Quero ser um Intelectual Natalense.
O escritor carioca Arthur Dapieve afirmou certa vez em crônica que preenchia vários requisitos que poderiam fazer dele um intelectual. Usava óculos, tinha livros publicados, era professor e careca. Fiquei pensando se eu poderia ser um intelectual também. Já publiquei uns livros, tenho meio grau de miopia e sofro de calvície faz tempo. “Só falta agora dar umas aulinhas”, pensei. Mas aí, um amigo mais experimentado me alertou. Em Natal, as regras são bem distintas. Para ser um intelectual natalense eu não precisaria ter nenhuma das características apontadas pelo cronista carioca. Adentrar na sociedade secreta da intelectualidade natalense é uma tarefa das mais complexas e exigiria de mim uma série de renúncias, além de total entrega.
Segundo esse meu amigo, minha primeira ação para me tornar um intelectual natalense seria nenhuma. Isso mesmo: nada. Um intelectual natalense que se preze é reconhecido pela completa inércia. Ele não tem tempo de ficar realizando coisas, trabalhando em prol da cultura, concretizando uma obra para dividir com os conterrâneos. Ele vive ocupado demais se lamentando pelos bares do Beco da Lama, enquanto toma uma meladinha e fala mal de quem surge em seu campo de visão.
É que o Intelectual Natalense é muito mais cerebral que proativo. É um artista que pensa e, por pensar demais, não age. Ele tem sempre as melhores ideias. Tudo de bom que as pessoas realizam, ele já tinha pensado antes. Quando algo dá errado, ele é aquele cara que diz “Eu avisei”. E depois complementa com um: “Se eu fosse fazer isso, seria de uma maneira diferente, muito melhor.”
O Intelectual Natalense reclama dos que fazem alguma coisa e critica vorazmente tudo o que é realizado na área cultural nessa terra de Poti. Acusa todos de incompetência, se diz vítima de perseguição e chora o fato de nunca ser lembrado, convidado, homenageado, elogiado e saudado.
Um paradoxo facilmente identificável nesse gênio da raça é que, ao mesmo tempo em que mantém um tom crítico e feroz ao comentar o trabalho alheio, demonstra completa inapetência quando é ele o alvo de críticas. Dono de singular intolerância a opiniões minimanente contrárias às suas ou reticentes com relação a sua obra, o Intelectual Natalense não aceita muito bem ser contrariado e parte para uma reação agressiva e ensandecida que, não raro, desencadeia em ataques pessoais do mais alto grau de baixaria.
Ele tenta passar uma imagem de erudição, falando de livros que nunca leu (ou até leu, mas não tem certeza se entendeu) e filmes italianos que nunca viu (ou até viu, mas que elogia, não por ter gostado, mas que pega bem dizer que gosta mais dos bangue-bangues italianos). Consegue sensibilizar alguns incautos que acabam convencidos que um artista brilhante como aquele mereceria um pouco mais de respeito e reconhecimento.
O Intelectual Natalense tem uma fixação por Câmara Cascudo. Sempre que quer provar uma tese, ele cita o nosso grande autor. Aliás, se utiliza de citações para exalar inteligência até nas conversas mais banais. Como a maioria dos potiguares nunca leu nem a capa de um livro de Cascudo (nem ele), fica fácil manter as aparências. “O grande Câmara Cascudo já dizia: ‘Batatinha quando nasce se esparrama pelo chão’.” E as jovens universitárias com bolsa de crochê e broche do PSOL responde: “OOOOH!”.
É fácil reconhecer um Intelectual Natalense em locais públicos. Ele mantém sempre um ar sério, circunspecto, ranzinza e mal-humorado. É aquele cineasta sem filmes, dramaturgo sem peças, poeta sem livros e pintor sem quadros que inicia 90% das frases dizendo: “Eu tenho um projeto…”. E termina se justificando: “…mas ninguém nunca se interessou.” De vez em quando, ele respira fundo, esquece do nojo que sente pelo resto da humanidade e profere algumas sentenças amargas à guiza de diálogo. Ele também tem na ponta da língua frases clássicas como “Natal não consagra nem desconsagra ninguém.” Ou ainda a trovinha: “Rio Grande do Norte,/ capital Natal;/ em cada esquina um poeta,/ em cada rua um jornal.”
Se eu quiser me tornar um Intelectual Natalense devo parar imediatamente de publicar livros e começar a escrever poemas ou contos chatíssimos que versem sobre sertão, Boi Bumbá, folclore e a vida simples no interior. Meu senhor e meu Deus será Ariano Suassuna e todo aquele que falar mal, nem que seja do penteado dele, será digno de levar uma paulada na cabeça ou uma esculhambação pública.
