Receita para um dia de chuva
Liguei há pouco para Natal e quem atendeu me disse: “Clotilde, aqui está uma chuva!”
E me lembrei da última vez em que estive aí, no início deste mês de julho. Cheguei na segunda-feira ao meio-dia, e assim que entrei em casa, a chuva começou. Uma chuva segura, estilo toró, que durou quarenta e oito horas, atrapalhando minha programação e me deixando quase louca e claustrofóbica dentro de casa.
Em Natal, a chuva é bem diferente, por exemplo, da chuva de Campina Grande, a cidade em que vivi meus primeiros vinte anos de vida. Em Campina havia uma época do ano que parecida o tema daquela velha música dos Golden Boys: “… Tarde fria, chuva fina, e ela a esperar…” Lá as tardes eram realmente frias e a chuva fina caía por quatro ou cinco meses sem parar, sem a gente poder ver “o olho do Sol”.
Em Natal, dizia eu, quando a chuva vem, é como se as cataratas do céu se abrissem e cai aquele toró, que rapidamente alaga tudo e deixa as avenidas – algumas – intransitáveis. Coisas de cidade enxerida, metida a moderna, onde o asfalto e o cimento vão impermeabilizando os espaços em nome do conforto e da boa fluência do trânsito.
Tive o prazer de reencontrar, nessa minha última estada aí, as mesmas lagoas que se formam nas esquinas de Capim Macio e sobre as quais eu escrevo com tanto carinho há bem uns dez anos. Estão lá, desafiando o tempo, desafiando os administradores municipais, desafiando esse povo em quem a gente vota pensado que eles vão pelo menos tapar o buraco que tem na esquina da nossa casa, ou acabar com o alagamento que ameaça tragar nosso pequeno carro 1000 quando mergulhamos nas suas escuras profundezas.
Mas é importante não reclamar da chuva, porque ela não tem culpa. A chuva é boa, lava, refresca, enche as plantinhas e a grama de viço e beleza.
Se você tem que trabalhar, não reclame, enfrente, “seja homem como sua mãe teve vontade de ser”, como dizia meu pai… Reclamação deixa o dia mais cinzento ainda e não resolve nada.
Para o caso de você ser assim como eu, que já trabalhou quarenta e cinco anos de sua vida e hoje se dedica exclusivamente ao trabalho de fiscalizar a natureza e escrever amenidades no site da Diginet, quando o dia começa assim, é bom dar uma reorganizada no seu planejamento. Ir ao cinema sempre é um bom programa, principalmente se você tem uma companhia agradável, ao lado da qual é gostoso ficar em silêncio, curtindo um bom filme.
Os shoppings também oferecem alguns atrativos. Passear pelas lojas, comer bobagens e ver gente são alguns deles. Não se esqueça também de dar uma passadinha nas livrarias, para colocar um pouco de cultura e informação no seu passeio, mas prefira aquelas que oferecem um quente e saboroso café ou chocolate.
Mas se a chuva for mesmo forte, e você for suficientemente doido, faça uma caminhada sem usar guarda-chuva. Coloque um chapéu para proteger os olhos e saia por aí, em estreita comunhão com as cataratas celestes, deixando-se banhar por essas águas tão naturais e carregadas das energias das estrelas.
A experiência é inesquecível mas não demore muito para não se resfriar. Ao chegar em casa, um café bem forte e uma vigorosa massagem com uma toalha seca lhe deixarão dez anos mais jovem.
Experimente. É fantástico.
17 comentários
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E a quem interessar possa: respondo individualmente todos os posts colocados aqui, diretamente para a caixa postal de quem me escreveu. E vez por outra dou um pitaco por aqui mesmo, dependendo do meu tempo e disposição.
“Não se esqueça também de dar uma passadinha nas livrarias, para colocar um pouco de cultura e informação no seu passeio”.
Não falei?
Seus textos sempre necessários. Para quem há 30 anos ganha a vida trabalhando em editoras, a sua dica além de necessária foi precisa.
