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Clotilde Tavares

Clotilde Tavares - clonews@digi.com.br

Umas & Outras

A escritora Clotilde Tavares, que divide seu tempo e sua vida entre Natal e João Pessoa, apresenta ao leitor crônicas e artigos sobre Arte, Cultura e Comportamento.

“Christmas blues”

segunda-feira, 22/dezembro/2008

Nesta época do ano, proliferam nos jornais, nas revistas e na Internet artigos, crônicas e escritos diversos sobre o Natal. Entre nós, cristãos e ocidentais, comemora-se nesta época o nascimento de Jesus Cristo, o filho de Deus.

Na verdade, meu caro leitor, o Natal é uma antiga celebração pré-cristã, ligada ao mito da esperança e do renascimento. Os povos antigos, nos países do Norte da Europa, faziam essa celebração coincidindo o solstício de Inverno, data em que a noite é mais longa e o dia parece que não vai mais amanhecer. Mas o Sol surge, renovando nas pessoas a esperança de que, com o fim do Inverno, venha a Primavera e a Natureza volte a desabrochar em flores e frutos. Na verdade, após o Solstício, os dias vão se tornando cada vez mais longos até que chega o equinócio vernal, em 21 de março, onde dias e noites têm a mesma duração.

Para marcar com exatidão as datas dos Solstícios e Equinócios, os povos antigos, depois de décadas de observação, faziam marcos de pedra. Acompanhando a projeção das sombras, conseguiam determinar os eventos astronômicos relativos ao Sol. O mais famoso desses marcos é Stonehenge, na Inglaterra, erguido cerca de 3.100 a.C.

Nas culturas antigas, da época neolítica, as últimas provisões de inverno eram cuidadosamente reservadas para serem consumidas no dia 21 de dezembro, data do solstício. Neste dia, os grupos familiares se reuniam e compartilhavam alimentos de grande valor energético como frutas secas e sementes buscando uma energia extra para suportar os últimos dias de frieza. É daí que vem o uso que fazemos desses alimentos até hoje nessa época do ano, mesmo que entre nós não seja inverno e que o calor de dezembro não recomende a ingestão de pratos tão calóricos. Comemos nozes, castanhas, passas e frutas secas porque tribos primitivas, que viveram há cinco mil anos, assim o faziam.

Não é curioso, meu caro leitor? Muitas das coisas que fazemos hoje em dia são aquilo que os estudiosos do folclore e da tradição chamam de “sobrevivências”, práticas e comportamentos que estão profundamente arraigados no DNA da Humanidade. Quando você enfeita a árvore de Natal, faz isso porque os povos antigos enfeitavam os carvalhos, que eles consideravam sagrados e que estavam despidos de folhas no rigoroso inverno europeu. Enfeitavam estas árvores para atrair de volta o espírito da natureza, que se pensava que havia fugido.

Com o surgimento do Cristianismo e a sua expansão pelo mundo, principalmente a partir do ano 313 d.C, quando o imperador Constantino converteu-se e adotou a religião cristã em todo o Império Romano, resolveu-se então estabelecer uma data para comemorar o nascimento de Jesus Cristo, tendo sido escolhida o dia 25 de dezembro por situar-se praticamente na mesma data em que a população já festejava seus antiqüíssimos cultos ligados ao solstício de Inverno. Outras festas cristãs – como a Páscoa, o São João, o Dia de Todos os Santos – também foram estabelecidas da mesma forma, sobrepondo-se às festas pagãs já existentes, imprimindo a elas novas características ligadas à religião que nascia mas permitindo que costumes e práticas, relativas à forma de comemoração, permanecessem da mesma forma. Daí a alimentação especial, a árvore, a troca de presentes e outros aspectos de origem pagã que perduram até hoje. Muitos autores informam que o primeiro Natal cristão foi comemorado em Roma no ano de 336 d.C.

Uma das coisas que mais me agradam quando penso sobre o Natal é a idéia do milagre da virgem que deu à luz uma criança. Sou doida por milagres, e penso que eles são preciosos como reforço da Fé, condição indispensável para que o ser humano possa continuar com sua trajetória. Considero esse milagre do nascimento de Cristo um tema não só profundamente poético mas também riquíssimo de simbologia e interpretações.