Caso eu lance um livro algum dia e, por um acaso, ele não vender nada, não devo reconhecer minha pobreza criativa. Intelectual Natalense não errra e, por isso, não faz mea culpa. Devo sim botar a culpa nos outros: na mediocridade da população, na insignificância da cidade, na touperice dos jornalistas, na limitação intelectual dos escritores, no descaso das autoridades, na juventude que cultiva interesses menores, na queda da bolsa, na alta do dólar, no cartel dos postos de gasolina. Enfim, a responsabilidade pelo meu fracasso será de qualquer um, menos minha. Isso, se eu não descobrir alguma estratégia mirabolante do resto do mundo que tem como único propósito me prejudicar e, certamente, engendrou algum complô contra mim, uma vez que serei o centro do universo.
Um fracasso no lançamento de um livro, inclusive, será uma ótima oportunidade para arrumar briga com alguém. Pois essa é a maior diversão de um Intelectual Natalense. Como ele não produz nada, não constrói nada e não faz porra nenhuma que não seja criticar os que fazem, sobra-lhe muita energia para ser dispensada em arengas banais que ele transforma em disputas coléricas, embates épicos e duelos mortais. Por isso, preciso urgentemente arrumar um desafeto.
Com Pablo Capistrano não dá pra brigar. É carismático demais e todo mundo iria ficar do lado dele. O que poderia até ser bom para que eu acusasse uma clara conspiração contra mim e posasse de vítima. Pensei também em Alex de Souza. Vamos ver se ele engole corda. Aliás, você já notaram como ele ficou ridículo depois que cortou os cabelos?
Pronto. Quando eu fizer tudo isso, combinar uma boa dose de arrogância, incompetência, preguiça e despeito, poderei me orgulhar de finalmente ser um Intelectual Natalense. Serei um homem realizado e convidarei todos vocês para tomar uma meladinha no Beco da Lama para comemorar. Na ocasião, falarei mal de todos os outros mortais e nulidades que povoarem minha memória e acusarei a sociedade de desrespeito para com a minha magnânima pessoa por não me ter alçado ao posto supremo de Intelectual Natalense antes, uma vez que há muito mereço tal honraria.
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Ironicamente, e talvez propositalmente, os únicos bois que receberam nome são duas raríssimas exceções dentro do estereótipo citado. Não digo nem que são gente boa (Alex não se esforça nem um pouco em ser simpático), mas são inteligentes e principalmente justos. A grande maioria, diferentemente destes dois, possui uma bagagem enorme de conhecimento, mas falta inteligência na hora de encontrar uma utilidade para a mesma. Uma pena.
É… Até que enfim estão despertando para um assunto importante, ou pelo menos deveria ser para a maioria da sociedade natalense. É preciso que a vanguarda intelectual, a verdadeira, tome frente de um movimento de mudança cultural. Ora! Ninguém mesmo compra os livros dos autores locais, acham, apenas por ouvir falar, que realmente só existem Câmara Cascudo e Zila Mamede, quando há uma grande nova geração e escritores, como Fialho, por exemplo, e ficar preso num mundinho fechado repleto de cachaça e Cavaleiros do Forró, verdadeiros intelectuais, os natalenses mais respeitados e conhecidos no Brasil, mais até que o próprio Cascudo…
O Intelectual natalense descrito nesta crônica não é o principal culpado… culpado somos nós, público leitor que não lê nada, mas sabe de tudo… Pareço não estar sendo claro? Claro! Há quem frequente este lugar só pra malhar o colunista, e há os que frequentam pra ver o que há de novo (falando de qualidade) no cenário natalense. Vocês decidem.
Valeu, Fialho, continue criticando a parcela não pequena dos seres medíocre desta cidade, já que tens mais voz do que eu!
Pô Fialho, o teu texto me fez pensar no método do Rabino Akiba, que no século I costumava a dizer algo do tipo: “me mostre um intelectual e eu o espancarei como a um jumento!”.
ps.: Alex não é mais o mesmo depois que virou Skin Head.
Existe um projeto semelhante a Calçada da Fama/ LA, q será implantado no Beco da Lama… Irá se chamar “Muro da Fama”, mãos desses pseudo-intelectuais cravadas e imortalizadas por toda a eternidade em posição de baculejo…
Fialho,
Você esqueceu de citar os mais perigosos, porque os do Beco são café pequeno frente a eles. São os que vivem escanchados nas livrarias, sejam de shopping ou não, falando mal da vida alheia, porque ler que é bom, tá difícil.
E repito o desafio que fiz lá no blog: venha pra briga! Só não vale dedada!
Beco da lama não é o mesmo local que as Patricinhas Culturais vão? o0
Fico feliz em saber que vc pensa em algo além do tema ‘patricinhas culturais de natal’.
Continue assim.