Grande beijo,
Guilherme – seu tiéte a seu dispor
Bela crônica, Clotilde. Já tomei banho de chuva deste jeito. E ao chegar em casa, da-lhe café. Aliás, chuva é mais um pretexto para beber mais café. Parabéns pela coluna e boa sorte! Abraço!
Querida Clotilde,
É sempre bom lhe ouvir-lendo… seja na chuva-catarata-celeste de Natal, seja no frio-londrino de Campina Grande, que tive o pazer de conhecer em idos tempos de “repentes e casacos de generais” em terras Tavares de seus pais.
Eu de longe lhe mando beijos e adorei lhe ver na Diginet.
Grácia Gondim
Clotilde,
Bom ler você aqui, a chuva agora foi embora(tomara que volte), mas meu programa está um barato(!): textos bons(o seu é um), umbuzada-salgada- com queijo de coalhos, grilos e vagalumes aqui nas fraldas do Morro Branco. beso
Deu a molesta!
Umbuzada salgada não conheço não.
Mas considero umbuzada doce como uma das sete maravilhas da culinária! Na próxima semana coloco aqui quais são as outras seis…
Clotilde
Sou sertaneja,com muito orgulho,de Florânia. Também não conheço umbuzada com sal. Por favor, não descaracterizem a nossa umbuzada, comida típica das nossas Semanas Santas. Ai que saudades que eu tenho da aurora da minha vida, lá no meu sertão, que mesmo quando chovia, não fazia o frio que sinto agora, e o que é pior, sem ninguem para aquecer-me, enquanto naqueles tempos dava até para escolher… Marlene
Fica chateada não, Marlene.
O mundo mudou, a gente perdeu umas coisas boas mas ganhou outras. A Internet, por exemplo.
Ah! Um banho de chuva… Que maravilha!
Lembro de uma bica que havia na casa de Tia Petró. Nos dias de chuva forte corríamos arrodeando a casa e depois ficávamos embaixo daquela “pingueira” que estava mais pra cachoeira. Era muito bom! Também já tomei muito banho de chuva na praia. É algo indescritível. Se nunca experimentou, faça-o.
Querida Prima, muito atrativa e simpática sua nova coluna. Parabéns!
Fatima
Sra. Dra. Clotilde
Quem já falou com vosmicê ao telefone sem a conhecer ao vivo e a cores, pode perfeitamente continuar a conversa lendo o que está escrito aqui. Cada dia gosto mais de ler o que vc escreve, de acompanhar o que vc pesquisa, de ouvir o que vc tem a dizer – e, consequentemente, de vc. Mas banho de chuva não tomo, não, que além de não ter vocação pra Gene Kelly, o sobrenome não me permite esses arroubos.Bjs cariocas, Regina Cascão.
[...] 2- RECEITA DE CLOTILDE TAVARES PARA UM DIA DE CHUVA [...]
Que beleza a tua pesquisa Clotilde, bem feita, detalhada, bem digna da filha de Nilo Tavares e Cleusa, aquela mulher inteligente e bem à frente de seu tempo com quem tive a sorte de conviver e partilhar boas páginas da literatura. Um grande beijo e quando voltar, quero ajuda para um pesquisa de genealogia que estou começando aqui em Londrina.
Gente, vocês parem de me elogiar porque eu fico insuportável se me elogiarem muito! E venham sempre aqui que pretendo atualizar com frequência.
Pegando carona nessa bela crônica da Clotilde: sugiro o dvd “Aurora” (Sunrise) de Murnau.
Beijo
Tania
e quem é liso faz o que? no dia de chuva,é bom mesmo colocar uma lata em baixa da goteira e ficar deitado na rede escutando os pingos.
Legal essa cronica,nem vou meter tantas pedras.
Quem eh liso … balança na rede ouvindo uma boa música,os sibilos dos ventos e o gotejar da bica e se aquece c um cobertor de olheira e/ou com uma boa pinga.Xerus p Clô..
faça um negocio menor para que possamos entender ta??quirida!!
um beijo!