas nem só misticismo e manias marcam a carreira do rei. Como todo vencedor ele teve uma boa dose de sorte e claro, perseverança. A sorte se deve ao fato do cantor ser conterrâneo de Carlos Imperial. Roberto se apresentou e foi Imperial que o levou a peregrinação pelas gravadoras. Sendo recusado em sete. Naquela época o rock estava em declínio com Little Richard convertido e se tornando pastor, Elvis no exército, Jerry Lee Lewis execrado por casar com sua prima de 13 anos, Chuck Berry preso por envolvimento com menores e Buddy Holly morto. Quem mandava na época era João Gilberto e Chega de Saudade. A peregrinação com Imperial foi como cantor de Bossa Nova imitando o pai da bossa nova. Depois de tantas recusas ele foi aceito na Polydor. Gravou um disco em 1959 e fracassou. Em 1961 a tal sorte surgiu quando Imperial foi a CBS e lá quem estava era Roberto Côrte Real, um admirador de Jazz e outros estilos finos como o próprio Imperial. A empatia foi imediata e Roberto Carlos gravou Louco por Você que vendeu 512 cópias. Diante de mais um fracasso não foi dispensado porque Sérgio Murilo, o cantor de ouro da gravadora, brigou com os produtores e foi ele que foi mandado embora. Apostando as fichas no fracassado, que levou não em sete gravadoras, a CBS ganhou muito dinheiro, já que Roberto vendia muito bem até para padrões americanos.
Os discos que mais gosto de Roberto estão nas décadas de 60 e 70. Uma fase de ouro que renderam as histórias mais interessantes. Desde sua entrada no programa Jovem Guarda nos anos 60, divisor de águas em sua carreira, até as baladas soul sexuais da década de 70, muita coisa importante aconteceu na vida de Roberto para torná-lo até hoje o maior cantor do país. Imbatível. Depois que a carreira deslanchou, Roberto não precisava buscar compositores, ele mesmo compunha com Erasmo e muitos outros ofereciam letras e músicas para ele gravar. Um dos maiores foi Carlos Colla. Advogado que atuava direto nas carceragens em busca de advogados presos pelo regime militar. Carlos Colla presenciou cenas assombrosas. Como a da jovem advogada que foi amarrada num pau-de-arara com um cano enfiado em seu corpo onde dentro tinha um rato, que passou a noite lhe roendo as entranhas. Ele terminou abandonando a vida de advogado e se dedicando a música exclusivamente.
Roberto também teve sacadas originais como aposentar os solos de sax e substituí-los por guitarra e órgão. O órgão de Lafayette. Como naquele tempo as notícias chegavam atrasadas, não dava para saber o que as bandas mundo afora produziam imediatamente. Mas algum tempo depois o mesmo estilo de tocar órgão apareceria em discos de bandas como The Animals, Zombies, The Doors e até em músicas de Bob Dylan. Muito do sucesso de Roberto se deve além de belas melodias, a letras pessoais, como Quero que vá tudo pro inferno, canção abolida de seus shows pelas palavras empregadas na letra. Essa música foi feita para uma namorada, Magda, que estava nos EUA. Foi a musa inspiradora da música responsável pelo estouro de Roberto e influenciou gente como Djavan, Fafá de Belém, Fagner, Zé Ramalho, Luiz Melodia e muito mais gente que depois viria a se tornar cantor. No mesmo ano que Quero Que Vá Tudo Pro Inferno estourou, também surgiram Help! (Beatles) e Satisfaction (Stones), ou seja, era um movimento mundial e se Roberto fosse europeu ou americano, era capaz de ter feito sucesso em todo mundo.
