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Clotilde Tavares

Clotilde Tavares - clonews@digi.com.br

Umas & Outras

A escritora Clotilde Tavares, que divide seu tempo e sua vida entre Natal e João Pessoa, apresenta ao leitor crônicas e artigos sobre Arte, Cultura e Comportamento.

Receita para um dia de chuva

sexta-feira, 25/julho/2008

Liguei há pouco para Natal e quem atendeu me disse: “Clotilde, aqui está uma chuva!”

E me lembrei da última vez em que estive aí, no início deste mês de julho. Cheguei na segunda-feira ao meio-dia, e assim que entrei em casa, a chuva começou. Uma chuva segura, estilo toró, que durou quarenta e oito horas, atrapalhando minha programação e me deixando quase louca e claustrofóbica dentro de casa.

Em Natal, a chuva é bem diferente, por exemplo, da chuva de Campina Grande, a cidade em que vivi meus primeiros vinte anos de vida. Em Campina havia uma época do ano que parecida o tema daquela velha música dos Golden Boys: “… Tarde fria, chuva fina, e ela a esperar…” Lá as tardes eram realmente frias e a chuva fina caía por quatro ou cinco meses sem parar, sem a gente poder ver “o olho do Sol”.

Em Natal, dizia eu, quando a chuva vem, é como se as cataratas do céu se abrissem e cai aquele toró, que rapidamente alaga tudo e deixa as avenidas – algumas – intransitáveis. Coisas de cidade enxerida, metida a moderna, onde o asfalto e o cimento vão impermeabilizando os espaços em nome do conforto e da boa fluência do trânsito.

Tive o prazer de reencontrar, nessa minha última estada aí, as mesmas lagoas que se formam nas esquinas de Capim Macio e sobre as quais eu escrevo com tanto carinho há bem uns dez anos. Estão lá, desafiando o tempo, desafiando os administradores municipais, desafiando esse povo em quem a gente vota pensado que eles vão pelo menos tapar o buraco que tem na esquina da nossa casa, ou acabar com o alagamento que ameaça tragar nosso pequeno carro 1000 quando mergulhamos nas suas escuras profundezas.

Mas é importante não reclamar da chuva, porque ela não tem culpa. A chuva é boa, lava, refresca, enche as plantinhas e a grama de viço e beleza.

Se você tem que trabalhar, não reclame, enfrente, “seja homem como sua mãe teve vontade de ser”, como dizia meu pai… Reclamação deixa o dia mais cinzento ainda e não resolve nada.

Para o caso de você ser assim como eu, que já trabalhou quarenta e cinco anos de sua vida e hoje se dedica exclusivamente ao trabalho de fiscalizar a natureza e escrever amenidades no site da Diginet, quando o dia começa assim, é bom dar uma reorganizada no seu planejamento. Ir ao cinema sempre é um bom programa, principalmente se você tem uma companhia agradável, ao lado da qual é gostoso ficar em silêncio, curtindo um bom filme.

Os shoppings também oferecem alguns atrativos. Passear pelas lojas, comer bobagens e ver gente são alguns deles. Não se esqueça também de dar uma passadinha nas livrarias, para colocar um pouco de cultura e informação no seu passeio, mas prefira aquelas que oferecem um quente e saboroso café ou chocolate.

Mas se a chuva for mesmo forte, e você for suficientemente doido, faça uma caminhada sem usar guarda-chuva. Coloque um chapéu para proteger os olhos e saia por aí, em estreita comunhão com as cataratas celestes, deixando-se banhar por essas águas tão naturais e carregadas das energias das estrelas.

A experiência é inesquecível mas não demore muito para não se resfriar. Ao chegar em casa, um café bem forte e uma vigorosa massagem com uma toalha seca lhe deixarão dez anos mais jovem.

Experimente. É fantástico.

17 comentários

  • Clotilde Tavares : -

    E a quem interessar possa: respondo individualmente todos os posts colocados aqui, diretamente para a caixa postal de quem me escreveu. E vez por outra dou um pitaco por aqui mesmo, dependendo do meu tempo e disposição.

  • Guilherme Loureiro : -

    “Não se esqueça também de dar uma passadinha nas livrarias, para colocar um pouco de cultura e informação no seu passeio”.
    Não falei?
    Seus textos sempre necessários. Para quem há 30 anos ganha a vida trabalhando em editoras, a sua dica além de necessária foi precisa.
    Grande beijo,
    Guilherme – seu tiéte a seu dispor

  • Cefas : -

    Bela crônica, Clotilde. Já tomei banho de chuva deste jeito. E ao chegar em casa, da-lhe café. Aliás, chuva é mais um pretexto para beber mais café. Parabéns pela coluna e boa sorte! Abraço!