Sobre esse caráter milagroso da Natividade, quem fala é Jacopo de Varazze, em “A legenda áurea”, um livro maravilhoso, cheio de histórias da vida dos santos, escrito no século XIII e editado recentemente em português pela Companhia das Letras. Ele diz que o nascimento do Cristo foi milagroso “quanto ao modo de geração, pois o parto superou as leis da natureza por ter sido uma virgem a conceber; superou a razão, pois o gerado foi Deus; superou a condição da natureza humana, pois foi um parto sem dores; superou o normal, pois a virgem não concebeu de sêmen humano, mas de um sopro místico, o Espírito Santo, que tomou o que havia de mais puro e de mais casto no sangue da virgem para formar aquele corpo.”

Citando Anselmo, Jacopo de Varazze diz que Deus mostrou um quarto modo admirável de criar um homem. Com efeito, “Deus pode criar o ser humano de quatro maneiras: sem homem nem mulher, como criou Adão; de um homem sem mulher, como criou Eva; do homem e da mulher, como de costume; e de uma mulher sem homem, como nesse caso maravilhoso do nascimento de Cristo.

Reforçando esse caráter milagroso, o Divino Nascimento foi anunciado por todos os tipos de criaturas, viventes e não viventes, desde a estrela, que brilhou no céu e apontou o caminho aos Reis Magos, o boi e o jumento que dobraram os joelhos frente à manjedoura e até “as vinhas da Engadia que produzem bálsamo, e que nessa noite floriram, deram fruto e destilaram seu licor”.

Que coisa linda, não é, meu caro leitor? É possível ficar indiferente a uma coisa dessas, sendo ou não sendo católico, cristão, ou ateu? Eu não consigo.

Observo, com alguma surpresa, que o Natal já foi uma festa pagã, depois tornou-se cristã, e pelo visto está prestes a se tornar pagã novamente pela corrida desenfreada às lojas, pela substituição das igrejas pelos shopping-centers como lugares de celebração, e por ter se tornado para muita gente uma festa sem significado, sem reverência, sem milagre.

Há ainda um aspecto interessante. O Natal é antes de tudo uma festa de família, que desde o tempo do paganismo sempre foi comemorada em família, no interior do lar, em volta de uma ceia. Mas hoje em dia geralmente estamos cansados, estressados e cheios de obrigações de última hora. São as duras injunções da vida moderna, dita “civilizada”, que nos arrasta a esse torvelinho de compras de última hora, embalagens para presentes, confraternizações, amigos secretos e muita agitação no trânsito, aumentando o número de acidentes.

Não posso deixar de me lembrar dos natais da minha infância, quando não existia essa entidade chamada shopping-center em torno da qual se estrutura praticamente toda a nossa atividade natalina. Naquele tempo as coisas eram mais simples, menos sofisticadas. Quando criança, nunca me levaram para “ver Papai Noel no shopping” ou em qualquer outro lugar. Em Campina Grande, no início da década de 1950, coisas como essas eram distantes dos nossos festejos, e como Papai vez por outra estava desempregado, havia natais em que não adiantava colocar o sapatinho na janela do quintal porque o bom velhinho não vinha mesmo. Mamãe, com sua sabedoria, contou a mim e a Bráulio que Papai Noel era o pai da gente mesmo, mas só quando havia dinheiro; e que se em um ano as coisas estavam ruins, era sinal de que no outro ano elas estariam melhores. Dessa maneira simples, nos ensinou a Esperança. E não sei como, dava um jeito de arranjar uns trocados e nos levava para “a festa”, que era como chamávamos o parque de diversões armado em toda a extensão da avenida Floriano Peixoto, a principal rua da cidade, com roda-gigante, carrossel e os pavilhões onde todos bebiam e comiam à vontade. Lá, dava algumas voltas conosco no carrossel e depois voltávamos para casa, ainda tontos e com os olhos cheios das luzes em redemoinho… Não havia ceia, nem presentes, mas estávamos felizes.

Hoje não é mais assim. As estatísticas mostram que na época de Natal há maior incidência de crises de depressão e de suicídios, principalmente entre pessoas idosas. Há uma condição já reconhecida na clínica chamada “Christmas blues” ou “depressão de Natal”. A pessoa sente-se triste, desamparada, desanimada, sem perspectiva. Os encontros de família contribuem para tornar mais intensos ainda esses sentimentos, e fica-se muitas vezes lembrando do que passou, mas não com aquela saudade boa e nostálgica, de quem “foi feliz sem saber”: ao contrário, a lembrança vem cheia de dor e solidão, de sentimento de perda irreparável, de profunda tristeza, de angústia extrema.