Roberto não fez música só para as namoradas, fez para a mãe, o pai, a tia, Erasmo, Caetano Veloso, Deus, Jesus, a religião, para caminhoneiros, mulheres de todos os tipos e até entrou em polêmicas como falar sobre amor inter-racial. Hoje pode não ser tão polêmico, mas na época era e muito. Basta lembrar o caso entre Arlete Salles e Toni Tornado que provocou uma grande discussão. Vez por outra Roberto se metia em polêmicas, as vezes por não se manifestar, as vezes por se manifestar contra. Ele sempre foi muito cuidadoso com as palavras e sempre deixou claro que não é um grande leitor. Durante a ditadura não se pronunciava. Quando questionado sobre sua vida sexual também não. Negou diversas entrevistas a revista Playboy. Mesmo fugindo de polêmicas, fez questão de entrar na que proibia a exibição do filme Je vous salue Marie de Jean-Luc Godard. Filme que mostra uma Maria, digamos, diferente da que consta na Bíblia. Isso foi durante o governo Sarney e Roberto ligou para o presidente para congratular sobre a proibição, atitude que causou em Caetano um repúdio público. O defensor de Roberto de outrora que quase apanhou de Geraldo Vandré por defender influências além das nacionais, virou opressor. A vida mais recatada que levava Roberto o livrou de uma situação grave durante a década de 60. Era muito normal os artistas levarem as fãs para boates e outros lugares após shows e programas de televisão, Roberto também fazia isso, mas de forma discreta. Carlos Imperial que não tinha nada de discreto, mantinha um apartamento no Rio de Janeiro pronto para os abates. Lá rolava sexo na sala na frente dos demais convidados, troca de casais e Imperial tinha até um Pastor Alemão adestrado que participava das sessões, a especialidade do cão era lamber…
Se quando jovem Roberto aproveitava bastante, e isso pode ser visto em canções que diziam que casamento não era papo para ele, nas duas últimas décadas elas tem se pautado por religião e por um amor inabalável, que vence até a morte. Caso das relações com Myriam Rios e Maria Rita, ambas bem mais novas que ele. Com Myriam a relação chegou ao fim porque o cantor não gostava mais de sair, de curtir a vida e o dinheiro que tinha. Myriam era bem mais nova e ávida pela vida. Já Maria Rita tem quase a mesma idade da filha de Roberto, eram colegas de escola quando ele a conheceu. O relacionamento veio anos depois e ela se enquadrou em todo o processo de manias, superstições e religiosidade do rei. Quando o câncer atacou Maria Rita, ele recorreu a medicina e a religião. O câncer desapareceu e ele passou a pregar cada vez mais, foi o auge da devoção. Mas o câncer voltou e fulminante matou Maria Rita. A fase apostólica chegou ao fim. Até com questionamentos dele mesmo. Os discos seguintes são marcados pelo amor presente, nunca passado. E permanece assim até hoje.
Tudo isso está presente no livro Roberto Carlos em detalhes de Paulo César de Araújo, lançado em 2006. Um trabalho de 15 anos de pesquisa que foi condenado pelo artista. A obra, ao contrário do livro sobre Tim Maia, é um documento histórico, não só pela vida do maior cantor brasileiro de todos os tempos, mas pela ligação com tudo que ocorreu de relevante na música nos últimos 50 anos. Está lá o samba, a Bossa Nova, o Tropicalismo, A Jovem Guarda, o rock dos anos 80, os artistas românticos que depois seriam tachados como brega. Bem como as mudanças que sofreu a política nacional com proibições, prisões, torturas e mortes. Paulo César costurou retalhos de forma a dar forma a um livro essencial para quem quiser entender o fenômeno Roberto Carlos. Mesmo para aqueles que, como eu, não escutam composições do rei após a década de 70, a não ser quando vamos n’O Popular, conhecido como Bar do Roberto Carlos. O mais incrível é que o livro traça toda a trajetória mostrando que Roberto merece todo o reconhecimento que há em torno dele, mas por um capricho qualquer, talvez uma mania nova, proibiu o livro. E o que se sabe é que ele não leu, apenas conheceu por terceiros trechos da obra. Não deixa de ser impressionante também a forma covarde como a Editora Planeta se portou diante do processo movido pelo artista. Uma atitude que em momento algum tentou reverter a situação.
Numa carreira marcada por decisões conservadoras e pouco audaciosas, a proibição da biografia foi a pior delas com certeza. E só piora a visão de excêntrico e até maluco que rodeia Roberto. A Paulo César de Araújo resta a frustração de fã, de pesquisador e de autor. Se a venda e distribuição do livro foram proibidas, o livro possui edição virtual, basta clicar aqui.
Mais sobre música n’O Inimigo.
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Parabéns pelo excelente trabalho!uma análise exemplar à respeito de um ídolo nacional e ,como tantos e tantos outros daqui e d’alhures,cheio de esquisitices e de contradições, sem as quais talvez não houvesse nem obra nem artista.louvável a qualidade de seu texto, conciso e nunca disperso,da pesquisa e do tema;belo exemplo a ser seguido por nossos cronistas.sempretender ser excessivo,digo-lhe mais uma vez : Parabéns!
HUGO, sua página está exelente ! É uma das mais bem escritas
sobre momentos e comportamentos de Roberto Carlos. Permito-me
dizer: “O Rei Está Nú”, e não há roupa para vestí-lo.
Por favor, pesquise sobre Wilson Simonal… Morreu execrado !
Acusado de “dedo duro”,e colaborador da Ditatura Militar. Verdade ou Mentira? Vale a pena passar a limpo…
“Se fosse Jason entregando…”
=]
E eu num sacava do rolé entre Arlete Salles e Toni Tornado