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Clotilde Tavares

Clotilde Tavares - clonews@digi.com.br

Umas & Outras

A escritora Clotilde Tavares, que divide seu tempo e sua vida entre Natal e João Pessoa, apresenta ao leitor crônicas e artigos sobre Arte, Cultura e Comportamento.

Seis propostas para o cotidiano

quarta-feira, 10/dezembro/2008

Um tipo de livro vende muito pertence àquela categoria que se chama “auto-ajuda”. Entende-se que esse tipo de livro é aquele que “ajuda” o indivíduo a resolver algum problema que ele tenha, e que faça isso sem precisar da mediação de uma terceira pessoa, motivo pelo qual o livro se chama de auto-ajuda. A definição é abrangente e vaga, e dentro dela pode-se incluir desde o pioneiro “Como fazer amigos e influenciar pessoas”, de Dale Carnegie, passando por todos os títulos que estão nas listas dos mais vendidos, chegando até a Bíblia e outros livros sagrados das diversas religiões, além daqueles que ensinam a fazer alguma coisa “sem-mestre”.

Eu mesma escrevi há uns dez anos um livro sobre qualidade de vida, onde sugiro formas de melhorar diversos aspectos do dia-a-dia das pessoas. O livro é “A Magia do Cotidiano”, que eu mesma editei em 1999 e que foi reeditado em 2005 pela A Girafa Editora, de São Paulo. Pois bem: esse livro é também considerado do gênero auto-ajuda, uma vez que através dele é possível as pessoas encontrarem soluções e dicas para problemas que as afligem no seu cotidiano.

Apesar do grande preconceito do meio intelectual e acadêmico contra os livros de auto-ajuda, considerados por esse meio como sub-literatura, eu não compartilho desse pensamento nem me incomodo com isso. Se um livro meu ou algo que eu escrever ajudar a alguém, fico feliz e considero que isso engrandece a minha obra em vez de diminuí-la. Com efeito, qualquer livro, se chega até você na hora e no local exato, pode ser considerado também livro de auto-ajuda. Quer ver?

Um dos livros que norteiam minha vida e me ajudam a viver melhor é o espetacular “Seis propostas para o próximo milênio”, do escritor italiano Ítalo Calvino. O livro contém as conferências que o autor preparou para fazer na Universidade de Harvard, nos Estados Unidos, nos anos de 1985-1986. Não chegou a fazê-las, tendo falecido antes. O texto das palestras propõe qualidades que a escritura deveria ter para “criar os anticorpos que coíbam a expansão da peste da linguagem”, nas palavras do autor, referindo-se ao empobrecimento da língua. Baseando-se então em autores consagrados ele propõe essas seis qualidades: leveza, rapidez, exatidão, visibilidade, multiplicidade e consistência.

O livro é espetacular e depois que o li fiquei cá comigo pensando: e como seria aplicar essas qualidades ao cotidiano, ao dia-a-dia, às nossas ações? Como seria incorporar essas qualidades à nossa maneira de viver? E comecei a me ligar nisso, meu caro leitor. Comecei a me perguntar, de tudo o que eu faço, se tem essas qualidades. Tem leveza? Ou é pesado, emperrado, com pouca mobilidade? Tem rapidez? Atinge logo os objetivos? Mostra logo os seus efeitos? E a exatidão? É preciso, claro, bem acabado? Quanto à multiplicidade, dependendo do que se faz, pode haver diferentes níveis de aplicação dessa coisa de ser múltiplo, sendo esse também um requisito da chamada contemporaneidade. A visibilidade se insere no mundo de hoje, onde tudo se pretende visível e claro, refletido no espelho da mídia. Finalmente, a consistência, qualidade indispensável para que as nossas ações não se percam no abismo do fazer-por-fazer.

É genial esse livro e, para mim, além do deleite espetacular de um livro sobre literatura e prática literária, “Seis propostas para o próximo milênio” terminou por se constituir também um livro de auto-ajuda, que me auxilia a ser leve quando a vida me pesa, a ser exata quando estou sem paciência de fazer as coisas direito, a agir com rapidez quando a preguiça me leva à morosidade.

O livro me ensinou a ser mais múltipla ainda do que já sou, o que é perfeitamente possível, pois neste milênio, o terceiro, é preciso ter habilidades variadas para sobreviver; ensinou-me a dotar as coisas que faço de visibilidade que resista a qualquer investigação e, finalmente, a ter consistência, para não cair no oba-oba e na porralouquice.

Provavelmente, o escritor italiano, intelectual respeitado no mundo inteiro, não estava pensando nisso quando escreveu as conferências. E daí? De uma forma ou de outra, esse livro cumpriu sua função de modificar a cabeça do leitor, indo além dos seus objetivos quando foi escrito. No meu caso, de duas maneiras diferentes, ajudando minha forma tanto de escrever quanto de viver. Isso é que eu chamo de sucesso literário.

7 comentários

  • thiago : -

    Amo tudo que vc escreve
    e tbm tenho esse seu livro citado .

  • Cinara Marinho : -

    Adorei sua cronica! tambem leio tudo que voce escreve e vez por outra leio livros chamados de “auto ajuda”. Aproveito muita coisa no meu cotidiano e nao acho absolutamente, sub-literatura. Nao sou uma expert no assunto, mas acho que tem livros para diversos momentos e fases da vida. Tem epocas que me encanta ler os escritores russos, nesse momento estou voltada para os indianos.. e existem momentos que me deleito com um romance bem agua com acucar.
    Vou mandar comprar seu livro ja. Com certeza vai ter muita coisa iteressante. Voce sabe traduzir o cotidiano de uma forma muito especial. Beijos e continue escrevendo e contribuindo…

  • Marcos : -

    vou procurar tempo para reler “a magia…”

  • vitória lima : -

    Clotilde,
    Gosto de “Magia”, de “Agulha do desejo”, de “Coração Paraibano”…
    enfim,
    Você ainda tem “Agulha” e pode me vender uns 2 ou 3?
    Para presente de Natal.
    Vitória

  • Danielle : -

    Realmente vc é genial!adoro tudo que vc que escreve.Pois tens o “dom da realidade”, tudo que vc escreve é bastante hodierno.Parabéns

  • Reginaldo : -

    Clotilde,

    Acho que quando leio um livro, uma crônica, uma poesia, sempre recebo muito mais do que talvez tenha enviado o escritor,pois se entendo que não foi o suficiente, que faltou alguma coisa? que não acrescentou algo? serviu como reflexão para buscar sempre mais…,em outra fonte? pode ser. E aí, esse “movimento” provoca mudanças no cotidiano…que bom! Você consegue provocar estas reflexões tão boas e necessárias e não importo-me com os “conceitos”…, mas que ajuda…Ah, que “Alta ajuda” você provoca, sem precisar da prateleira de “Auto-ajuda!

    Abraço
    Reginaldo

  • KINHA : -

    Querida Prima Clotilde,

    É maravilhoso saber em que nossa familia, temos pessoas, como voce E PAPAI, e eu que gostamos tanto de escrever e ler. Papai é um poeta, e adora ler. Adorei esse texto sobre livro de auto-ajuda, vou comprar depois, pois tenho alguns para ler ainda. Beijinhos da prima Kinha.

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