É por isso que tem gente que simplesmente “detesta o Natal”. Esta “depressão de Natal” tem alguns fatores desencadeantes: sentimentos de culpa por coisas mal resolvidas do passado, estresse e cansaço (isso acontece quando o freguês entra na maratona de compras-ceia-comemorações) e dificuldades com a família.

Como se defender da praga? Cuidar da cabeça, de preferência com ajuda profissional; minimizar as expectativas, não esperando de uma simples festa de Natal mais do que ela pode dar; procurar não se cansar muito fisicamente, comer e beber com moderação, pois afinal não estamos cobertos de neve para precisarmos nos empanturrar de calorias; ter tolerância e compreensão com a família reunida, e respeitar as esquisitices de cada um, não se envolvendo em disputas; não tomar resoluções drásticas e superiores às nossas capacidades; e, finalmente, permitir-se ficar triste e ter saudade, pois a tristeza e a nostalgia pelo que se foi são sentimentos naturais e devem ser experimentados, respeitados, aceitos e vivenciados.

Finalmente, lembrar novamente do Milagre. Sugiro a você, que está triste, que escolha o Natal deste ano como a festa da Fé, a festa do Milagre e a celebração da Esperança. Não importa o que aconteceu: se houver Fé na possibilidade do Milagre isso já é garantia de que o Milagre aconteça.

Feliz Natal.

25 comentários

  • Cinara Marinho : -

    Formidavel! voce sempre nos ensinando… obrigada!
    Feliz natal e 2009 cheio de saude e muita paz.
    Beijos.

  • Ana Morena : -

    essa homi deu descendo!!!! ;)

  • Denize Barros : -

    Eita, arrasou! Vou ordenar que todas as rainhas venham te ler imediatamente!

  • Daniel : -

    Mãe de Ana Morena (rs)…. ótimo texto!

    Agora descontextualizando, vai ter Blues no Natal, com Mad Dogs…
    Faz sentido, Christmas Blues? rs…

  • Lêda : -

    Gostei muito tide, voce sempre nos passando informações. A vida é um milagre e nos possibilita a fé. Feliz Natal, com poucas calorias! Lêdinha

  • Atalija : -

    Linda mensagem, Clotilde! É tudo que muita gente precisa nesse natal. :)

  • DeniseKN : -

    Ó uma súdita da rainha aqui deixando um abraço e votos de feliz natal com tudo de bom… ;)

  • zel : -

    clotilde, adorei seu texto e divulguei!

    você leu um livro chamado “heresia”? acho que você ia adorar (é sobre a incorporação das tradições pagãs pelo cristianismo!)

    beijo enorme e feliz natal :)

  • Nadia : -

    Oi! Vim aqui por causa da Denize… e por curiosidade também. E foi ótimo!
    Lindíssimo seu texto! Dá vontade de distribuir aqui no Saara (comércio popular do RJ), ou ler de hora em hora no do Shopping.
    É impressionante como esses significados, seja o pagão ou o cristão, se perderam.

    Feliz Natal!

  • Piedade Farias : -

    Clotilde,
    O teu mágico texto me antecipou o Natal, enchendo o meu coração com encantadoras lembranças e esperança.
    Um Natal muito bonito pra você.
    Beijos.
    Pié.

  • Graco Medeiros : -

    Maravilha de texto, Clotilde!

    Serviu-me, também, como diagnóstico às minhas implicâncias com a data, muito mais a serviço do “Clube de Diretores Logistas” do que da cristandade.
    Enfim, através do seu belo texto, descobri que não tenho problema algum com o BLUES. Só com CHRISTMAS!!!

    Bjão

  • Graco Medeiros : -

    Epa!!!

    Clube de Diretores “Lojistas” com “J” e não como digitei, com “G”.
    Faço a ressalva para não ter “pobremas” também com a gramática!

  • Margit : -

    Olá Clotilde!

    Também cheguei até aqui porque a Rainha ordenou e como sei que o que vem de lá é só coisa boa…

    Adorei o texto…hj, metade da população de Ctba está nos shoppings e a outra metade nos supermercados: uma loucura!
    Eu não quero presentes, só saúde e tranquilidade.

    Grande abraço

  • Linda : -

    Clo!

    Repara na intimidade… É q sou uma das súditas da rainha Denize.
    Belo texto!!! É bom msm pro povo parar e pensar no q anda esquecendo por aí pelo caminho, com tanta correria.
    Feliz Natal pra vc e um 2009 cheio de saúde, amor e paz!
    Bjos!!!

