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Clotilde Tavares

Clotilde Tavares - clonews@digi.com.br

Umas & Outras

A escritora Clotilde Tavares, que divide seu tempo e sua vida entre Natal e João Pessoa, apresenta ao leitor crônicas e artigos sobre Arte, Cultura e Comportamento.

Aumenta o som!

segunda-feira, 18/agosto/2008

O rock and roll é sempre um bom assunto. Ativa, incita, provoca, faz as pessoas tomarem posição. Nesta semana que passou, muitas mensagens chagaram à minha caixa postal ou foram postadas aqui a partir do tema da coluna anterior; é por isso que volto ao assunto, para também me posicionar melhor sobre “essse tal de rock and roll”.

Há uns quatro anos, em Natal, dando uma entrevista para o programa Xeque–Mate, da TV-U, um dos entrevistadores perguntou quais eram as minhas preferências musicais. Quando eu disse que gostava de rock, a platéia do programa, formada por jovens estudantes de jornalismo, passou a me olhar como se eu fosse um alien, ou uma curiosidade científica. “Mas a senhora gosta de rock?” perguntou um deles, como se eu tivesse dito que gostava de comer barata com banana ou coisa parecida.

Essas atitudes revelam muitas coisas, e a primeira delas é o desconforto que causamos nas pessoas que nos cercam quando saímos do estereótipo, do esperado, do comum, do normal. Uma mulher da minha idade, avó de netos, que anda toda pronta e maquilada, talvez devesse dizer que gostava de seresta ou de MPB, música erudita, ou, quando muito, bossa-nova. Mas rock! Rock é música de outra geração. Mas de qual geração, pergunto eu a você, meu caro leitor de todas as idades? Ora, se você tem cerca de sessenta anos eu mesma respondo: da nossa.

O rock and roll é a música da minha geração. Ninguém tem mais direito ao rock do que nós, cinqüentões e sessentões de hoje, que assistimos a todos os filmes de Elvis Presley quando passaram pela primeira vez nos cinemas, que atordoamos os ouvidos dos nossos pais e vizinhos tocando nas nossas radiolas “Tutti frutti” e “Lucillle” com Little Richard, “Johnny B. Good” e “Roll Over Beethoven” com Chucky Berry e “Rock Around the Clock” com Bill Halley. Ninguém tem mais direito ao rock do que nós, que enlouquecemos com o grande Jerry Lee Lewis e suas “Great Balls of Fire”. Tudo assim, novinho em folha, saído do forno, com toda a energia de uma música diferente, de caras desgrenhadas – Little Richard – ou topetes exagerados – Elvis Presley – sem falar no balançar de quadris e gritos alucinados que deixavam nossos pais sem entender direito o que estava acontecendo.

Lembro-me de que aos 12 para 13 anos, em Campina Grande, saía de casa escondida para dançar rock na casa das amigas, e passávamos horas ensaiando os passos e as acrobacias, porque naquele tempo a dança era coreografada com toda a minúcia. Peguei muito castigo e levei muitas lambadas da minha mãe por que dançava “essa dança imoral”, que era como viam o rock na época. Uma vez, dançando com uma galera da mesma idade na sala da casa de uma amiga, janelas abertas para a rua, minha tia passou, vinda do trabalho e viu tudo. Quando eu cheguei em casa ela estava contando a Mamãe: “Ela estava escanchada na cintura do menino; depois, virou de cabeça para baixo e passou por dentro das pernas dele!” Eu fui entrando e já levando uns tapas… Eram assim as coisas naqueles tempo heróicos, entre 1959 e 1962, onde cavamos o direito a ter nossa própria música e atitude às custas de surras, proibições, castigos, lamentações maternas e ameaças de colégio interno, numa época em que os pais mandavam nos filhos e não ao contrário, como é hoje em dia.

A última vez que dancei assim, com acrobacias e pituetas, foi uns trinta anos e uns vinte quilos atrás, numa memorável comemoração de uma turma da Faculdade de Medicina, quando eu e o médico Iaperi Araújo, também grande dançarino de rock, fomos a sensação da noitada.

