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Clotilde Tavares

Clotilde Tavares - clonews@digi.com.br

Umas & Outras

A escritora Clotilde Tavares, que divide seu tempo e sua vida entre Natal e João Pessoa, apresenta ao leitor crônicas e artigos sobre Arte, Cultura e Comportamento.

Os trabalhos e os dias

quarta-feira, 28/janeiro/2009

O título acima remete a uma obra fundadora da literatura ocidental, uma vez que foi escrita pelo poeta grego Hesíodo, que viveu no século VIII a. C. Nesta obra, o poeta constrói uma história da Humanidade, onde as raças evoluem de uma raça de gênios bons, a “raça de ouro” até a “raça de ferro”, que seria a do seu próprio tempo, com os homens submetidos a fadigas, misérias e angústias. Você pode ler mais sobre isso aqui.

Mas não é sobre o poeta que quero falar. Apenas tomei emprestado o título de sua obra para este texto, pois quero falar de uma questão que andou me enchendo a cabeça ultimamente que é: como acomodar tudo que eu quero fazer nas vinte e quatro horas do dia? Por esse “tudo” entenda-se: escrever quatro colunas semanais (uma das quais aqui para esse Portal Diginet); trabalhar nos meus quatro ou cinco projetos de livros em andamento; continuar a pesquisa que faço da genealogia da minha família; cuidar do apartamento de três quartos onde moro sozinha e não quero empregada, cozinheira, faxineira, lavadeira ou passadeira; manter-me informada sobre o que acontece no mundo, lendo jornais e revistas; manter minha leitura em dia, no que se refere a livros; acompanhar 10 ou 15 séries de TV, nem sei mais quantas; sair com os amigos, com a família, ir ao cinema e teatro, ir ao cabelereiro e ao shopping, ir ao médico e ao psicólogo, e, mais importante que tudo, ficar à toa na rede da varanda, vendo as nuvenzinhas correrem no céu azul da Parahyba.

No ano passado, trabalhei muito, mas de forma aleatória e desorganizada; fui atropelada pelo tempo e pelos prazos, me estressei sem necessidade. Aí, nesse ano de 2009, resolvi botar ordem no pedaço e organizar os meus trabalhos nos meus dias, de forma que houvesse ocasião não somente para os trabalhos mas também para o mais importante, que é aquilo que os italianos chamam “il dolce far niente”, o doce fazer nada, a vagabundagem propriamente dita, o ócio, o desfrute, a reguiça.

Como faço toda vez que quero empreender alguma tarefa, entrei na Internet para ver o que é que as pessoas andam dizendo sobre o assunto. Li incontáveis textos sobre administração do tempo, gerenciamento de tarefas, organização pessoal. Aprendi como usar melhor a agenda, e como administrar meus projetos – livros a serem escritos, casa a ser cuidada, diversão e arte a ser desfrutada, família e amigos a serem acarinhados – de forma que todos pudessem acontecer sem se prejudicarem uns aos outros. Muito da literatura que existe na Internet é dirigida a quem trabalha em empresas; mas eu fui adaptando aquilo às minhas necessidades. Então, como é que eu faço?

1) Não confio na cabeça. Tudo o que eu quero fazer, escrevo. Tenho listas de tarefas divididas por “projetos”. Há na Internet um site – TaDaList – onde você se cadastra gratuitamente e cria suas próprias listas e pode administrá-las de qualquer computador. Então eu tenho listas assim: “Livro sobre cordel e propaganda”, e nessa lista eu discrimino coisas do tipo “revisar material que trouxe do Rio”, “pesquisar na Internet teses e artigos sobre o tema”, “fazer um índice dos meus quase 500 folhetos de cordel”, e assim por diante. Na lista “Decoração do apartamento”, que é um “work in progress” que eu nunca consigo terminar, tenho os seguintes itens: “fazer prendedor para a cortina”, “trocar cúpula do abajur pequeno”, “reenvasar a muda de tamarindo”, “costurar a cortina da cozinha”. Tenho também listas diárias de tarefas fixas intituladas “Para fazer na segunda-feira”, “Para fazer na terça-feira”, etc. Por exemplo: na segunda-feira eu tenho tarefas que faço toda segunda, como “escrever coluna d’A União”, “colocar água nas plantas”, “trocar roupa de cama”, “trabalhar no projeto Cordel e Propaganda”.

2) Só coloco na agenda – uso uma Moleskine Weekly vermelha, pequenina, uma gracinha – compromissos com data marcada para acontecer, ou coisas que eu tenha que fazer em determinada data.