  • Maria Corrêa : -

    Valeu a indicação da Denize Barros, belíssimo texto.

    Maria Corrêa

  • Meg Nico_BH_ : -

    Clotilde,
    Acatando ordens da Rainha Denize, cheguei até aqui. E me emocionei muito com o seu texto: culto, amoroso e tolerante com nossas esquisitices, como vc diz.
    Muito obrigada.

  • Clotilde Tavares : -

    Minha gente,
    Devo explicações a todos, depois dessa enxurrada de “súditas da Rainha” que andaram por aqui, deixando meus outros leitores curiosos.
    Explico.
    A “Rainha” é a pernambucana radicada em Sampa Denize Barros, designer, que nas horas vagas cria bolsas femininas artesanais espetaculares sob a marca “La Reina Madre” (A Rainha Mãe). O trabalho da Denize é primoroso, lindo, deslumbrante e todos os adjetivos que vocês quiserem, e pode ser visto no endereço http://www.lareinamadre.com.br. Há num artigo meu publicado lá, no link http://www.lareinamadre.com.br/?p=6430#more-6430.
    E quem são as súditas? – perguntaria você, meu preclaríssimo leitor.
    As súditas somos nós, mulheres do Brasil e do mundo, que usamos as bolsas de Denize.
    Elas então andaram por aqui em colorida revoada, porque Denize citou este meu texto sobre o Natal no seu site.
    Então: visitem, se abestalhem com as bolsas, deixem recados, e citem meu nome, para ela saber de onde está vindo o retorno.

  • Positive Vibration : -

    Positive Vibration
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    Positive Vibration
    Clotilde um xeru e um abraço carinhoso do seu leitor fantasma…Se o Natal é uma data maravilhosa,imagine sendo comemorado aqui na minha linda cidade Natal! hehehe….Felicidades mil e muito + para vc…. Positive Vibration.

  • manu : -

    Maravilhoso texto. Eu sou uma que sofro de depressão natalina mas sempre procuro pensar nos milagres diários e principalmente na meia-noite que antecede um novo dia.

    Parabéns e Feliz Natal!

  • Danny Barros : -

    Maravilhoso seu texto… amei , sempre sofro da depressão natalina, desde criança… mas irei rever muitos conceitos… mudanças são necessáiras não é mesmo?
    Para que o Milagre verdadeiro acontecça dentro de nós!
    bjs e Feliz Natal!
    Danny Barros – Borbolet’s©

  • Rosália Filizola : -

    Clotilde,
    Lindo texto, emocionante e antropológico, necessário. Você DEVIA ter escrito isto!
    Congratulations
    Rosália

  • Gibson azevedo : -

    Muito bem Clotilde!… Belo trabalho de pesquisa; trabalho de fôlego…. Uma bela visão do Natal.
    Levou-me entretanto a recordar, da minha infancia na pequenina Jardim do Seridó-RN; quando na década de cinqüenta, na visão do meus olhinhos de criança, só ficaram registradas as manifestações culturais – as festas pagãs. Não recordo de outras coisas, senão: o pastoril, a chegança, o reisado etc. etc., isto tudo com muito cheiro de querosene queimado, de cachaça e de ananás. alguns doces secos e alfinins… Bom tempos aqueles!.
    Feliz natal Clotilde!

  • Gibson azevedo : -

    Muito bem Clotilde!… Belo trabalho de pesquisa; trabalho de fôlego…. Uma bela visão do Natal.
    Levou-me entretanto a recordar, da minha infancia na pequenina Jardim do Seridó-RN; quando na década de cinqüenta, na visão do meus olhinhos de criança, só ficaram registradas as manifestações culturais – as festas pagãs. Não recordo de outras coisas, senão: o pastoril, a chegança, o reisado etc. etc., isto tudo com muito cheiro de querosene queimado, de cachaça e de ananás. alguns doces secos e alfinins… Bom tempos aqueles!.
    Feliz natal Clotilde!

  • VENANCIO JUNIOR : -

    Clotilde,

    Você escreve sobre um tema polêmico e profundo.
    Sua pesquisa e informações merecem aplausos.

    TUDO DE BOM, E FELIZ 2009, EXTENSIVO A FAMÍLIA!

    VENANCIO JUNIOR
    NATAL RN

  • Iara Maria : -

    Belíssimo texto, Clotilde!

    Feliz 2009!

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