A Revolução do Sofá
Com certeza você deve concordar que ativismo se faz na rua, na praça, em grupo, com gritos de guerra, com bandeiras, com faixas. É de frente para uma certeza como esta que eu adoro perguntar coisas como: “por quê”? Lembre-se que “porque sim” não é resposta.
Os grunges usavam blusa de flanela por um motivo simples: vieram de Seattle. Uma cidade que tem de quente o que a Palestina tem de paz. Sabe onde mora a bobagem? Grunges mossoroenses, lá no meio do sertão nordestino, também usavam estas blusas quentes na década de 90. Por que eram de Mossoró? E os emos natalenses que amanteigam todo o cabelo para parecer lambido como os emos gringos, que já trazem do berço o cabelo liso e facilmente “lambível”?
Antes de responder o porquê de o ativismo se fazer nas ruas, tente responder a outra questão: o que é uma manifestação? Falo do sentido político-social. Meu Aurélio define assim: “ato ou efeito de manifestar”. Que por sua vez significa “divulgar-se”, “mostrar-se”, “revelar-se”. Posso então entender que quem organiza uma manifestação busca apresentar-se ou apresentar algo ao mundo, certo?
Pois bem. Ativismo se fazia nas ruas porque era a forma como certos grupos tinham de aparecer com suas idéias para o mundo. Em 1964 o que havia eram as praças, os muros, o fanzines, os megafones. E a torcida para que a mídia cobrisse a manifestação e reverberasse a mensagem. Hoje, fisicamente temos basicamente os mesmos recursos. Mas virtualmente podemos ser grandes. Não só podemos como somos. Tanto que sexta-feira passada, através do Twitter, em apenas duas horas, mais de 20 mil brasileiros se reuniram virtualmente e se manifestaram: disseram ao mundo que não queriam a presença de José Sarney na política nacional. Como ainda não pararam de pipocar mensagens semelhantes, e como o Twitter é uma rede onde apenas 10% de seus usuários costumam se pronunciar, podemos inferir que estes 20 mil votam por um grupo no mínimo 10 vezes maior que o noticiado. Ainda assim parece pouco? A mensagem foi replicada em vários portais e até telejornais. Não seria esta a intenção de uma manifestação? Reverberar uma mensagem? Pois esta mensagem chegou a José Sarney quando perguntado sobre o que achava dos internautas que faziam campanha contra ele.
Ontem, quarta-feira útil, teria um “#forasarney”, protesto organizado após a manifestação de sexta-feira, em Natal. Divulgado para as 15h na Praça Cívica. Eu fui. Cheguei atrasado por conta de compromissos profissionais. Dei duas voltas na praça. Avistei apenas alguns estudantes de escolas públicas próximas fazendo o que fazem no seu dia-dia: namorando, jogando conversa fora, lanchando. Fui embora. Na dúvida se o protesto havia acabado em menos de uma hora, ou se nem existiu. No Rio de Janeiro e em São Paulo nem 50 pessoas conseguiram se pronunciar. Não deve ter sido diferente nas outras 10 capitais que agendaram manifestações semelhantes.
Onde está o erro? Muitos já apontam nosso comodismo. Dizem que somos brasileiros e que não estamos nem aí para nada. Que somos preguiçosos. Que só carregamos bandeiras quando se trata de futebol. Que não mudaremos nada enquanto não levantarmos do sofá e formos para as ruas.
Mas é realmente preciso ir às ruas para mudar o mundo? Não é o que pensam os caras que de fato o mudam, para o bem ou para o mal. Empresários monitoram seus empregados através de webcam. Traficantes comandam o tráfico de dentro de prisões. Exércitos mandam mísseis teleguiados que rodam o planeta e destroem vidas lá do lado de lá. Enquanto isso, o manifestante precisa matar o trabalho correndo risco de perder o emprego, pegar o ônibus, correr para a Praça Cívica, riscar numa cartolina o #forasarney e torcer para que exista algum repórter registrando seus gritos de guerra, cause isto um transtorno à sociedade ou não.
Que bom que não havia ninguém na praça ontem. Assim comemoro torcendo para que finalmente pensemos antes de agir. Sexta-feira dormimos com a certeza de que ao menos 200 mil brasileiros queriam José Sarney fora. Hoje os jornais não contam nem uma centena deles com faixas na mão. Pergunto: somos apenas 100 ativistas ou 200 mil brasileiros que não queremos Sarney na política nacional? Pergunto novamente: qual manifestação apresentou um valor mais próximo da verdade? As tags do Twitter ou as faixas na praça?
Sei que a internet ainda é luxo neste país (como eram os televisores em 1964). Nós, internautas, representamos apenas 20% dos brasileiros, ou algo próximo de 40 milhões de seres humanos. Parece pouco? José Sarney não acha. Ele modifica para pior a vida de todos nós graças a 152.486 votos. Não por acaso ele hoje manda em vários canais de TV, este aparelhinho que está ao alcance de todos, assim como sabemos que estará um dia a internet.
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Excelente, Marlos! Parabéns pelo texto.