O próximo passo é comprar um espelho.
tou com marina.
daí você vai ver o quanto você se parece com esses intelectuais qe você descreve aqi e com todas as outras ‘figuras natalenses’ qe você tanto critica.
espero ansiosamente por uma análise do cara do espelho ;)
ahaaaammmm!eu sabia que as meninas nos salvariam desse lambe-lambe que rola entre os homens dessa sala escura!elas trouxeram a lanterna e…fizeram,como sempre fazem, a luz,toda a diferença,porque refletem,ponderam,pensam!!!aahhh,se um dia pelo menos metade desses meninos parassem pra pensar sobre suas lambujas e suas feridas expostas,meu pai…tão mediocres e tão cretinos em seus sonhos de fama (cuidado,meninas,o alvo deles são vcs!) e de lampejos de vaga-lumes!publicam e acreditam naquilo!se levam à serio;os rapazes,ora quem diria…desconfio que é por isso que os melhores talentos recentes deste estado sejam mulheres,quase escondidas em seus blogs,semi-cobertas pelo disfarce do anonimato!quem dera publicar fosse algo um tanto mais complexo e fora do alcance de minha linda sobrinha de 06 aninhos que manipula a multifuncional e o word melhor do que eu e que ja publica suas estorinhas,distribuidas entre suas amigas!fazer o que,né?alguém por favor dê um espelho pressiminino,pelamordedeus!ah: e outro pro Apyus,a quem não me consta ainda o prazer de haver sido apresentado,que pena!não jogue mangabas podres em sua propria cabeça,olhe pra cima!
com certeza, não li as coisas qe você leu, não sei criticar como você e nem sei ser assim, tão hipócrita,
mas pegando emprestadas as palavras do alex: “venha pra briga! só não vale dedada!”.
Anderson Legal, quando cravarem a impressão das mãos lá, olhe com cuidado: provavelmente o indicador com o polegar estarão na sua forma costumeira do Top Top Top Garcia… para o povo, , claro, com carinho, dos ‘intelektuais’ da terrinha!
(Risos!),já estava na hora de alguém quebrar a “redoma de vidro” ou “chutar o pau da barraca”,como queiram, para mostrar as “patricinhas culturais” e as “intelectualidades de Natal” que existe terra além do horizonte.Você soube retratar com maestria as caracteristicas dos cujos. Ah! e o pior,os(a) colunistas sociais se acham a ponta da pirâmide dessa “intelectualidade”.Não me acostumo a tanta mediocridade e atraso. Vamos rumo ao novo!!!
É…tem as pessoas nas livrarias também! Elas são muito desagradáveis.
Coincidentemente acabei de ler uma frase na net q diz o seguinte: “O primeiro dever da inteligência é desconfiar dela mesma”, de Einstein.
Aliás, tem pseudointelectuais em todo canto, inclusive nas colunas da Digi.
:P
PS: Fialho, para eu não ser mal interpretada, refiro-me a maioria dos colunistas, não a todos!
Fialho, essa coluna tá bombando… só sei o seguinte, não conheço Pablo Capistrano nem Alex de Souza e nem sei o que eles fazem… se sou desinformado quanto a isso, sorte a minha! Conheço o seu trabalho e livros, eles são muito bons, mas tou pouco me lixando para saber quem é o intelectual… Vamos continuar fazendo nosso trabalho, fazendo bem feito e dormir com a consciência tranquila, que o bom resultado sempre aparece… daí vc deixa os filósofos do apocalipse falarem, falarem, falarem…
O melhor dessa coluna são os comentários. Quando vejo que tem texto novo, acabou de ser publicado, nem leio. Volto algum tempo depois, aí sim!
E cito não Cascudo, mas Nelson Rodrigues: “Toda unanimidade é burra”. Se isso se aplicar aqui, algo ou alguém está no caminho certo.
Dependendo de quem cita Nelson Rodrigues, isso é uma agressão ao mestre…
ei……. devolve meu cérebro?!
EU GOSTEI DE ALEX DE CABELO MAIS CURTO
=P
papangu, hehehe
LEGALIZE MARIJUANA!
ih, opa, coluna errada, foi mal. sou hippie não
Carlos pelo a amor de Deussss case-se comigooooo!!
Sou apaixonada pelo seu trabalho…
Fialho, sempre que possível leio seus textos, e acho que tem sempre algo de interessante para ser aproveitado, nos fazer refletir um pouco. E é por esta razão que lhe peço: “Por favor, não mude!
Acho que não tive o (des)prazer de conhecer pessoas tão desprezíveis como os que você chama de “Os Intelectuais de Natal”. Talvez por que os que considero intelectuais não sejam os formais… (sorte a minha, então)
Não conheço os seus trabalhos, mas sugiro (se já não o fez) um texto mais carinhoso com Natal. Lendo o descrito acima parece que está falando de um esgoto asqueroso, feio e fétido. Tenho certeza que com sua inteligência sagaz não terá dificuldade em identificar cenários, cenas e criaturas pitorescas, homéricas, perfeitas para o seu escrache, que nos façam tanto rir quanto refletir mas principalmente torcer para nos depararmos com um deles qualquer hora dessas…
Considero você um intelectual, afinal, intelectual que é intelectual faz piada do genêro. O nerd de hoje é o cara lindo de amanhã….
ei……!!! vc ainda nao devolveu meu cérebro?!