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Fábio de Cristo

Fábio de Cristo - fabiodecristo@digizap.com.br

Psicologia e Trânsito

Psicólogo, Especialista em Gestão de Pessoas e Mestre em Psicologia pela UFRN. Atualmente é Doutorando em Psicologia na UnB.

“Porque Tenho de Seguir as Normas do Código de Trânsito?”

sábado, 9/dezembro/2006

Porque tenho de seguir as normas do código de trânsito?. Essa foi a proposta de reflexão com que me deparei, depois de acompanhar uma equipe de educadores de trânsito em uma palestra a estudantes do ensino médio. Esta palestra tinha por objetivos falar sobre direção defensiva e sobre o processo de aquisição da habilitação, uma vez que os adolescentes estavam próximos dos 18 anos. Ao final da apresentação, várias perguntas surgiram, sendo necessário limitar a participação dos alunos devido o horário. Eis algumas delas: “Porque não posso dirigir falando ao celular?, Porque não posso botar películas muito escuras no carro?, Não posso rebaixar meu carro e nem posso usar som alto porque?.

Aparentemente, essas questões são simples e sem importância. Mas não devem ser percebidas assim. O não conhecimento da justificativa de uma norma pode ser o primeiro passo para que ela não seja cumprida. De modo bastante simples, o pensamento que está por trás destes questionamentos é o seguinte: quero razões para agir de acordo com o que você me diz, pois se você me der razões suficientes, eu provavelmente me comportarei de acordo; caso contrário, tenho sérias dúvidas!.

Portanto, a ausência de explicações para os usuários do trânsito pode causar problemas sérios no que diz respeito ao próprio cumprimento da norma. Se não sabemos ou entendemos as razões para cumprir uma norma, será que manifestaremos uma atitude favorável a ela? Ou seremos indiferentes? Ou pior ainda, manifestaremos atitude desfavorável?

O código de trânsito brasileiro estabelece a forma como devemos nos comportar no ambiente do tráfego, mas não estabelece as razões pelas quais essas normas são estabelecidas ou o que levou os legisladores a inserirem determinadas especificações e outras não. Isto é um dos papéis da educação para o trânsito. Entretanto, o que se observa é a simples memorização do que é certo ou errado (vide a palestra citada acima!). Se perguntarmos para um condutor o porquê de algo, ele dirá, provavelmente, que é por conta da lei que assim manda ou por conta da multa, e não porque torna a sua conduta ao volante mais arriscada (Seria bom que o leitor fizesse este experimento!).

Do ponto de vista dos órgãos executivos de trânsito e dos educadores (professores, instrutores, peritos de trânsito etc.), um dos maiores investimentos que se poderia fazer para educar nossos condutores seria estabelecer as condições, oferecer os elementos necessários, possibilitar aos usuários compreender os porquês das normas e o porquê que é importante que ele se comporte de determinado jeito. As coisas precisam fazer sentido. Saber o motivo, a razão, a circunstância é imprescindível para que o comportamento adequado surja. Isto vai além da punição como procedimento educativo, que, tomado isoladamente, não é tão eficaz como se pensa.

Do ponto de vista do usuário, ou seja, nós, um dos maiores investimentos que poderíamos fazer em prol da harmonia do trânsito e do bom convívio social nesse espaço seria utilizar a autocrítica e a reflexão, ferramentas importantíssimas que possibilitarão condutas adequadas no trânsito. Faz parte do nosso papel questionarmos e procurarmos nos informar. Um bom começo seria, então, procurarmos responder honestamente: Porque tenho de seguir as normas do código de trânsito?. Isto poderá fazer uma diferença enorme para a coletividade. Da minha parte, à medida do possível, procurarei colaborar temperando essas reflexões.

4 comentários

  • Marcelo Menezes da Costa : -

    Realmente caro Fábio, se todos tivessem a sua conta, para assim serem responsáveis pelo respeito, e não pelo medo ou perda de dinheiro, tenderíamos a ver o mundo, e não somente o trânsito, como um lugar de convivência, em que para termos qualidade para viver, o meu direito acaba quando se inicia o direito do outro.
    Muito bom o artigo!
    Abraço

  • tyeta : -

    comtinui sempre assia

  • Carlos da Silva : -

    Caro Fabio

    As perguntas citadas pelos participantes trazem nas suas proprias formulaçoes o germe da visao do mundo do brasileiro e logo da maneira pela qual ele atua nesse mundo! Nessas perguntas um verbo prima: Poder, e , nos seus comentarios, outro verbo prima: Ter. Creio fundamental a importancia do verbo Dever: a partir dele é que vem o Direito de uns e outros numa comunidade. No Brasil a noçao do Direito é precaria porque grande é a noçao do Poder, de mesmo, a noçao do Ter é superior a do Dever. Parando para pensar entre Poder e Dever um condutor brasileiro se identificara mais com o Posso porque desde pequeno essa noçao prima no inconsciente coletivo seja como meta, seja como sonho, seja como uma realidade ja palpavel. Assim o Dever fica para mais tarde e mais tarde sera mais dificil. Se nao ensinamos desde o primeiro velocipede que para bincarmos na calçada Devemos tomar cuidado consigo e com os outros, mais tarde, com as chaves do carro na mao, nao pensarei automaticamente nos Deveres que primam esse previlegio; antes, Terei tudo para, inconsientemente, agir na noçao do Poder que o carro simbolisa.

  • Fábio de Cristo : -

    Carlos,

    Interessante comentário. Uma análise sucinta e objetiva de um traço cultural dos brasileiros.

    um abraço.

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