O rock foi em frente e eu fui junto com ele, passei por todas as suas fases e de cada uma delas sobrou um som que ainda me acompanha nos dias de hoje. Do rockabilly às baladas de Elvis, The Beatles, Rolling Stones, o punk de Sid Vicious, Jimmmy Hendrix e Janis Joplin, Crosby Still Nash & Young, Bob Dylan, Pink Floyd, o metal de Iron Maiden e Black Sabaath, Peter Frampton, Cat Stevens, Jefferson Airplane… Os nomes vêm chegando à minha cabeça, atravessando as décadas, até Nirvana, Bad Religion, U2 e Coldplay. Estudei, namorei, casei, separei, curti, dancei e embalei minha vida e meus meninos ao som dessa música que não é somente um som: é também atitude, atitude de rebeldia, de negar a mesmice, de não ter medo de ousar, de ir contra o que está aí, de ser rebelde, com causa ou sem causa.

Muita gente muda de atitude ao longo dos anos. Perde o pique, o tesão, a energia. Aí, deixa de gostar de rock e passa a gostar de seresta. Eu não, meu caro leitor. Se os sessenta e tantos quilos e a osteoporose não permitem mais os passos acrobáticos da dança, a cabeça continua tão louca como há quarenta anos e eu ainda me identifico muito com esta música que, queiram ou não os mais jovens, é minha, por direito, por antigüidade e por afinidade. Não gosto de MPB, nem de música sertaneja nem de seresta. Gosto de jazz, de blues, de ópera.

Mas a coisa que gosto mais de dizer é: “Aumenta o som que é rock and roll!…”

8 comentários

  • edinaldo de alencar : -

    Clotilde,
    Quantas saudades de seus escritos.Esse “aumente o som”,retrata fielmente a nossa época dourada e inesquecível.Continue embalando os nossos sonhos, venturas e desventuras com seus escritos inigualáveis.
    Abraços, Edinaldo.

  • Mara Cardoso : -

    Delicioso ler estas palavras que traduzem exatamente o que se passa comigo, uma senhora recém chegada aos cinquenta e que não tem nem vestígios de velhice lá dentro, na essência! Cá fora, as coisas começam a ficar evidentes, mas, ainda aguento bem uma noite inteira de balada, se o som for rock and roll! Realmente, ninguém tem mais direito do que nós!
    Sou fã inconteste dos seus textos há tempos e tenho me deliciado com a sua volta!

  • leonardo florencio : -

    Quem diria que o simpatico senhor Iaperi, meu precetor da residencia de Ginecologia e Obstetricia foi um eximio dançarino de rock’n roll no passado. Iaperi e suas multiplas facetas!!!!!!! Essa nao posso deixar de espalhar na MEJC.

  • Esau Magalhães : -

    Clotilte,
    Adoro Rock, MPB, e Música Erudita,particularmente dos Bachs - (Johann Sebastian, e Johann Christopher).
    Salvo duas ou tres composições, nao vejo graça na tal da “bosta-nova”.
    Bises,
    Esaú

  • Marcos Flávio Café : -

    Cara Clotilde…Não tenho a certeza absoluta se há livros com tantas informações que você possui e adquiriu! (Quer ser minha orientadora? ….rs!)
    Nós trintões também passamos pelos “tapas” e olhados pq usávamos preto, cabelos quase na cintura, caveiras etc…(Minha sorte foi a novela global Vamp, que tinha um cara cabeludo que nao me recordo o nome, e, só assim, depois que o cara virou galã….rs!)
    Advogo sua idéia de que o rock é a antítese da mesmice, da aversão dos “em série”, e com ele aprendi e descobri verdadeiros poetas, melodias sincrónicas, amigos, enfim..
    Tenha a certeza de que nós devemos a vocês a resistência e a sustentação da bandeira!
    Parabéns pelo excelente texto!

  • Carol : -

    You look like a rock star, hell yeah!

  • Eudes : -

    Caríssima Clotilde ainda bem que não estou sozinho, estava me achando um verdadeiro estranho no ninho quando em sala de aula justifico gostar de rock nesses meus 50 anos de vida.
    Um abraço.

  • Alexandre Gallo : -

    Clotilde,
    estou acabando de lêr o seu artigo e me deu uma vontade enorme de escutar Janis Joplim, espero que meu filho que ainda vai nascer em abril de 2008 tenha oportunidade de conhecer esse som que é repassado de geração, através de pessoas como você que não perde o pique, tesão e a energia. Muito obrigado

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