3) E dentro da agenda, que é pequena e cabe em toda bolsa, eu carrego um PocketMod, que é um livreto minúsculo que eu crio e imprimo a partir do site onde coloco as coisas das quais não posso me esquecer quando estiver na rua. É uma mão-na-roda: pequenino, bonitinho e descartável, que você imprime em casa e gasta somente uma folha A4.

Você pode até achar que isso tudo é maluquice e mania. Mas eu vou te contar: maluquice é viver no caos, faltar aos compromissos, ver os prazos se cumprirem e os projetos não estarem prontos, esquecer de telefonar para as pessoas, estourar o prazo de mandar a coluna para o jornal, não poder fechar a geladeira pois o congelador está lotado de gelo, não ter lençol limpo pra forrar na cama pois todos estão no cesto de roupa suja, esquecer os remédios, ver as plantas ficarem esturricadas, tudo por falta de organização e método.

Para quem já é organizado ou não dá valor a isso, se chegou até aqui na leitura, eu agradeço o tempo perdido e prometo na próxima semana (agora com meu método, toda quarta-feira estarei postando aqui) um artigo bem diferente, uma coisa suave e divertida. E para quem vive no caos e está querendo vislumbrar a luz no final do túnel, espero que as dicas aqui postadas sirvam para alguma coisa.

E que vivam os Trabalhos, e vivam os Dias!

10 comentários

  • Rosália Filizola : -

    Você é um anjo! Além de dar dicas ainda dá referência de leitura. Vou tentar aplicar suas sugestões e ainda, de quebra, dar uma passeada pelo tempo de Hesíodo. Grazie!

  • Valeska : -

    Será que encontrei aqui a solução para o meu estresse cotidiano?!O oitavo paragrafo está o retrato da minha vida!!!
    Muito grata, Clotilde!

  • vitoria lima : -

    Clotilde Tavares, Tide, Clô!
    Você é única!
    Uma mulher moderníssima!
    Vive na Parahyba (porque quer) mas poderia estar vivendo em NY ou na Londres de Virginia Woolf. Ou em Estocolmo ou em Copenhagen
    Eu invejo sua capacidade de se movimentar por entre mundos tão diversos.

  • Fatima Mignot : -

    Tide, esta matéria veio me lembrar o quanto estou precisando dar uma organizada na minha vida, em termos de agenda e ordem de prioridade, pois muitas vezes me pego desperdiçando energia e tempo, tudo por falta dessa coisa maravilhosa que se chama “organização do tempo” ou coisa parecida. Valeu!

  • Gustavo : -

    Ótima coluna Clotilde.

    Já passei por esse estresse de tentar me organizar :). Um livro que achei muito interessante foi o “Getting Things Done” de David Allen. As explicações sobre como nossa mente funciona ao tentar organizar informações e tomar decisões são fenomenais.
    Uma das melhores dicas é a de dividir as tarefas também por Contexto: o que você faz no telefone, o que faz na rua, o que faz em casa, etc…

    Os Nerds do mundo adoraram o método (Inclusive os criadores do TaDaList) e existem hoje centenas de softwares para ajudar a implementá-lo, basta procurar por GTD no Google. Eu uso o OmniFocus e o GTD TiddlyWiki.

    PS: A versão em português do livro ficou com o nome “A Arte de Fazer Acontecer”: http://www.submarino.com.br/produto/1/1062057/arte+de+fazer+acontecer,+a

  • Jose Rodrigues de Vasconcelos : -

    Prezada Clotilde, li tudo, fiquei encantado. Você é simplesmente uma maravilha de exemplo. Parabéns.

  • Telmíssima : -

    Saudade de te ajudar nestas tarefas.
    Te amo, minha Mestra!

  • Camila : -

    Belíssimo artigo. Traduziu em poucos parágrafos, o que eu acredito ser, O Segredo da Vida. Parabéns!!!

  • Rose Cristina : -

    Clotilde, sou exatamente como você. Tanto que pedi no trabalho um curso de administração do tempo. E esse curso, em linhas gerais disse exatamente o que explicastes lá em cima. Agora, sou a louca dos bloquinhos, e tenho até um para meus gastos, para controlá-los!

  • Umas & Outras » Estratégias da memória : -

    [...] sou um pouco – só um pouco – obsessiva pela organização e vez por outra escrevo sobre isso. Tenho um arquivo onde coloco todos os meus papeluchos. Assim, estão disponíveis quando preciso [...]

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