Valendo salientar que, ao contrário do que tentam fazer atualmente, nunca vamos ter uma internet policiada e cartelizada assim como temos a TV hoje em dia – pois a internet é livre em seu design mais básico. Este pequeno fato tornará a expressão coletiva na internet algo ainda mais poderoso do que já é hoje.
Venho acompanhando há pouco tempo esse mundo de blog’s e twitter’s e confesso que estava bastante ansioso pra saber como seria essa manifestação. E sua descrição diz tudo.
Ativismo – Twitter – Sarney. A combinação é densa.
Ativismo vem de uma herança histórica forte desde 1850 (sim, estou lembrando de Marx. Toda vez que vejo a foto dele e leio Das Capital, eu sempre acho que ele parece que precisa tomar um bom banho!) e quanto mais (o ativismo) se aproxima da linha do Equador, ela resvala para o superficialismo. Ativismo então, para mim, tem a ver com o seu “…Falo do ativismo político-social, também…”. O Twitter é tecnologia. E morre por aí. Não tem nem a força histórica do ‘ativismo’ com a herança rala na medida em que se aproxima da linha do Equador. Temos que esperar, todavia, se essa tecnologia vai fazer o que o ativismo fez, historicamente falando. Mas basicamente é tecnologia, pelo menos por enquanto. Mas Sarney representa (falo do homem público), para mim, uma herança histórica das mais daninhas que se pode imaginar na cultura política brasileira. O Senador Sarney incorpora o patrimonialismo, o nepotismo, a mistura indecente entre o público e o privado, o domínio do mando desmedido com a borduna soft da indicação de cargos públicos (para mencionar um ponto), o oportunismo político, repito, e de quebra a riqueza material para deixar à “família” (e agregados)a mesma herança de forma a preservar essa cultura que infelicita a cultura brasileira. O que tem a ver o ativismo e o twitter com Sarney? Muito! Muito! Como? Minha observação: se o ativismo inicial (bem vindo em certas épocas) e o twitter como o ativismo tecnológico incorporar a herança que o Senador Sarney, então a sua geração, meu caro Marlos, não terá nenhuma relevância, como a minha teve e deixou os ’sarneys’ da vida perpetuarem-se. (OBS. O Senador Heráclito Fortes, neste instante, 17:24 “…o Senador Sarney poderá ser o substituto legal ao Presidente da República o ano que vem…”. Tira o ’sofá’ e você ficará com a ‘revolução’… do atraso!
Não adianta:isso tudo é briga de peixe grande!!o PT tenta blindar Sarney pois precisa de TODO o apoio dos canalhas do PMDB para 2010 e caso o atual presidente venha a sair, quem assumirá a presidência do Senado será alguém do PSDB. Ou seja; tudo o que o governo não precisa agora é entregar, de bandeja,o cargo mais importante do Senado a um adversário político das próximas eleições!! Ah, e advinhem quem é um dos responsáveis pelas articulações qu tentanm blindar Sarney?? ele mesmo: Renam Calheiros que foi alvo e inúmeras denúncias, lembram??O que aconteceu com ele mesmo??? a resposta alguém me dê,por favor!!
A internet, apesar de oficialmente já ter mais de 15 anos em nosso país, efetivamente está completando uma década. E pela primeira vez temos uma comunidade com voz dentro na rede. Nunca tivemos notícias que diziam coisas como “Os usuários o do Napster se pronunciaram contra Renan Calheiros”. Ou “os usuários do YouTube se pronunciaram contra o Mensalão”. Mas tivemos “os usuários do Twitter se pronunciaram contra José Sarney”. E isso teve certa relevância. E olhe que o Twitter engatinha por aqui. Se tivermos um milhão de brasileiros, temos muito. Imagine o estrago que seria uma notícia como “Usuários do Orkut se pronunciaram contra José Sarney”. Seria um voto que representaria 12 milhões de brasileiros. E olhe que o Orkut só tem 5 anos. Enfim… Há que se olhar com carinho para as redes sociais. E entender que elas representam bem a opinião pública do que desconfia nossa vã filosofia.
É inegável a importancia estratégica da mobilização das redes sociais. O estado da arte – e não vejo isso como algo assim tão distante – será quando conseguirem unificar as duas formas de atuação: convocação pela internet + mobilização boca a boca = povo na rua indepedente de chamada nas mídias tradicionais.
É com certeza um caminho pros virtuais atingirem metas mais concretas em movimentações do tipo.