  • Grácia Gondim : -

    Querida Clotilde,

    É sempre bom lhe ouvir-lendo… seja na chuva-catarata-celeste de Natal, seja no frio-londrino de Campina Grande, que tive o pazer de conhecer em idos tempos de “repentes e casacos de generais” em terras Tavares de seus pais.

    Eu de longe lhe mando beijos e adorei lhe ver na Diginet.

    Grácia Gondim

  • Oswaldo : -

    Clotilde,

    Bom ler você aqui, a chuva agora foi embora(tomara que volte), mas meu programa está um barato(!): textos bons(o seu é um), umbuzada-salgada- com queijo de coalhos, grilos e vagalumes aqui nas fraldas do Morro Branco. beso

  • Clotilde Tavares : -

    Deu a molesta!
    Umbuzada salgada não conheço não.
    Mas considero umbuzada doce como uma das sete maravilhas da culinária! Na próxima semana coloco aqui quais são as outras seis…
    Clotilde

  • marlene medeiros : -

    Sou sertaneja,com muito orgulho,de Florânia. Também não conheço umbuzada com sal. Por favor, não descaracterizem a nossa umbuzada, comida típica das nossas Semanas Santas. Ai que saudades que eu tenho da aurora da minha vida, lá no meu sertão, que mesmo quando chovia, não fazia o frio que sinto agora, e o que é pior, sem ninguem para aquecer-me, enquanto naqueles tempos dava até para escolher… Marlene

  • Clotilde Tavares : -

    Fica chateada não, Marlene.
    O mundo mudou, a gente perdeu umas coisas boas mas ganhou outras. A Internet, por exemplo.

  • Fatima Mignot : -

    Ah! Um banho de chuva… Que maravilha!
    Lembro de uma bica que havia na casa de Tia Petró. Nos dias de chuva forte corríamos arrodeando a casa e depois ficávamos embaixo daquela “pingueira” que estava mais pra cachoeira. Era muito bom! Também já tomei muito banho de chuva na praia. É algo indescritível. Se nunca experimentou, faça-o.
    Querida Prima, muito atrativa e simpática sua nova coluna. Parabéns!
    Fatima

  • Regina Cascão : -

    Sra. Dra. Clotilde
    Quem já falou com vosmicê ao telefone sem a conhecer ao vivo e a cores, pode perfeitamente continuar a conversa lendo o que está escrito aqui. Cada dia gosto mais de ler o que vc escreve, de acompanhar o que vc pesquisa, de ouvir o que vc tem a dizer – e, consequentemente, de vc. Mas banho de chuva não tomo, não, que além de não ter vocação pra Gene Kelly, o sobrenome não me permite esses arroubos.Bjs cariocas, Regina Cascão.

  • DoSol » Blog Archive » NA WEB TEM… : -

    [...] 2- RECEITA DE CLOTILDE TAVARES PARA UM DIA DE CHUVA [...]

  • Raimunda de seo Ildefonso : -

    Que beleza a tua pesquisa Clotilde, bem feita, detalhada, bem digna da filha de Nilo Tavares e Cleusa, aquela mulher inteligente e bem à frente de seu tempo com quem tive a sorte de conviver e partilhar boas páginas da literatura. Um grande beijo e quando voltar, quero ajuda para um pesquisa de genealogia que estou começando aqui em Londrina.

  • Clotilde Tavares : -

    Gente, vocês parem de me elogiar porque eu fico insuportável se me elogiarem muito! E venham sempre aqui que pretendo atualizar com frequência.

  • Tania Nitrini : -

    Pegando carona nessa bela crônica da Clotilde: sugiro o dvd “Aurora” (Sunrise) de Murnau.
    Beijo
    Tania

  • A Pedra_* : -

    e quem é liso faz o que? no dia de chuva,é bom mesmo colocar uma lata em baixa da goteira e ficar deitado na rede escutando os pingos.

    Legal essa cronica,nem vou meter tantas pedras.

  • Sheila Saint-Clair : -

    Quem eh liso … balança na rede ouvindo uma boa música,os sibilos dos ventos e o gotejar da bica e se aquece c um cobertor de olheira e/ou com uma boa pinga.Xerus p Clô..

  • eliza : -

    faça um negocio menor para que possamos entender ta??quirida!!
    um beijo!

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