O “#forasarney” minguou ?!? Bom motivo pra se avaliar onde houveram pecados. Não desistam !!! :)
Falando de foma prática. Rock’n roll brasileiro,… movimentos alternativos e talz… Fico pensando na relação entre a música e discursos políticos quando haviam manifestações (comfixas é claro!!) declaradas no Brasil tipo aquela na época da ditadura, sabe… fico pensando por quê adoro Chico Buarque, Os Novos Baianos, Titãs – do início dos anos 80-, mas não suporto essas canções “emas” de hoje, nem Vanessa Camargo, nem Claudia Leite??? Sim é uma pergunta! Seria unicamente porque eles têm um visual estranho ou espalhafatoso que me fazem refletir sobre minha idade e minha educação? Será que eu nasci no país errado??? Acho que não. Me pergunto por quê só a USP ou a UNB aparecem na televisão quando o assunto é manifestação CONTRÁRIA a alguma ordem estabelecida, qualquer coisa, nem que seja a greve contra a greve porque ora bolas, ser competitivo e estratégico hoje é vital para conseguir comprar o abadá para qualquer micareta da vida, ou rodeio, ou baile funk, ou até pra freqüentar os “pubs” mais “cooooolll” de Sampa mêu…
Tenho uma idéia,vamos provar que ainda é possível mudar o mundo através de manifestos pela rua. Por que não convocamos uma multidão para um chamado “festival de rock alternativo”, AQUI EM NATAL, promovido e realizado com recursos da Lei Câmara Cascudo, e aproveitamos para fazer política e mobilizar a massa??? Poderíamos (já me incluo na idéia) chamar algumas bandas que tentam verdadeiramente mostrar a sua música (a gente pensa depois na letra), e que claro, sejam queridas por um número significante de grupos (pessoas) de rock, reggae e música alternativa em geral… o plano seria mais ou menos assim: no meio do festival, os organizadores – pessoas em potencial para mover aquela massa – aproveitariam para fazer algum discurso no sentido de provocar e iniciar o manifesto, seria botar pilha na galera sabe!!… daí os “patrocinadores” distribuiriam panfletos, bandanas e “negocinhos de se abanar” com a seguinte mensagem: “Fora Sarney”, “Fora Calheiros”, “Fora Collor”, “Fora Lula”… oops… bom, aí a manifestação continuaria, rapidinho a imprensa chegaria. Claro que a imprensa local majoritária não estaria muito interessadas, mas assim que a galera começasse a bloquear sinais de trânsito, e proibisse a entrada da prefeita no Palácio Filipe Camarão (isso teria que acontecer depois que a prefeita voltasse de Portugal é claro, quando ela volta mesmo?), algo iria rolar rapaz…, com certeza seria interessante para a imprensa, os jornalistas sem diploma que expliquem essa parte!
Os manifestantes não entenderiam direito o porquê daquilo tudo – porque afinal de contas só estão no mundo há uns 15 anos, ora bolas; e os universitários porque afinal odeiam ler textos “cabeça”, uma vez que ainda não sabem o porque estão na universidade (era melhor ter feito a privada mesmo e acabar qualquer curso em 2 anos e meio) – mas não teria problema, o som tava massa, foi de graça, as bandas divulgaram o material, vendeu-se cerva barata, e o manifesto estaria feito, ao som de qualquer música do NX0, por que claro, é tudo a mesma coisa! E mais, isso seria à noite, ou seja, ninguém arriscaria perder seu emprego! Depois a gente faria a mesma coisa com a galera do forró! Será que as letras das músicas mudariam???¿¿???
Ah, sobre a internet, acredito que seja um meio poderoso, mas ao mesmo tempo, ainda insuficiente frente às adversidades sociais e econômicas do Brasil. Além disso, creio que muitos como eu, utilizem a net para estudar e trabalhar, já basta! Prefiro fazer o resto no meio real… ou pelo menos tentar… mudar o mundo sem sair de casa??? Acho que a rua ainda é o melhor lugar.
Ainda: pra falar de Sarney é só mostrar a prova cabal: O Estado do Maranhão X Um caso de sucesso! Olha que isso dá uma tese espetacular!! A justiça pede provas não é? Não podemos processar o Sarney então?? Tão fácil. Aaaah tive outra idéia, não podemos trazer esse estudo para a universidade (além do curso de sociologia) e depois disso realizar o festival estratégico para tentar mudar o mundo nas ruas???
Jaimile a sua sugestão é boa. Mas não dá, na prática. Na hora vai aparecer um político da região, aí… Mais a mais, o povão vai achar que haverá alguma distribuição de alguma ‘bolsa-’ qualquer coisa!
Aproveito para fazer uma sugestão ao Marlos: leia Gay Talese, o grande jornalista americano que fez um sucesso danado (no melhor sentido da expressão) agora em Paraty, na FLIP. Vale a pena!
Gente, Sarney,collor,lula são todos miolos do mesmo pão que faz a torada.
To fora dessa. Viva a Fazenda!!!!
alguem poderia escrever algo sobre a fazenda???
Otimo texto. Legal.
Melhor que o fora Sarney foi o fora Gilmar Mendes, pena que esse tipo de coisa não tem repercussão na grande imprensa, mas se vc fizer uma busca no google por fora gilmar mendes verá que não são poucos. Pra falar a verdade é dificil entender porque num país onde tem tanta coisa errada, tanto bandido agindo em todos os setores da sociedade como grandes politicos, grandes empresários, mas só caem em cima do Sarney, e o pior, só AGORA caem em cima dele. Quem consegue entender a midia …